EDITORS – In This Light and on This Evening (2009)

“The Back Room” foi a surpresa. “An End Has a Start” foi um passo adiante, adentrando em ambientes mais densos: muitos não compreenderam. “In This Light and on This Evening” é o rompimento já anunciado pela banda e pelo primeiro single “Papillon”: doses fartas de sintetizadores e batidas eletrônicas; canções noturnas com climas tipicamente europeus; e muitos continuarão sem entender.

Como toda mudança gera controvérsias (isso todos sabemos) – basta ver o exemplo do último álbum do Franz Ferdinand -, com esse terceiro álbum do Editors não será diferente. Quando uma banda faz discos muito parecidos entre si, muitos se queixam.Há os que reclamam quando a banda muda em cada disco. Não há como agradar a todos, e qualquer banda que se deixar levar por essa tentação correrá o risco de ficar presa em sua encenação, escravizada pela necessidade de ser e fazer o que se espera, sufocada por uma imagem criada por olhos alheios.

Poucos perceberam, mas “Smokers Outside the Hospital Doors” já prenunciava timidamente essa transição, ao enfatizar canções mais lentas, com o piano ganhando mais espaços, expondo um Editors mais interessado em trabalhar com baladas amargas.

Se olharmos detalhadamente para as composições de “In This Light and on This Evening”, veremos que a mudança não foi só no uso de determinados instrumentos (ou a falta deles), fica claro que a maior parte das canções já nasceu com um formato estabelecido, não foi apenas uma questão de transpor para os teclados o que havia sido criado com guitarras. Cabe bem como exemplo dessa decisão a kraftwerkiana “Bricks and Mortar”.

Os teclados são retrôs, viajaram direto da década de 70 e 80 para aterrissarem suavemente nas idéias do Editors. As batidas eletrônicas também são visitas ao que de melhor produzido nos oitenta pelas bandas de tecno-pop. Em suas nove composiçõas, é possível identificar fragmentos de diversas bandas: New Order, Depeche Mode, Brian Eno, U2, Tubeway Army, Kraftwerk, algumas diluídas quase por completo, outras de forma mais direta.

Os instrumentais são densos, há uma carga enorme de melancolia que parece percorrer cada uma das canções, tendo por base camadas de teclados soturnos mais a voz grave e profunda de Smith. O lado mais sombrio da banda, que foi o que se saiu melhor em seu disco anterior, aqui é explorado de formas diversas.

É no contexto do álbum que se compreende melhor uma faixa como “Papillon”, escolhida para ser o primeiro single do álbum e que já era conhecida por todos há um bom tempo. Propositadamente a banda quis dar sua carta de intenções ao expor a mudança começando por uma das faixas mais radicais do álbum no que diz respeito ao abandono dos riffs de guitarra em prol dos sintetizadores e teclados. Não só isso, “Papillon”, com toques claros de “Blue Monday”, tem um grande potencial para as pistas, mesmo não tendo a pegada de canções de outrora como “Munich” ou “Racing Rats”, e o arranjo seja repetitivo.

“You Don’t Know Love” permite vislumbrar a sua força ao vivo, é uma canção típica do Editors, começa com Smith cantando de forma grave os versos básicos da letra. A música vai crescendo aos poucos e ganha tons quase épicos em seus instantes finais quando Smith volta a repetir: “You don’t know love like you used to, you don’t feel love like you did before” sob uma profusão de sintetizadores.

“The Big Exit” é o Editors encontrando os elementos industriais experimentados pelo Depeche Mode há quase vinte anos atrás, numa canção marcada por teclados sombrios. Essa é, ao lado de “Eat Raw Meat = Blood Drool” (onde a banda permite um pequeno coro de vozes e um backing em falsete), a faixa mais estranha de todo o disco. “The Boxer”, o mesmo título do álbum do admirado The National, é um chamamento para dentro de uma sala escura onde uma poltrona convida para sentar-se e se deixar levar. Contagie-se, mas não se deixe afogar, porque há ainda o mergulho no oceano negro da atmosférica “Walk the Fleet Road”, com ecos do Joy Division.

Será esse o Editors que teremos daqui pra frente? Alguém pode perguntar. Por certo que não. Mas não será também aquela banda que lançou “The Back Room” ou “An End Has a Start”, talvez uma mescla de tudo isso, resultando num outro álbum que venha a surpreender. Mesmo que no fim o resultado final não seja tão arrebatador, ousar na música pop atual é sempre saudável.

NOTA: 8,0 7,0

6 pensamentos sobre “EDITORS – In This Light and on This Evening (2009)

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  2. Só fui conseguir pegar o disco hoje e comecei a escutar aos poucos, que não é o ideal, mas o que vejo é uma banda tentando se reinventar, pode não ser o melhor disco deles, mas é um disco de transição, e como toda transição, é um puco dificil de ser digerido, mas tenho que escutar com calma pra ter uma verdadeira posição.

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  3. “Like Treasure” não foi citada e foi uma das faixas que mais gostei – os sintetizadores… teclados utilizados e o vocal um tanto quanto dramático criou um clima legal na música.

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  4. Eduardo, gosto bastante de “The Boxer”, “You Don’t Know Love” e “Walk the Fleet Road”. Não acho que haja uma influência tão marcante do Joy Division no álbum, mais na faixa citada na resenha.

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  5. Ouvi pouco e sem muita percepção como realmente faço. Apenas umas 3 audições, muito pouco para bandas que sempre apontam para mudanças a cada produção, e que sempre são complexas (apesar de pessoas medíocres sempre taxarem essas bandas de ‘mais um filho bastardo do Joy Division’). Posso dizer que é cedo para dar nota, o disco passou bem em meu player, talvez (ainda) nada louvável ao extremo e adianto (muitos podem até não concordar comigo) que amei ‘The Boxer’. Foi a que mais me encantou. Mais audições, outras considerações poderei acrescentar aqui.

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