REEDITANDO: Isobel Campbell & Mark Lanegan – Ballad of the Broken Seas [V2, 2006]

“Em Reeditando postarei textos meus que foram publicados nos sites Outernative e Muzplay, da época em que escrevia para os mesmos”

A capa é intimista, no que mais parece ser um quarto de motel, através de um espelho, vemos Isobel, ajeitando os cabelos. Uma vitrola jaz na penteadeira. Lá atrás, Lanegan, largado na cama, parece ler um livro que não dá pra distinguir qual seja. Estamos diante de “Ballad of the Broken Seas”, fruto da parceria entre a escocesinha de voz doce que encantou o mundo indie com o Belle and Sebastian, juntou-se no projeto Gentle Waves e, finalmente, seguiu em carreira solo; e o yankee de voz grave e bêbada que fundou o Screaming Trees nos idos 80’s, lançou alguns álbuns solo e que, nas horas vagas, empresta seu vocal ao stoner rock do Queens of the Stone Age.

‘Inusitada’. ‘Encontro de opostos’. ‘A bela e a fera’. ‘De origens musicalmente distintas’. Tudo isso e mais algumas coisinhas do tipo você irá ler nas resenhas sobre o álbum, não deixa de ser verdade. A voz de Isobel é delicada, doce, quase infantil, pensamos em uma garotinha frágil precisando de proteção. A de Lanegan tem um timbre grave, e em alguns momentos ele consegue fazê-la mais grave ainda do que o normal, beirando o gutural, vide a faixa “Deus Ibi Est”. Engana-se quem pensa que o resultado duma empreitada dessa seja desinteressante, não coeso. Pelo contrário, como dito pela própria Isobel, “são os dois lados da mesma moeda, são opostos, mas se completam, se unem”.

A idéia da parceria surgiu de Isobel, que procurava por alguém que cantasse suas composições. Foi então apresentada à música de Lanegan – que não conhecia – pelo namorado. Encantada com a voz do homem, conseguiu contato, rendendo a canção ‘Why Does My Heard Hurt So”. Posteriormente os dois se encontraram num show do Queens of the Stone Age na Escócia e Lanegan jogou a idéia de fazerem um álbum juntos. A moça então se pôs a compor essas “baladas de mares partidos”, e se comunicar com Lanegan via Internet, já que um mora na Escócia e o outro nos EUA, até finalmente entrarem em estúdio.

O resultado da parceria é um álbum que transita entre o folk e o country, com influências que vão de Nancy Sinatra e Lee Hazelwood a Johnny Cash, com direito a uma passagem pela sonoridade de Nick Cave – repare na faixa que dá nome ao álbum. Temos então doze belas baladas onde os pontos mais altos são exatamente aqueles em que o casal divide os vocais. Com arranjos simples, instrumentais essencialmente acústicos, pontuados por violino, violoncelo, piano, slide guitar, ou simplesmente assovios, ‘Ballad of the Broken Seas’ vai se revelando ao poucos, envolvendo e fazendo sentir vontade de ouvir novamente.

Das doze faixas, nove são de autoria de Isobel, que também produziu o álbum, apenas ‘Revolver’ é de autoria de Lanegan. ‘Ramblin’ Man’, é uma cover de Hank Williams, que na interpretação da dupla ficou simplesmente arrasadora, digna de cena de um filme de Tarantino. Em cada uma das faixas, Lanegan e Isobel encontram o espaço certo para brilhar, conseguindo interpretações impecáveis, por momentos mergulhadas em certa melancolia, ás vezes trocando palavras como dois enamorados.

Durante a audição a imagem que se forma é inevitável: um pequeno e esfumaçado saloon tipicamente do sul dos Estados Unidos, onde um público, em sua maioria homens, sorve grandes doses de álcool enquanto, sedentos, observam a figura pálida de Isobel com seu jeito meigo no palco. Quando se arriscam a alguma gracinha com a jovem, surge a figura ébria, ameaçadora, de Lanegan, seu protetor, impondo respeito e dizendo: “Ei caras, qual é?”.

Os destaques ficam por conta da faixa de abertura “Deus Ibi Est”, “The False Husband”, com seu clima épico, a singela “Saturdays Gone” e a envolvente e reconfortante “Honey Child What Can I Do”.

Nesses tempos em que as bandas insistem e fazer o mesmo tipo de música, usar os mesmos timbres de guitarra, beber das mesmas influências e soar como seu influenciador, nada melhor que encontrar algo que fuja do círculo vicioso, que resista por mais de uma audição e que deixe algo mais que a sensação de ‘legal’. Que venham mais álbuns assim.

NOTA: 8,5

Um pensamento sobre “REEDITANDO: Isobel Campbell & Mark Lanegan – Ballad of the Broken Seas [V2, 2006]

  1. Matéria perfeita!
    Lembro da postagem original e do impacto que causou a sua leitura.
    Mesmo impacto causado agora!
    A matéria estimula à (re)audição do álbum que é muito bom!

    Curtir

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