DÊ UMA CHANCE: Studio

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Duo sueco faz questão de elaborar uma eletrônica mais pensante, estruturada e alicerçada em grandes nomes do passado.

Para alguém intitular seu trabalho como ‘livro do ano’, ou é pretensioso demais, ou simplesmente tem segurança absoluta da obra que acabou de realizar. Isso lembrando que, neste caso, ‘Yearbook 1’ (2007) é o nome do disco e o objeto em questão dessa resenha. Entretanto, livros e discos são produtos de artistas. Estou falando de mais uma peripécia vinda de um duo sueco, uma reunião entre as mentes brilhantes de Dan Lissyik e Rasmus Hägg.

Com certeza esses dois músicos passaram tardes ouvindo o que a música eletrônica soube sintetizar até hoje. Estudaram a cartilha com afinco e não tiveram medo algum de usar e abusar dos ingredientes para um caldeirão sonoro eficaz e perfeito. Oito composições que vão trazendo reminiscências de tudo o que ouvimos com o passar dos anos. Prepare-se para fazer uma tour que transita pelos alemães do Kraftwerk, atravessa por aquela saudosa turma de Detroit e até pega elementos emprestados da acid house que assolou Manchester lá pelos finais dos 80’s.

A abertura já começa nos enganando, parece algo do New Order fase ‘Technique’, o vocal lembra um Bernard Summer, porém é como se o músico estivesse chapado mais ainda de entusiasmo. Música pontuada por belos efeitos, refrão grudento e sintetizadores que te levam para outro plano astral. Prepare-se para quando a canção atingir sua metade, pois uma explosão de instrumentos te surpreenderá. Fico pensando o porquê de uma música desse naipe não tocar em nossas rádios. Ou melhor, prefiro nem pensar.

Até mesmo quando a banda viaja (no melhor dos sentidos) fazendo canções quilométricas, tudo remete a algo inovador e nada monótono. ‘Radio Edit’ e ‘Out There’ somam, juntas, quase 26 minutos. Porém, tente colocar Daft Punk, Art Of Noise, Kraftwerk, Can, um Durutti Column mais dançante, além de pitadas de Stone Roses tudo num amálgama sonoro e colocar para tocar? Entendeu? Não dá para descrever em palavras, é preciso ouvir cada segundo. Camadas de sintetizadores que te hipnotizam, sons submersos e infindáveis que alcançam um vórtice até te afundar para um abismo imenso do qual você não quer sair.

Fico boquiaberto com aquela roupagem sonora de ‘West Side’. Parece algo vindo da cabeça de cem músicos, e não apenas da dupla. Batidas tribais, mil efeitos circulando pela música, guitarras sintetizadas e vocais esparsos à la Robert Smith (The Cure). ‘Self Service (Short Version)’ é a música que o Happy Mondays se mataria para tentar fazer – e que não fez – para fazer jus à cena de Manchester. ‘Origin (Shake You Down by The River)’ segue a mesma linha, com mais baixos e guitarras sintetizadas formando dezenas de camadas sonoras. Tudo atinge um peso descomunal e talvez seja a menos eletrônica do disco, se fazendo passar perfeitamente por um formato similar ao rock.

Mesmo sem vocais, os 13 minutos de ‘Life’s A Beach!’ vão crescendo assustadoramente, quando você nota, a música acabou num piscar de olhos. E a cada audição, você ouve algo que havia passado despercebido. Música eletrônica bem composta traz esse sentimento: sonoridades captadas ao longo do tempo que só fazem por conquistar o amante de música. E os minutos finais são o ‘ponto g’ de qualquer ouvinte. Barulhos de ondas marítimas misturam-se a múltiplas nuances de sintetizadores.

Enquanto muitos citaram The Field, Digitalism, Modeselektor, LCD Soundsystem e Justice como os melhores da cena eletrônica naquela época, penso que o Studio foi injustamente omitido da lista. Do mesmo modo, quem sempre julgou que a música eletrônica é muito mais do que ‘pés dançantes’, ‘sem emoção’ e ‘descerebrada’, vai se esbaldar com mais um duo que desmistifica tais acepções negativas e estereotipadas. Música para o futuro sem esquecer do seu passado, sem vergonha de representar os ícones de um estilo. Pouca gente consegue fazer isso. Uma lástima a separação da dupla posteriormente.

O que é o Dê Uma Chance?
É uma seção aqui do blog que busca reviver algumas bandas perdidas pelo tempo. Nem tão antigas assim, mas que ficaram desapercebidas ou desaparecem e que merecem uma conferida.

Mais sobre a banda, apesar de poucas páginas na internet. Aqui

Você pode ouvir o álbum todo no Youtube

2 pensamentos sobre “DÊ UMA CHANCE: Studio

  1. O Studio apareceu naquela época de efervescência de fotolog. Uma época também, lá em 2007, quando amigos estavam mais sintonizados com música e suas novidades. Lembro que todos os amigos de fotolog gostaram da banda, indicaram para outros, enfim, foi um disco muito tocado naquele tempo. E não envelheceu, ou melhor, continua super atual. Ele tem todas essas referências que citei, vale uma ouvida. Claro que o álbum faz parte daquela leva de álbuns eletrônicos de longa duração, portanto, é preciso ouvir com disposição e numa fase mais para a música eletrônica. Depois veio o ‘Yearbook 2’, mas o impacto já não foi o mesmo, apesra de ainda ter qualidades.

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  2. Vejo que você realmente “viajou” com o disco, a exemplo do que aconteceu com o Sufjan, apesar de que no caso aqui a viagem não foi no sentido literal. Com tantos adjetivos, bateu a curiosidade de ouvir o trabalho do duo, apesar de não estar numa fase muito voltada para propostas eletrônicas, e voltarei pra comentar minhas percepções do disco, já que há tantas boas referências.

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