SUFJAN STEVENS – Carrie & Lowell (2015)

Anteriores:
+ Motorama – Poverty (2015)
+ Nite Fields – Despersonalisation (2015)

No sétimo trabalho, Sufjan Stevens traz seu típico e incorporado folk em sua melhor forma e se assegura como um dos melhores músicos da atualidade.

Dizem que é num ambiente totalmente escuro que percebemos melhor o som. Os outros sentidos se anulam, corpo e mente se desligam do mundo externo. Percebemos melhor aquele acorde, uma breve voz sussurrada bem de mansinho, aquele piano que vai surgindo. Ou que nem seja isso, mas a verdade é que cada segundo de música torna-se a eternidade que, por vezes, muitos de nós queríamos. A percepção que tenta ser coerente a cada instante de uma sonoridade. Um recanto seguro em meio ao caos que em muitos momentos ordena injustamente o mundo.

Eis que a escuridão chega pra mim. Dentro de um ônibus. Partindo de viagem noturna. Oito horas não serão fáceis, por isso que costumo andar com um bom arsenal sonoro de apoio. Música me faz desligar tanto de problemas, me faz perder tanto tempo de maneira útil, difícil seria não acontecer naquele exato instante. Claro que o sacolejo do veículo e a estrada com alguns trechos de asfalto mal acabado, talvez me impeçam de se desligar tanto como eu queria e precisava. Foco e concentração, palavras de ordem.

Vamos então ao ‘Carrie & Lowell’ de Sufjan Stevens? Era meu plano desde o início, colocá-lo como prioridade para escutar logo quando o ônibus saísse da rodoviária. Não vou alegar que conheço tudo desse cantor/compositor, mas considero ‘Illinoise’ (2005) um disco para ser copiado e ‘The Age Of Adz’ (2010), mesmo com um pé na eletrônica e no experimentalismo, foi um dos meus preferidos então naquele ano.

Nos primeiros acordes de ‘Death With Dignith’, respiro profundamente, feliz e aliviado. Tinha certeza que Stevens não erraria aqui. Novamente, um disco encorpado, bem produzido, repleto de detalhes, para se ouvir inúmeras vezes, emotivo, intimista, preenchido por arranjos grandiosos (mesmo numa base simplista folk de ser, a exemplo das serenas ‘Eugene’ e ‘No Shade In The Shadow Of The Cross’).

O gênero folk-rock não tem seus segredos. Não é difícil de entender. Acontece que artistas como Sufjan extrapolam o que o estilo pode oferecer. ‘Drawn To The Blood’ me fez pensar assim, justamente lá pelos dois minutos de música. A canção praticamente para, ganha um contorno mais de Ambient, um clima mais clássico e é como se o músico estivesse convidando o ouvinte a preencher seus próprios arranjos. Isso tudo quando o relógio de LED no painel do ônibus indicava duas da manhã. Todos próximos a mim dormindo, e eu, absorto, tentando compreender a essencialidade de um disco, o que ele causa e o que ele me torna naquele momento.

Assim foi, o disco se repetiu por três vezes. Um músico que faz um álbum coeso do início ao fim. Não há canções preferidas, não há como seu dedo apertar a tecla de próxima música. ‘Fourth Of July’ traz a perfeita sintonia entre piano e a voz de Stevens. Tal canção, na versão em vinil, aparece como a última faixa do lado A. Entretanto, de tão incisiva, poderia ser a abertura. Escuto a versão do CD, e pra meu cérebro, tudo é um bloco único e condensado do que um dia se convencionou chamar de música com qualidade. Como ela é mixada, como ela é processada, como ela chega ao ouvinte? Não quero saber. Quero o choque catártico e inevitável daquela arte que, até então, me conduzia feito um zumbi no meio de um coletivo com pessoas já cansadas por uma semana exaustiva de trabalho.

Chego ao meu destino. O cochilo no ônibus sequer passou de duas horas, quando eu já ouvia outros discos. Já com o sol raiando, entrando nos interstícios das janelas do veículo, me apronto para desembarcar em meu destino. Estou num lugar estranho, é preciso uma adaptação da cidade. ‘Carrie & Lowell’, o causador dessa resenha em forma de diário, incutido e adaptado apropriadamente em meu coração e cérebro.

Observação: o disco foi inspirado pela história da própria mãe e padrasto do músico.

Sufjan é inquieto. Fez vários discos comemorativos (Natal, por exemplo), participou inclusive de outros projetos musicais variados. O Sisyphus, junto com Serengeti e Son Lux, foi um deles. Resenha aqui

Site oficial

Facebook

Veja o vídeo (não oficial) de ‘Should Have Known Better’

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s