‘Coraline e a Porta Secreta’ (‘Coraline’, EUA, 2009)

Para escrever sobre esta animação, atenho-me a detalhar profundamente o estilo próprio e já calcificado de contar narrativas do escritor e quadrinista Neil Gaiman. Os motivos se devem a minha própria imaturidade com os trabalhos do artista e também por termos que trabalhar com a literatura em separado.

Aqui é cinema. Animação que soma o 3D junto com a simples, porém grandiosa e árdua técnica do stop motion. Concisamente falando, seriam personagens feitos com massa de modelar (ou massinha) e transpostos para a tela através da utilização de quadros. Um trabalho mais artesanal e rústico que pode ser visto em filmes com ‘A Fuga Das Galinhas’ (‘Chicken Run’, 2000) e ‘A Noiva Cadáver’ (‘Corpse Bride’, 2005).

Ao que tudo indica, Gaiman terá algumas obras passadas para a sétima arte. ‘Coraline e a Porta Secreta’ faz parte desse projeto. E é melhor que o espectador se prepare. O sombrio, a fronteira entre o lúdico e o real, o melhor da narrativa fantástica (pense num Kafka), uma influência inegável de Tim Burton pós-‘O Estranho Mundo de Jack’ (‘The Nightmare Before Christmas’, 1993), nossos medos, nossos anseios.

O filme ficou a cargo do animador Henry Selick, que já havia trabalhado no bom (porém incompreendido) ‘James e o Pêssego Gigante’ (‘James and the Giant Peach’, 1996). Treze anos depois, a tarefa não era fácil. Na mídia, reina competição, e o artífice da área precisa se sobrepor em tantos outros ícones da nova geração, tais como os filmes criados pela Pixar e Dreamworks. Apesar de não se encaixar tanto na temática infantil (o que já é fato supremo em desenhos dessa década), claro que a animação traz a simbologia dos filmes de suspense/terror/fantástico em tintas/nuances não tão agressivas, e mesmo os traços rudes/nefastos de alguns personagens ganham contornos delicados e frágeis por Selick sem perder o traço singelo e cativante do stop motion.

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E as críticas embutidas estão lá, fazem-se notar pelo andamento do filme. A criança solitária que pede atenção aos pais, porém estes estão sempre ocupados para conversar com eles (os filhos). A criança que desde pequena precisa assumir suas dúvidas/tarefas e se fazer responsável por suas decisões, atitudes que Coraline precisará tomar ao descobrir uma pequena porta em sua nova casa que abre acesso a um mundo misterioso. No início, um espelho inverso de seu mundo, um encantamento para a menina que precisa descobrir logo a verdade e o que há por trás desse lugar paralelo.

Claro que a trama sofre de alguns clichês. Há uma facilidade em decifrar o que se oculta por trás do mundo falso de Coraline, e também considero que o filme engrene muito perto do final e que o ‘jogo’ que a menina precisa enfrentar tenha sido fácil demais e não tenha recebido cenas mais apuradas, mais planejadas. Pequenas coisas em meio a tantos outros detalhes que enriquecem a animação. Pouca coisa no cinema atual pode (deve) superar o momento- êxtase onde Coraline contempla o jardim que o pai havia feito em homenagem a ela – trecho metafórico, sinestésico, poético, de encher os olhos. A trilha sonora também se faz necessária e cresce conforma engendra a tensão do filme – a meia hora final não vai te tirar da cadeira, pode estar certo disso.

‘Coraline e o Mundo Secreto’ entra para o rol dos longas animados para assistir e para rever, sempre que possível. Um rótulo que, se antes era apenas para divertir e rotulado infantil, agora serve para refletir, chocar, nos fazer sonhar e elaborar mais teorias além das quais nós já conhecemos. É também para um público cinéfilo (idade aqui é irrelevante) que não tem nenhuma vergonha de se entregar a pequenos personagens de massa, porém com sentimentos iguais aos nossos. Se deixe enfeitiçar.

Nota: 8,0

E ainda, saiba mais sobre a técnica do stop motion:
http://www.eba.ufmg.br/midiaarte/quadroaquadro/stop/princip1.htm

Trailer:

4 pensamentos sobre “‘Coraline e a Porta Secreta’ (‘Coraline’, EUA, 2009)

  1. Não sei se você se lembra que falamos sobre esse filme e você tinha me dito que não tinha visto ainda, mas é incrivel como a técnica de Stop Motion foi elevada a nona potencia para dar o tom de sombriedade que o filme precisava pra contar essa história maravilhosa, outra coisa que eu me pergunto é se Tim Burton teve influencia sobre o trabalho do animador ou melhor do diretor Henry Selick, porque o filme é muito sombrio, tal como os trabalhos de Burton, e concordo sobre os dois filme citados O Estranho mundo de Jack e Joe e o Pêssego Gigante, que são muito bons o segunto virando um filme Cult, vale conferir os três filmes por que são exemplos extraordinarios de como uma historia pode ser bem contada usando “bonecos de massinha”

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