NICK CAVE AND THE BAD SEEDS – Dig , Lazarus, Dig (2008)

NOTA: 8,0

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O que já se imaginava aconteceu, a sombra do Grinderman, o projeto de rock de garagem de Nick com outros três membros dos Bad Seeds, paira inexoravelmente sobre o novo álbum do cantor australiano com a sua banda “principal”. Isso faz de “Dig, Lazarus, Dig” um dos trabalhos mais crus da banda desde “From Here to Eternity”, com muitas guitarras sujas. Nick leva seu lado mais visceral adiante num continuum de sua fase recente.

Artista inquieto, ele tem demonstrado versatilidade não só como músico, mas também no mundo literário, e mais recentemente no cinema, com o seu roteiro para o cowboy moderno “A Proposta” e uma curta participação no filme “O Assassinato de Jesse James” (onde aparece tocando violão), ambos com sua assinatura na trilha sonora, juntamente com a do parceiro e guitarrista Warren Ellis.

“Dig, Lazarus, Dig” é o seu décimo quarto álbum de uma prolífica trajetória ao lado dos Bad Seeds, iniciada em 1982. Já no título do álbum, Nick deixa claro que os temas com inspiração bíblicas ainda o perseguem. Já nos riffs garageiros que vão rasgando a faixa título, primeiro single do álbum, o ouvinte é alertado das intenções dessa nova empreitada com os Bad Seeds. O próprio vocalista já havia declarado que o álbum seguiria a linha do Grinderman.

Cavando nas canções de “Dig, Lazarus, Dig” encontraremos os acenos do Velvet Underground, influência mor do cantor australiano, Lou Reed, Doors e também dos Stooges, tudo meticulosamente reprocessado e despejado agora sob a forma de garage-rock songs com os inconfundíveis vocais graves e declamatórios do velho Nick, herança de Scott Walker e Leonard Cohen.

Sob uma torrente de guitarras ácidas, que nos fazem lembrar a fase que a banda ainda contava com Blixa Bargeld no comando das seis cordas, “Dig, Lazarus, Dig”, a canção, traz para os dias modernos a história de Lázaro, o ressuscitado, agora com o nome de Larry e vivendo atormentado, neurótico, viciado, louco, obsceno em Nova Iorque e Los Angeles, e por fim voltando ao túmulo. O estilo trovador prossegue em “Lesson’s Today” onde as guitarras gritam e se contorcem com os efeitos de wah-wah, ao contar os devaneios de Jeanie durante os sonhos, quando terá um “real cool time” na companhia de Sandman, o mestre dos sonhos, popularizado nos quadrinhos por Neil Gainman.

Seria um erro pensar que o álbum mantém a pegada garageira da primeira à última faixa. Assim como no Grinderman, as canções mais sujas são intercaladas por momentos mais calmos ou tensos, que remetem a outrora, só que mais básicas, sem os elementos que foram muito comuns na música do crooner australiano, principalmente na década de 90, como violinos ou pianos tristonhos. Por isso, “Moonland” e “Night of the Lotus Eaters”, embora sejam típicas canções dos Bad Seeds, acabam soando diferentes, devido aos instrumentais econômicos.

Com “Albert Goes West” o álbum faz uma viagem ao anos noventa através de uma massa distorcida de guitarras, com um arranjo bastante básico, carregando o lema punk “do it yourself”, mas com a visão musical dos Bad Seeds. A alma do Velvet Underground se faz mais presente na locomotiva desenfreada “We Call Upon the Author”, ao melhor estilo “Sister Ray”. Enquanto isso, a ótima balada “Hold on to Yourself” e seus riffs tristonhos levanta uma melancolia bem amarga: “Será que Jesus só ama os perdedores?”, indaga Nick amargurado em determinado momento.

Para os saudosos do Nick Cave romântico de “Boatman’s Call“, a agitada “Lie Down Here (And Be My Girl)” é uma declaração de amor ao seu modo ”um dia eu vou construir uma fábrica e montar você na linha de produção…vou construir um milhão de você e todas serão minhas”. “Jesus on the Moon” é a canção mais requintada do álbum, com violinos e instrumentos de sopro. É uma divagação sobre um relacionamento com uma garota que jaz com um brilho nos cabelos que se assemelha a Jesus na lua, um Jesus dos planetas e das estrelas.

Apesar das mudanças, a música de Nick Cave continua não sendo de fácil assimilação. “Dig, Lazarus, Dig!!!” é mais um grande disco de sua autoria, mais um acerto dentro da sua extensa discografia. Uma mistura do velho e do novo. Uma prova não só de sua capacidade criativa, mas de se reinventar, talvez por isso a longevidade de sua carreira. Nick não precisa provar nada pra ninguém, por isso parece sempre se divertir na criação de cada álbum e encantar sempre, mesmo quando lança um álbum que em muito se assemelha ao seu antecessor, ou melhor, de sua outra banda.

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