ESSE EU TINHA EM VINIL: LC (Durutti Column, 1981)

Conheci o Durutti Column através de uma fita K7 gravada de um vinil por um amigo. Foi amor à primeira vista. Os dedilhados sutis e melodiosos de Vini Reilly, a melancolia evidente das canções – adornadas por aquela voz esquálida -, somado ao clima de mistério que circundava o “grupo, criava uma aura bastante atraente. Engraçado é que naquela época meus ouvidos gostavam de um barulho, talvez DC tenha chegado como um bálsamo para os momentos de cansaço de toda aquela barulheira das então chamadas guitar-bands: Sonic Youth, My Bloody Valentine, Wedding Present, etc.

O vinil que veio parar em minhas mãos foi conseguido através de um troca (mais uma!). Em uma das diversas viagens de um amigo à capital para comprar discos, ele trouxe a pérola, que havia sido lançada aqui no Brasil também pela gravadora Stiletto, que fora responsável por ter trazido também Joy Division, Nick Cave, The Fall e outros nomes inimagináveis da música para terras tupiniquim.

Tempos depois o amigo resolveu trocar comigo (talvez por insistência minha), mas não me lembro pelo quê. Lembro que fiquei emocionado em ter aquele vinil lá em minha pequena coleção. Vez por outra ia lá, pegava ele e ficava a admirá-lo, como uma conquista valiosa. Quem já não fez isso com algum disco muito desejado e conseguido a duras penas? Eu fiz várias vezes e com vários discos. Os do Echo & The Bunnymen, por exemplo, eu costumava colocar os quatro juntos (Crocodiles, Heaven Up Here, Porcupine e Ocean Rain) para admirar as capas.

“LC” (abreviação de “Lutte Continuum”, slogan anarquista) é dos poucos casos em que desde sempre se manteve/mantém como o álbum mais querido, permanecendo nessa posição por anos a fio. Não há dúvidas quando me perguntam qual o melhor álbum do Durutti Column.

É um álbum bastante básico em sua proposta: Vini tocando sua guitarra cheia de eco e/ou piano, Bruce Mitchell fazendo o acompanhamento na bateria ou percussão. Segundo palavras do guitarrista, o processo de gravação foi bastante rápido: “Gravei todo o álbum em cinco horas, no meu quarto, enquanto minha mãe dormia ao lado. Ao finalizar, chamei Bruce, fomos a um estúdio e o terminamos em duas horas”. Isso mostra o quanto Vini estava inspirado ao compor as dez canções do álbum, que traz até uma homenagem a Ian Curtis numa das melhores canções do disco, “The Missing Boy”, das mais adoradas pelos fãs do DC. Lembro que na época que adquiri o disco tinha um comercial da TVE que tocava “Jaqueline”, outra das faixas mais bonitas do álbum.

“LC” em suas dez canções soa como uma peça única, com uma diversidade de momentos e sensações. Há a indução hipnótica em “Never Know”, a pura melancolia em “The Sweet Cheat Gone”, o bucolismo pop em “Jaqueline” e a nostalgia melancólica de “The Missing Boy” e na curtinha “Detail for Paul”, outra das grandes canções do álbum.

Sabores, aromas e melodias são chaves poderosas, capazes de abrir portas em nossas mentes, algumas até mesmo esquecidas. Dentre os diversos álbuns já comentados aqui nessa seção, que inevitavelmente é uma viagem de volta ao passado, este é um dos álbuns que abrem uma maior quantidade de portas, algumas para compartimentos doloridos, amargos, mas que se tornaram suportáveis graças à beleza desse um punhado de canções.

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5 pensamentos sobre “ESSE EU TINHA EM VINIL: LC (Durutti Column, 1981)

  1. Lorivaldo, bacana a sua história com o LC e legal a identificação com o texto. Em relação aos discos do DC, numa das minhas “tarefas árduas” no mundo das MP3, resolvi baixar todos os álbuns oficiais e o que mais conseguisse e gravar tudo num DVD, mas compraria os originais se encontrasse os discos em CD a umpreço acessível. Fique à vontade no blog, a casa é sua. Abraço.

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  2. Bacana o seu texto.Eu também tive este disco em vinil, e acho que chegou na mesma fornada que trouxe cocteau twins, the fall, felt, a certain ratio, deadcandance e outros que curti na medida que podia comprar. Mas LC e Treasure, do Cocteau fizeram a minha cabeça; eram bem diferentes do que era moda na época.
    Tive o disco por vários anos, mas perdi numa mudança de casa.
    Para meu espanto, um dia, não lembro o ano, ouvi no rádio o início de Jaqueline, que a Rádio Eldorado de SP passou a utilizar para anunciar o bloco de notícias da programação da rádio; achei demais.
    Anos depois acabei encontrando um outro vinil chamado Vini Reilly (1989), este eu tenho até hoje, mas LC continua imbátivel.
    Em anos recentes, encontrei uma vídeo no Youtube de Missing Boy e foi um prazer ver o Bruce Mitchell tocar praticamente, ou totalmente, em transe numa apresentação ao vivo do DC.
    Tenho baixado alguns recentes dele, como Chronicle e Short Stories for Pauline, e o Vini Reilly continua um grande músico, mas ainda continuo gostando mais de LC…talvez por causa desse lance de primeira impressão.

    Legal o blog, não conhecia. Volto logo mais para explorar.

    Abraço

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  3. O Domo Arigato (VHS) foi exibido na TVE em 1991 e Jaqueline era vinheta do programa Globo Ciência. No youtube descobri Belgian Friends, Tomorrow, Spent Time, etc…Existe também em alguns mercados Extra (acreditem) um dvd com momentos do Morrisey (somente notícias) onde o Vini reclama autoria de várias melodias do primeiro album solo após Smiths. Se prestarem atenção no vídeo de The Beggar (live 83) dá para ver um Vini com um corte de cabelo depois imitado por Johnny Marr e os acordes finais iguais a um grande sucesso da banda.

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  4. ‘LC’, o melhor disco do Durutti Column, isso sem desmerecer qualquer outro disco dele, tem toda uma história de minha vida, inenarrável aqui, de tão imensa que é.

    Lembro que tinha o vinil, mas perdi por conta de mofo, bolor e traças que invadiram a minha estantes de vinis. Claro, é até uma blasfêmia dizer isso. Depois consegui o CD com algumas faixa bônus, uma edição bacana sim, que tenho até hoje guardada a sete chaves, e que até já fiz uma cópia (por segurança).

    ‘LC’ foi um dos responsáveis pela minha forma, meu modo de ouvir música. Fugir do que era convencional, do que lhe ditavam, do que só se ouvia nas rádios. E Vini Reilly é aquele músico que praticamente nunca errou – apesar de nunca ganhar o merecimento devido.

    E Bruce Mitchell é fora de série. ‘Missing Boy’ é coisa de outro mundo.

    Belo texto para um belo momento da música.

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  5. “LC” sempre foi meu álbum predileto do DC e sempre será!
    “Neve Know” também é minha música predileta. Bela matéria que descreve tudo que o álbum transmite.

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