Há 2 anos atrás: The Twilight Sad – Fourteen Autumns & Fifteen Winters (Fat Cat, 2007)

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Em 1995 (14 anos atrás), a banda Tindersticks, no auge de sua carreira e no seu segundo álbum lançado (Tindersticks II), compunha uma das músicas com letra mais forte e perturbadora de que eu tinha notícia por esse vasto mundo da música. A quilométrica ‘My Sister’ – tanto em letra como em duração (8 minutos e pouco), um Stuart Staples com voz angustiante debaixo de um instrumental soberbo, vai narrando uma espécie de conto de fadas às avessas e que faria o ouvinte mais pessimista gelar a espinha. A história de uma menina que fica cega e paralítica, perde a mãe e o gato num incêndio, passa por outras dificuldades e que vai perdendo sua vontade de viver desde cedo, até que a pseudo-heroína pede para ser enterrada num caixão com madeira frágil e vagabunda para ser devorada pelos vermes o mais rápido possível.

Tindersticks é só mais um exemplo entre tantos. Pode-se falar que a história da música tem mais momentos que buscam a letra angustiante e escatológica sobre melodias excepcionais do que apenas a felicidade e o entretenimento do ouvinte. Resumindo: seria considerar a música mais próxima da literatura o possível usando espécies de personagens e suas tramas com narrativas conflituosas.

Diferentemente da turma de Staples, o vocalista James Graham e seus asseclas mostram uma sonoridade mais agressiva, menos orquestrada, moldada sobretudo na velha – e ainda usual e prestativa – escola do post-punk. Você vai descobrindo outras características na composição do som: um pouco de shoegazer, mais pitadas do folk bêbado e clássico dos Pogues e também não tem como omitir o jeito dramático de Graham de contar histórias trágicas e expor feridas.

Em tempos de internet e da rotatividade de grupos, é muito válida e decisiva a abertura de um disco. Penso que é a partir daí que você segue adiante na sua empreitada auditiva ou não. E nisso os escoceses estão de parabéns. A introdução que te conduz adiante vem com ‘Cold Days from The Birdhouse’, que começa com uma nota de piano tocada insistentemente junto a uma guitarra dedilhada para explodir, instantes depois, numa espécie de canção com guitarras sujas que faria o Sonic Youth sentir inveja; enquanto Graham declama sua poesia/letra num carisma único, apesar do sotaque nitidamente escocês, e tudo sem perder o charme de um pop perfeito. A segunda faixa, ‘That Summer, At Home I Had become The Invisible Boy’ é composta para te fazer grudar o fone no ouvido e te obriga a não parar, uma música em que se casam perfeitamente acordeão com guitarras floreadas de pedais. E, assim como um pouco do que você ouve aqui remete à literatura, nada mais justo afirmar que a própria voz cândida de Graham, contrapondo com uma letra terrivelmente trágica que leva um trecho como ‘the kids are on fire in the bedroom’, constitui, por si só, uma espécie de antítese moderna – o belo com o nefasto.

‘Walking For Two Hours’ segue o mesmo padrão das duas anteriores. Mais toneladas de pedais – sem economia de guitarras – junto com acordeão e uma bateria marcial. Por sua vez, ‘Last Year’s Rain Didn’t Fall Quite So Hard’ – a menor do disco – sai um pouco do padrão sonoro que o grupo vinha mantendo, e fica numa espécie de mantra com coro de vozes em repetição fazendo eco, guitarras mínimas porém marcantes e efeitos com acordeão; mesmo assim, uma bonita música.

E fique preparado para o que ainda está por vir. Seu coração palpitará mais um pouco e sua pulsação vai acelerar, contudo, é por um bom motivo. ‘Talking With Fireworks/Here, It Never Snowed’ e ‘And She Would Darken The Memory’ continuam embelezando os momentos do disco com recheio de noise, mais paredes de guitarras e Graham derramando suas letras. O fechamento do álbum vem com uma composição instrumental, ‘Fourteen Autumns And Fifteen Winters’, que remete ao âmago das suas lembranças e que traz todo um saudosismo das bandas shoegazers – e que vem comprovar uma das influências do grupo. O único momento em que Graham descansa sua voz.

Um disco que assume proporções épicas, uma banda que ainda não tem o devido e merecido conhecimento; talvez, até mesmo, um álbum que seja ouvido e admirado no futuro. Não importa. The Twilight Sad vem confirmar que, em tempos onde letristas já não são considerados por muitos ouvintes, é muito válido ousar e fazer uma diferença no cenário musical, com relevância não só para a melodia, como para as letras. E isso a banda conseguiu habilidosamente. E já estou ansioso pelo álbum novo que sai neste ano.

Nota: 8,5

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2 pensamentos sobre “Há 2 anos atrás: The Twilight Sad – Fourteen Autumns & Fifteen Winters (Fat Cat, 2007)

  1. Gosto muito desse disco, apesar de num primeiro momento ter estranhado o sotaque de James Graham, ele canta como que arranhando as palavras. Tem umas canções poderosas aí, e as faixas que abrem o disco já começam no topo.

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