CLÁSSICOS: THE FLAMING LIPS – The Soft Bulletin (1999)

NOTA: 10

Soft_Bulletin_cover

“Avise a todos esperando pelo Super-Homem que eles devem tentar esperar o máximo que puderem” (Waitin’ for a Superman)

Quando lançaram ‘The Soft Bulletin’ os americanos do The Flaming Lips já haviam percorrido uma trajetória de oito álbuns de estúdio e mais de quinze anos de carreira. A boa reputação no meio underground e boas críticas para seus álbuns pareciam não ser suficientes para apagar-lhes o rótulo de ilustres desconhecidos.

As coisas começaram a mudar no início dos anos 90, quando assinaramm com a poderosa Warner. 1993 marca uma guinada em direção à expansão da marca, com o sucesso inesperado de “She Don’t Use Jelly”, do álbum ‘Transmissions from the Satellite Heart’ (1993).

‘Zaireeka’ (1997) foi o álbum que puxou em definitivo os holofotes para aquela banda de malucos de Oklahoma, mais pelo seu formato mirabolante. É um álbum quádruplo com as mesmas faixas, mas com os arranjos divididos, podendo ser escutado tanto individualmente quanto em combinações de dois, três ou até os quatro ao mesmo tempo. Sendo essa última a que resultaria na experiência completa do disco.

A banda parecia estar disposta a quebrar barreiras, fugir do lugar comum, levar a música um passo adiante daquilo em que estiveram envolvidos por alguns anos. Segundo Wayne Coyne, a saída do guitarrista Ronald Jones, em 1996, foi o que permitiu que a banda seguisse por esse lado mais desvairado.

Reduzidos a um trio, o lado barulhento de suas canções, que vinha aos poucos sendo deixado para trás, desaparece. O The Flamings Lips dá boas vindas ao mundo dos sintetizadores, dos processos de gravação intricados e dos arranjos com nuances diversas e bruscas mudanças de andamento. No bojo, a verve psicodélica, que crescia a cada disco, toma conta, e “The Soft Bulletin” é o marco dessa mudança. Um álbum pretensioso à beira do fim do milênio.

A mudança no foco pode ser percebida já na abertura orquestrada da épica “Race for the Prize”. A canção surge como um abrir de janelas para um novo universo repleto de cores e formas novas e diversas. Na letra, Wayne Coyne exalta a saudável discorre sobre a disputa de dois cientistas determinados na busca de uma descoberta que pode ser benéfica para a humanidade: “Two scientists were Racing/For the good of all mankind/Both of them side by side/So determined” (Dois cientistas estavam disputando/ Pelo bem de toda a humanidade/Ambos emparelhados/Tão determinados).

Essa é uma das faixas de abertura mais marcantes de um disco, espécie de arauto do universo musical em que o ouvinte será apresentado.

“A Spoonful Weighs a Ton” (Uma colher pesa uma tonelada) usa em seu título o conceito de densidade de certos corpos celestes. Seu arranjo básico é bem simples, usa uma melodia de piano como guia mestra, mas aí entra uma gama de instrumentos diversos que vão se agregando em camadas e tornando-a uma profusão atordoante de sons capaz de nocautear os sentidos. Entre o início e final de tons bucólicos, eles quebram o andamento com uma bateria fora do contexto e synths pesados e distorcidos.

Pode-se afirmar que muito do que se ouvirá nas faixas seguintes de ‘The Soft Bulletin’ serão variações espertas das ideias delineadas nas duas primeiras canções do disco. Não significa dizer que são dispensáveis, pelo contrário, mas que esses elementos já apresentados serão desenvolvidos e expandidos em arranjos de facetas diferentes. E, prestem atenção, o piano será uma companhia constante nesse percurso. Ele estará lá de forma singela em “The Spiderbite Song”, servindo de contraponto para, mais uma vez, uma escalafobética levada de bateria.

E essa bateria fanfarrona surgirá também em muitos momentos, num volume absurdamente alto, como que tentando bagunçar toda delicadeza dos outros instrumentos sutis que estão sempre se agregando ao arranjo, “Buggin” é um bom exemplo disso.

Dá pra perceber em ‘The Soft Bulletin’ uma antecipação do que viria a acontecer no álbum seguinte dos Lips, o também ótimo ‘Yoshimi Battles the Pink Robots’. Faixas como “What is The Light” e “Buggin’”, com suas bases essencialmente eletrônicas e repetitivas sugerem esse prenúncio; ou na belíssima “Feeling Yourself Disintegrate”, um dos momentos mais melódicos do disco.

“Waitin’ for a Superman”, outro grande momento do disco, também se insere nesse contexto de aproximação com o álbum seguinte. É uma das canções mais diretas e “minimalistas” do disco, resumindo-se quase que totalmente à bateria e a voz de Wayne, que discorre sobre um super-homem que não virá e por isso as pessoas devem aguentar o máximo que puderem com seus problemas, com suas angústias, com suas dores.

Comenta-se que muito do que se ouve no disco é fruto do momento em que se encontravam seus integrantes na época, traumatizada com problemas pessoais: Wayne Coyne com o pai doente, Steven Drozd com problemas relacionados ao uso de drogas e Michael Ivins tendo passado por um acidente de trânsito que quase lhe tirou a vida.

Esse lado reflexivo está presente não só nas letras de muitas canções, com tom mais pessoal e direto, mas já se mostra na sugestiva capa, com o uso de uma fotografia de Lawrence Schiller, usada em um artigo de 1966, da revista Life Magazine, sobre o LSD. Sendo aplicado, claro, um efeito psicodélico, mais apropriado para as ideias da banda.

Produzido por Dave Fridmann, que deixou sua marca indelével (tanto que passou a ser requisitado por diversos artistas), ‘The Soft Bulletin’ ergue-se como uma epopeia desse grupo oriundo de Oklahoma. Uma epopeia sonora que dá uma chacoalhada em nosso cérebro, desorganiza nossas ideias e desafia nossos sentimentos.

Um pensamento sobre “CLÁSSICOS: THE FLAMING LIPS – The Soft Bulletin (1999)

  1. Lendo sua resenha agora e me pego numa própria culpa, algo me pedindo para que eu ouça esse disco novamente, com dedicação. Ele passou despercebido pra mim. A bem da verdade, o Flaming Lips é uma banda que se apresenta toda fragmentada em meu conceito. Ouvi discos alternados e perdi, digamos, um pouco a discografia da banda. Tenho até hoje o ‘Hit to Death in the Future Head’ como um dos fundamentais do grupo e depois daí, por um momento difícil em minha vida, só fui parar e dar atenção ao ‘Yoshimi Battles the Pink Robots’, dez anos depois. Meu amigo que chegou a gravar algumas k7’s pra mim, mas acabei nem escutando tudo. Com seu texto afiado e com um disco importante desses, é preciso se redimir da culpa e agora correr atrás de uma prazerosa audição. Bom texto, Luciano.

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