ESSE EU TINHA EM VINIL: Psychocandy – Jesus and Mary Chain (1985)

Numa tarde de sábado, a cerca de duas décadas atrás, lá estava eu sozinho em casa ouvindo o ‘Psychocandy’, sentado no chão da sala e sem fones de ouvido. Sim, porque certos discos só era possível ouvir com fones de ouvido, pois incomodavam demais meus pais e irmãos, inclua nesse rol o ‘Psychocandy’, ‘Isn’t Anything’ (My Bloody Valentine), ‘Bizarro’ (Wedding Present) e ‘Sister’ (Sonic Youth), só pra citar os mais barulhentos. Nessa época, tinha muitas fitas K7 e geralmente ouvia em um minisystem Sanyo com dois decks, que pra mim era uma maravilha. Voltando ao sábado, de repente chega meu pai em casa num momento que deveria tá rolando uma das faixas mais barulhentas do álbum, e de cara larga essa:

– Esse disco tá com defeito!
– Tá não, é assim mesmo – respondi.
– Assim mesmo o quê, rapaz, não tá vendo que esse disco tá com defeito? Quem é que vai gravar um disco desse jeito?
– Mas é assim mesmo – insisti, e ele saiu achando que tava zuando.

Ora, (respondendo a pergunta do meu pai) quem gravaria um disco assim? Os irmãos Reid, o Jesus and Mary Chain. E não só gravaram um disco extremamente barulhento como conquistaram público e imprensa ao “dourar a pílula” com vocais um tanto adocicados. Com iss fizeram escola, de forma que até hoje são imitados. Mas meu pai jamais entenderia algo assim, meu pai é do tempo de Lindomar Castilho, Altemar Dutra e Nelson Rodrigues.

A primeira vez que ouvi o álbum foi através de empréstimo (acho), confesso que aquela barulheira me deixou um tanto aturdido (e com os ouvidos apitando). Salvo engano, foi o primeiro disco barulhento que ouvi (naquela época não imaginava que ouviria em plenos anos 2000 algumas bandas mais barulhentas ainda), e não sei se virou uma espécie de vício, mas fato é que uma coleção de álbuns barulhentos viriam fazer parte da minha coleção (além dos citados lá no início).

Não lembro a quem pertencia o vinil que ouvi pela primeira vez, mas lembro que quando comprei o meu exemplar (de praxe na Muzak, que já falei em outros textos dessa seção) foi maravilhoso, fiquei um bocado de tempo admirando aquela capa sensacional.

Reouvindo o álbum, percebo como o som moto-serra da banda permanece atual e como minhas faixas preferidas não mudaram: “Just Like Honey”, “The Hardest Walk”, “Taste of Cindy” e “inside Me”, embora todo o álbum seja um deleite noise. Reouvir o álbum é também viajar no tempo, para quando os vinis eram parcos e escutava-os quase até furar, para uma época em que eu me metia a fazer projetos eletrônicos e, sem querer, criei um pedal (que era para ser um overdrive) – que ficava alojado numa saboneteira e fazia um barulho desgraçado – e era usado pelo guitarrista da banda que tocava, a ‘Res Non Verba’, mas essa é uma outra conversa.

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4 pensamentos sobre “ESSE EU TINHA EM VINIL: Psychocandy – Jesus and Mary Chain (1985)

  1. Esse eu também tinha em vinil e ouvi os mesmos comentários :)
    Minha mãe pegava no pé com o Still do Joy Division e meus vizinhos e irmãos com esse disco.

    Bons tempos …

    Curtir

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