DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS – In The Flat Field (1980)

DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS (PARTE 1)

Danel Ash (guitarra), Kevin Haskins e seu irmão, o baixista David J, já se conheciam antes de formarem o Bauhaus, haviam tocado juntos numa banda chamada The Craze. Quando Ash resolveu formar um novo grupo, convidou o ex-colega Peter Murphy para cantar – apenas por causa do seu visual. Mesmo nunca tendo cantado antes, Murphy aceitou. Para a bateria, foi óbvia a escolha de Haskins, mas seu irmão não estava nos planos de Ash. Chris Barber ficou com o posto de baixista, apesar de não permanecer por muito tempo, já que acabou posteriormente substituído por J. Com o nome de S.R, fazem seu primeiro show em sua cidade natal, Northampton, em 1978, no Nene College of Art’s Christmas. Fazem mais um show até a saída de Barber. A banda é então rebatizada de Bauhaus 1919, referência à escola artística alemã. Em janeiro de 1979, gravam a primeira demo, contendo as faixas: “Bite My Hip” (que viria a ser rebatizada como “Lagartija Nick”), “Harry”, “Bela Lugosi’s Dead”, e “Boys”. Em maio desse ano, reduzem o nome para Bauhaus, apenas.

“Bela Lugosis Dead” (09/79) é o primeiro single do grupo, lançado pelo selo Small Wonder, contém no lado B as faixas “Boys” e “Dark Entries (demo)”. Esse primeiro single marcaria a carreira do Bauhaus para sempre, por causa da faixa título, uma espécie de tributo ao ator austríaco Bela Lugosi, famoso por sua interpretação no filme Drácula. Cheia de efeitos que simulam o som de asas de morcego batendo, uma baixo sombriamente minimal, texturas e microfonias de guitarra esparsas e uma marcação de bateria repetitiva, mais os vocais guturais/dramáticos de Murphy, assim é a canção em seus quase dez minutos: sombria, misteriosa. Embora as outras faixas mostrem uma banda mais próxima da sonoridade glam-rock, é “Bela Lugosi” que se torna o cartão de visitas, a canção pela qual acabam tendo seu som rotulado de gótico (sempre rejeitado pela banda). Apesar de rejeitarem o rótulo, visualmente (geralmente de preto) e nos clips, explicitam o gosto por cores e ambientes sombrios.

Numa entrevista, respondendo aos aspectos góticos na música do Bauhaus, Murphy declarou: “Quando começamos a nos apresentar e a trabalhar… na época de lançamento de “Bela Lugosi´s Dead”, ainda não tínhamos escolhido uma capa para o compacto. Foi estranho. Eu estava folheando um livro de filmes antigos de Hollywood quando me deparei com aquela foto que acabou sendo a capa. A da contracapa, tirada do Gabinete do Dr. Caligari, foi escolhida porque o personagem andrógino – que parece estar morto mas está adormecido – se parecia exatamente com o que rolava no palco, na época. O que aconteceu foi isso, mas as roupas e posturas de palco foram uma opção teatral anterior, de escolha minha, sem influências diretas. Essa capa, junto com a música, deram impressões a mentes acadêmicas e jornalísticas de que tínhamos, em definitivo, uma “temática gótica”, o que não é verdade. A maneira como nos vestíamos era atemporal, apenas expressão de nossas canções e desejos. Você entende?”

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Interessante é que é em “Bela Lugosi’s Dead” que os shows do Bauhaus ganham momentos de encenação teatral. Por sinal, os shows são verdadeiros espetáculos de luzes brancas, projeções e performances avassaladoras de um Murphy ensandecido, que pode ser conferido no vídeo oficial “Shadow of Light”, lançado apenas em VHS.

Sendo um grupo musical, sempre deixaram claro o interesse por outras formas de arte: literatura, teatro (Antonin Artaud) e cinema, referências que serão usadas nas letras de álbuns posteriores.

Mais três singles são lançados antes do lançamento do primeiro álbum: “Dark Entries”, “Terror Couple Kill Colonel” e “Telegram Sam” (cover do T-Rex).

A banda voa para os Estados Unidos, onde fazem quatro shows, e logo em seguida “In The Flat Field” é lançado pela 4AD. Um detalhe curioso é que esse foi o primeiro álbum lançado pelo selo 4AD, que se tornaria cult nos ano 80 por lançar álbuns do Cocteau Twins, This Mortal Coil, Pixies, Throwing Muses e outras bandas.

Produzido pela própria banda, “In The Flat Field” vai muito além da sonoridade punk ou do que já haviam apresentado em seus singles. Não se limitando a baixo, bateria e guitarras, já que sempre se mostraram dispostos às experimentações, o Bauhaus, adiciona saxofone, piano e outros elementos ao seu som, geralmente cheio de espaços vazios, onde a bateria tribal e o baixo minimalista são sua essência, enquanto a guitarra e os vocais ficam livres para todas as possibilidades.

Para quem nunca havia cantado na vida, Peter Murphy mostra excelente desenvolvimento como vocalista, com dotes vocais que vão dos graves aos agudos brilhantemente, como em “Double Dare”, faixa que abre o disco, e cuja letra, cantada de forma às vezes desesperada, parece lançar um desafio.

Desespero é o que não falta nas interpretações de Murphy, ele parece ser a tônica de “In The Flat Field”, que fala sobre estar chateado, uma das melhores canções do Bauhaus.

Em suas nove canções, “In The Flat Field” se mostra diversificado e coeso, uma aula de simplicidade e riqueza de idéias bem condensadas; garagismo e crueza, mas sem soar banal.

Apesar de suas limitações como músicos, trazem para a música pop momentos únicos como em “St. Vitus Dance”, “Spy in the Cab” e “Nerves”, que apesar de pouco citada é outra das grande do disco. As influências de glam e Bowie são inegáveis, mas há o lado visceral das bandas de garagem dos anos 60 e o experimental de Brian Eno; há Velvet Underground, há Stooges, e uma porção de elementos e ideias a favor de uma música estranha, muito além de uma versão oitentista do glam-rock ou do círculo gótico.

Apesar de na época ter agradado ao público e feito os críticos torcerem o nariz, “In the Flat Field” é hoje considerado por muitos (inclusive críticos) um clássico. Outros tantos consideram o melhor disco do Bauhaus.

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3 pensamentos sobre “DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS – In The Flat Field (1980)

  1. Bauhaus é uma das bandas que realmente merece que sua discografia seja comentada!
    Considero muitos dos seus trabalhos como sendo discoteca básica.

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  2. Qual o critério que vocês usam para escolher a banda para comentarem a discografia? Vocês poderiam fazer com o Pixies.

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