ESSE EU TINHA EM VINIL: Isn’t Anything (My Bloody Valentine,1988)

“Isn’t Anything é um clássico e como tal, apesar das décadas, permanece intocado pelo tempo”

ANTERIORES:
+ Heaven up Here (Echo and the Bunnymen, 1981)
+ Fables of the Reconstruction (R.E.M., 1985)

Minha obsessão por músicas com guitarras barulhentas se iniciou no início dos anos 90 com um punhado de discos que aos poucos foram se assentando na minha pequena mas adorada coleção de vinis: ‘Psychocandy’ (Jesus and Mary Chain), ‘Sister’ (Sonic youth), ‘Bizarro’ (Wedding Present) e também este ‘Isn’t Anything’, para desespero do meu pai que não entendia como eu conseguia ficar em frente à vitrola ouvindo aquela barulheira numa tarde de sábado.

Difícil explicar para alguém sua paixão por algo, principalmente em se tratando de música…principalmente em se tratando de seu pai, umas quatro gerações anteriores à sua…principalmente quando aquela música não era o padrão…principalmente em se tratando de bandas cujo barulho intencionava “transgredir” os padrões vigentes não só na Inglaterra ou Estados Unidos, mas no mundo.

Em algum dos meus textos anteriores devo ter falado da dificuldade de se conseguir ouvir discos nessa época. A revista Bizz só nos fazia ficar sedentos por novidades, com suas resenhas generosas sobre certos álbuns que pareciam tão distante quanto a própria terra da rainha. Por sorte, por essa época o selo Stiletto resolveu fazer a felicidade de jovens interioranos não satisfeitos em escutar rádio FM repleta de axé. O selo despejou no mercado nacional um punhado de álbuns cobiçadíssimos, dentre eles o ‘Isn’t Anything’.

Capa bonita, tons diferentes. Uma foto difusa da banda combinando perfeitamente com o conteúdo.

“Soft as Snow (But Warm Inside)” abre o disco com uma presença do contrabaixo que não se verá em outras faixas, uma progressão grave cheia de groove e uma letra cheia de conotações sexuais. Daí em diante o foco é nas guitarras ásperas criando paredes sonoras barulhentas, cujo intuito é detonar os tímpanos de ouvintes incautos.

Não se deve enganar pela singeleza de “Lose My Breath” ou “No More Sorry”, os momentos mais sossegados do disco, a ênfase é em guitarras criando avalanches sonoras e soterrando os vocais preguiçosos – marca registrada da banda que viria a ser muito imitada – de Shields e Bilinda, como nas clássicas “(When You Wake) You’re Still in a Dream”, “Feed Me With Your Kiss” e “Sueisfine”, uma das melhores do disco.

Aluno da escola das guitarras estridentes, Kevin Shields, mentor do grupo, parecia ter estudado bastante e encontrado uma forma brilhante de alargar os horizontes do universo pop barulhento alçado às alturas poucos anos antes pelos escoceses do Jesus and Mary Chain. Levaria essa obsessão ao extremo no seu álbum posterior, o seminal “Loveless”.

Minha percepção de época era que essa galera do My Bloody Valentine, à sua maneira, tentava criar sua versão de ‘Never Mind the Bollocks’ (Sex Pistols), com canções que esbofeteavam a face da música pop. Simples, direto, cru e ancorando-se na criatividade. Mais uma vez reencontrando com os já citados JAMC.

Como todo álbum clássico, passados mais de 25 anos, ‘Isn’t Anything’ não envelheceu. Não soa uma produção datada como muitos discos dessa época. O que mostra o quão a banda irlandesa estava à frente de seu tempo.

Como todos os meus vinis, este também se foi há muitos anos. Pode soar saudosista, mas escutá-lo em MP3 não tem o mesmo sabor de vinte e cinco anos atrás, quando a agulha mais parecia arranhar do que deslizar sobre a superfície negra no vinil. Ainda assim evoca a magia de outrora ao transportar para uma época que, embora tenha ficado para trás, constantemente me vejo transportado para lá, os discos seguem funcionando como minha máquina do tempo.

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4 pensamentos sobre “ESSE EU TINHA EM VINIL: Isn’t Anything (My Bloody Valentine,1988)

  1. Esse eu não tive em vinil, porém tive em fita k7. Claro, uma fitinha gravado com todo cuidado e que tocava bastante em meu walkman. Engraçado como conheci essa banda. Não vou mentir que vivia mais numa época de ouvir R.E.M., The The, outras bandas lá dos 80’s…passei a conhecer mesmo quando conheci o meu amigo Gilmar, na casa dele, que foi aonde fiz uma ‘catança’ de vários vinis para gravar em fitas…

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  2. Tanto a letra que fala “Suave Como Neve (Mas Quente Por Dentro)” do ato sexual, como a vocalização, o refrão, tudo é muito sexy nessa música man!

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  3. Mais uma vez, obrigado pelos comentários, Márcio. Pra mim, esse é disco de cabeceira também. Sabre “Soft as Snow” tem um amigo que diz que a letra fala sobre a descrição do ato sexual, e acho que é isso mesmo, já parou pra analisar?

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  4. Esse eu também tinha em vinil, presente de um amigo la por volta de 1996, a 1ª audição estranhei o som das guitarras, pareciam fora do tempo, ora nem pareciam guitarras, pensava como esse cara consegue fazer isso, como se as cordas fossem afrouxadas na execução dos acordes junto com a reverberação criando um efeito que se tornou marca registrada da banda, muito imitado por bandas atuais mas nunca igualado. Álbum clássico que definiu o Shoegazer, amo a sensualidade de “Soft as Snow (But Warm Inside)” e “Several Girls Galore”, as guitarradas de “(When You Wake) You’re Still in a Dream”, a paixão com que o vocalista Kevin Shields canta “You Never Should”, a voz de Bilinda Butcher em “Lose My Breath” e sem exagero esculto quase todos os dias. Valeu Luciano, excelente texto amigo.

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