ESSE EU TINHA EM VINIL: The Smiths (The Smiths, 1984)

“Melancolia juvenil capitaneada pela poesia de Morrissey”

ANTERIORES:
+ O Ápice (Vzyadoq Moe, 1988)
+ Isn’t Anything (My Bloody Valentine,1988)

Algum conhecido de um conhecido de um colega de sala havia achado perdido num ônibus interestadual quatro discos dos Smiths. Esse colega de sala conseguiu emprestado os discos e ia gravar numa fita K7 na casa de um tio de um outro colega de sala.

Qual não foi minha decepção quando esse colega me mostrou o resultado da “sessão de gravação”: uma fita apenas!

As canções gravadas em sua maior parte eram da coletânea “World Won’t Listen” e algumas do “Hatful of Hollow” (acho), que dava uma geral imprecisa na carreira da banda.

Claro que fiz uma cópia dessa fita para mim, começando meu relacionamento com o The Smiths.

Quando comprei o primeiro álbum da banda já conhecia bastante a música do grupo, de forma que se o “The Queen is Dead” ainda estivesse à venda, essa seria a escolha.

Não, não tinha grana para comprar dois discos de vez, caso ambos estivessem disponíveis.

Feliz por essa aquisição, triste por não ter conseguido a outra, corro para casa para ouvir o debut da banda e a sensação foi um tanto frustrante. Onde estava aquela banda de dedilhados vibrantes e refrãos grudentos que tanto havia me fascinado com canções como “Ask”, “Panic”, “London”?
Em “Still Ill”, “Hand in Glove”, lá no lado B do disco?

Além disso, o lado A, além de começar com uma canção que me parecia muito longa e arrastada para os padrões da banda, soava por demais melancólico, muito triste. Não que esperasse por algo alegre, mas quando se cria uma imagem de algo é difícil se desfazer dela.

Logo não conseguia entender porque esse primeiro álbum de alguma forma destoava daqueles Smiths que havia sido construído em minha mente a partir de uma compilação memorável que ficara armazenada na memória desde a sequência de canções até os refrãos grudentos.

Lembro que um amigo que tinha o “The Queen is Dead” uma vez fez uma comentário que “The Queen is Dead” era o melhor disco dos Smiths e cheguei a retrucar que esse primeiro disco era o melhor, afinal na lista de melhores discos dos anos 80 feita pela Revista Bizz, lá estava este The Smiths.

Embora na época ambos estivessem puxando a brasa pro seu lado (ele tinha o The Queen is Dead), eu sabia que ele estava certo, os Smiths em seu primeiro álbum de alguma forma não conseguia ser (ou soar nesse álbum) tão empolgante quanto viria a acontecer posteriormente. E, claro, isso não tinha nada a ver com as letras de Morrissey, que sempre foram surpreendentes.

Anos depois viria a descobrir tudo que aconteceu até o lançamento do primeiro álbum, com o descarte das versões gravadas com o produtor Troy Tate (algumas, para mim, melhores que as que saíram na versão oficial) e a regravação com John Porter.

Cinco das dez faixas que saíram nesse primeiro álbum foram compiladas no “Hatful of Hollow” (que também tinha em vinil), álbum de gravações no programa de John Peel, e prefiro essas versões, por mostrar a banda pelo seu lado mais “cru”, mais guitarreiro.

No exercício de ouvir o álbum enquanto escrevo o texto, como é costumeiro, The Smiths continua soando muito melancólico, não da mesma forma que antes. Pois naquela época era o sentimento de melancolia juvenil, das agruras da pós adolescência.

Hoje é a sensação da volta no tempo, das lembranças dos momentos vividos tendo essas canções como trilha sonora no meu antigo quarto nos fundos da casa; de como meu irmão parecia gostar mais do disco do que eu; de como meu pai implicava com os vocais de Morrissey em “Miserable Lie”; e de como “Still Ill” parecia a canção feita para mim.

Por uma infinidade de motivos, esse é outro daqueles álbuns que evito ouvir, talvez por isso só agora sua resenha tenha sido feita, pois em termos de história em minha vida está entre os primeiros.

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4 pensamentos sobre “ESSE EU TINHA EM VINIL: The Smiths (The Smiths, 1984)

  1. Eduardo, adquiri esse álbum em CD recentemente, há muito que o tinha em MP3. Como deve saber, vendi todos os meus vinis, na época fazendo a “migração” para o CD. Fosse hoje e não teria feito isso. Quanto ao charme das capas, sem comparação.

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  2. Esse eu não tive em vinil. Acho que na época estava enrolando com estudos, ainda não conhecia muitas bandas e só depois com a ajuda (e o empréstimo de k7’s) dos amigos é que fui conhecer. Não pestanejei em comprar depois em CD. Mas convenhamos, The Smiths é uma banda que fica bem em vinil, parece ser mais charmosa.

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  3. Lembro-me bem da história dos discos achados no ônibus… Também fiz minha cópia da compilação. Bela resenha e boas lembranças Luciano!

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