CLÁSSICOS: Pavement – Slanted and Enchanted (1991)

NOTA: 9,5

Slanted_and_Enchanted_album_cover

“Estava vestido para o sucesso, mas o sucesso nunca vem” (Here)

Alguns discos se tornam clássicos com o tempo, outros nascem clássicos e o tempo trata de ratificar sua posição. “Slanted and Enchanted”, primeiro álbum dos americanos no Pavement enquandra-se na segunda afirmação.

Encontrá-lo, por exemplo, em vigésimo quarto na lista dos cem melhores álbuns dos anos 90 feita pela conservadora revista americana Rolling Stone, à frente de concorrentes como (What’s the Story) Morning Glory?, do Oasis e Harvest Moon (Neil Young), é um feito surpreendente . Mais surpreendente ainda terem ficado à frente do Nirvana como álbum do ano, segundo a revista Spin.

Lançado oficialmente em abril de 92 pela então pequena Matador Records, Slanted entra no panteão de discos ofuscados pelo gigantesco sucesso que varreu a face do planeta chamado “Nevermind”, do Nirvana. Correndo sutilmente por fora, a música do Pavement seguia por um lado oposto ao proposto pelas bandas grunge, quer na música (sonoridade propositadamente despojada) ou nas letras (cheias de ironia e certo non sense).

As composições nesse primeiro álbum do grupo mostram um ar descompromissado e despretensioso que remete ao Beat Happening; já alguns vocais, no estilo falado, seguem a cartilha de Mark e. Smith do The Fall (Conduit for Sale / Loretta’s Scars / Two States); e o lado garageiro traz à tona influências de Sonic Youth, principalmente quando criam aquele inferninho noise (No Life Singed Her / Perfume V), ou Pixies (Trigger Cut / Chesley’s Little Wrists / Fame Throwa), nos momentos de insanidade vocal e experimentações.

O resultado dessa mistura é uma música que soa bem original, ao digerirem tudo isso e vomitarem de volta com uma visão própria, despreocupada com filiações a gêneros ou a rótulos vigentes. Juntam dois lados antagônicos: o barulhento e o melódico – vide a agridoce “Here” – sem perder a coesão. Lado melódico esse que viria a ser mais explorado nos álbuns subsequentes com resultados também muito bons.

Gravado e executado de forma “espontânea”, Slanted encanta pela sua sinceridade e senso anárquico, filiando-se ao lema punk “do it yourself” (faça você mesmo), priorizando o resultado final sem grandes preocupações com a forma ou a técnica, o que ficou conhecido como lo-fi: instrumental despojado, guitarras desafinadas ou tocadas sem preocupações com complexidade e gravações toscas, predominando a sonoridade de garagem. O baixo, por sinal, aparece muito pouco e de forma discreta na maior parte das canções. No turbilhão de distorção que irrompe muitas vezes nos arranjos, a voz de Malkmus surge de forma plácida, às vezes aos berros, somando-se ao caos sonoro.

O resultado disso tudo é que o Pavement logo emergiu como banda ícone do rock underground americano, influenciando toda uma geração de bandas ao redor do globo. Podem não ter alcançado tanto sucesso quanto seus contemporâneos do Nirvana ou Pearl Jam, mas o legado que deixaram para o rock alternativo talvez esteja num nível acima das citadas, “Slanted and Enchanted” foi o disco que impulsionou essa trajetória.

Um pensamento sobre “CLÁSSICOS: Pavement – Slanted and Enchanted (1991)

  1. Lembro que comprei esse disco em 1993, dois anos depois. Se não me engano, tinha lido sobre ele em algum lugar (Bizz?) e até então, não corri atrás. Andando pelas lojas de Vitória, me deparo com o CD. Na época o formato CD era um tanto quanto novidade pra gente e as lojas tinham muita coisa, precisávamos realmente vasculhar. Uma euforia essa época. Acredite, foi um dos primeiros CD’s que comprei (junto com ‘Automatic For The People’ do REM).

    Tudo pareceu estranho, mas à medida que ouvia, gostava mais desse álbum. Engraçado que não consegui destacar alguma música, mas com certeza foi ‘Here’ que me agradou a princípio pois essa já tinha ouvido na MTV (eles a tocando ao vivo). Passei para um fita K7 pois adorava andar de bicicleta escutando esse trabalho. Brincava com meu amigo Gilmar dizendo que a bateria do Pavement parecia ser alguém batendo numa caixa de sapatos. Falava disso tudo que vc citou em seu belo texto. E ele sempre respondia: ‘Du, isso não é para se levar a sério, apesar de ser sensacional’.

    Depois adquiri ‘Crooked Rain, Crooked Rain’ (1994), mas ‘Slanted And Enchanted’ é aquele momento mágico que toda banda tem algum dia na vida, algo que talvez, ela nunca mais consiga repetir.

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