Reeditando: ELBOW – Seldom Seen Kid [Fiction, 2008]

“Em Reeditando postarei textos meus que foram publicados nos sites Outernative e Muzplay, da época em que escrevia para os mesmos”

Tem-se afirmado que o Elbow nunca alçou maiores vôos em sua carreira porque seu som nunca conseguiu atingir públicos específicos: para os mais “alternativos” seriam muito convencionais, para os “convencionais” seriam muito alternativos. Ficando numa espécie de “limbo” de indefinição que não permitiu que alcançassem as dimensões dos seus contemporâneos do Coldplay ou Muse. Quando surgiram foram enquadrados no famigerado “new acoustic movement”, “post radiohead”, hoje já são chamados até de post-rock.

Tudo muito injusto. Desde “A Cast of Thousands” (2004) que os rapazes vem mudando seu som, criando canções que mesclam elementos pop e alguma experimentação, com resultados bastante intimistas e não facilmente assimiláveis, é verdade. Quando muitos esperavam da banda refrões apoteóticos para serem cantados em uníssono em festivais enormes, eles vinham com canções arrastadas, que chegavam a surpreender até os fãs, salvo uma ou outra faixa com potencial para se tornar um hit. Com “Leaders of the Free World” (2005) ameaçaram uma aproximação com formatações de apelo mais pop, resultando no seu melhor e mais acessível álbum.

Quem afirmar que a falta de pretensão é que não permitiu que “estourassem” estará enganado, vide a recente mudança do selo V2 para a Fiction, braço da Polydor, com a afirmação de que cresceram a um ponto que a sua antiga gravadora não mais lhe cabia. Muito britânica, muito invernal, a música do Elbow não faz grande sucesso no Estados Unidos, requisito para quem quer se tornar grande. Talvez isso explique muita coisa… ou não.

Apesar das adversidades, o grupo se mantém ativo e demonstra personalidade. “Seldom Seen Kid” chega com novas perspectivas, marcando um momento crucial na carreira do Elbow. Nos três anos transcorridos entre “Leaders of the Free World” (2005) e esse seu novo álbum, os mancunianos passaram por experiências marcantes em sua carreira: mudança de gravadora; e em suas vidas: a morte súbita do amigo Bryan Glancy, em 2006, o nascimento de filhos e um vocalista apaixonado em sua nova relação. O álbum traz então o peso dos acontecimentos em seu título – “seldom seen kid” era o apelido desse amigo falecido, retirado de um personagem de um livro do escritor americano Damon Runyon – e no seu conteúdo, já que pela primeira vez a produção ficou a cargo da banda.

“É um álbum conceitual,” afirma o vocalista Guy Garvey, “pois é reflexo de um determinado momento de nossas vidas. É sobre a época e o país em que vivemos e o ponto de nossas vidas em que nos encontramos”.

Se no trabalho anterior o Elbow começava a mostrar preocupação com questões políticas, aqui as letras retomam o tom mais confessional, buscando expor essas percepções, essa atual fase, citada pelo vocalista, rendendo uma tocante homenagem ao falecido amigo na arrasadora balada “Friend of Ours”.

Muitos destrincharão o álbum atrás das influências do Radiohead, após a declaração do vocalista de que a banda não existiria se não existisse Radiohead. Nem precisava, as influências sempre foram evidentes. Jogada de marketing? Por irônico que pareça, “Seldom Seen Kid” é justamente o álbum em que eles parecem mais se descolar dos tentáculos da banda de Thom York. Apesar disso, “The Bones of You”, uma das melhores faixas do álbum, com suas influências flamencas e barulhinhos eletrônicos, poder ser chamada de uma canção radioheadiana, assim como “Some Riot”, outra bela faixa do álbum, com uma introdução matadora de piano.

Canções como “Starlings”, “The Loneliness Of A Towercrane Driver” e “One Day Like This” mostram um Elbow próximo do épico, com arranjos ancorados em elementos orquestrados, essa última com uma marcação que lembra bastante “Antenna”, do Kraftwerk.

“Seldom Seen Kid” não chega a dar uma guinada radical na sonoridade da banda, embora traga arranjos mais pomposos, com menos ênfase em guitarras e mais em orquestrações, e coros gospel, muito próximo então de seu antecessor. Traz baladas emocionantes como a já citada “Friend of Ours” e “Mirrorbal”. E permite que encontrem espaço para encaixar uma canção como “The Fix”, com elementos folclóricos, num divertido dueto com o cantor Richard Hawley, e influências hard-rock e country em “Grounds For Divorce”, escolhida para ser o carro chefe do álbum, e que foge não só da linha do álbum como de tudo que a banda já fez até aqui, vide os riffs e efeitos de guitarra.

Na superfície, permanece o mesmo Elbow melancólico, intimista, às vezes sombrio, com suas canções de seguimento linear. Diversificaram os arranjos, acrescentaram outros elementos musicais e isso foi salutar no resultado final e no crescimento como músicos. Um dos problemas é que estenderam algumas canções além do necessário, quando poderiam ter enxugado. Apesar disso, “Seldom Seen Kid” é um bom álbum, se vai fazer a banda alcançar algum sucesso? Provavelmente não, mas Garvey discorda: “Acontece muito dos melhores álbuns serem descobertos anos após serem lançados. Tem sido assim até agora. Com esse será bastante diferente”. Será?

Melhores Momentos: “The Bones of You”, “Some Riot”, “One Day Like This” e “Friend of Ours”.

NOTA: 8,3

2 pensamentos sobre “Reeditando: ELBOW – Seldom Seen Kid [Fiction, 2008]

  1. Queimando a minha língua e confirmando a previsão de Guy, esse foi o álbum do Elbow com melhor desempenho nas paradas inglesa e americana, tendo ganhado o Mercury Prize de 2008.

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