CINEMA: Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

Nota: 8,0

Hateful-Eight-Blog

‘Absorvendo várias referências antigas e até próprias, Tarantino segue em seu estilo inconfundível de fazer cinema ou de tentar conceituar um western da era moderna’.

Sou cinéfilo desde minha infância. Não sou tão viciado ao ponto de saber a história completa da arte, de citar características de épocas, de traçar parâmetros para certos gêneros. Entretanto, gosto do bom filme. Que traga roteiro com qualidade, que seja um filme para se discutir com os amigos, para que eu durma pensando nele e nas consequências com meu caráter e minha personalidade até. Também não tenho preferências por diretores e atores. Não espero o grande próximo filme de diretor X porque é importante realçar tal diretor e sua filmografia. Tenho a ideia de que todos os envolvidos em cinema passam pelos grandes momentos, como podem deixar aquele filme mais sofrível ou logo esquecido.

Quentin Tarantino, por exemplo. Não crio um frisson em relação ao diretor, mas alguns trabalhos me despertam previamente a atenção. Claro, Quentin traz o cinema baseado nos quadrinhos, absorveu vários gêneros, aprendeu muita coisa sobre o passado da arte, não tem medo de ser polêmico, criou sua personalidade dentro das narrativas. Não tem pudor em jogar suas influências pra tela. ‘Os Oito Odiados’ traz muito da arte, o espectador vai encontrando as diversas referências que, convenhamos, o próprio cinema deve repassar: o western spaghetti de Sérgio Leone mostrado em filmes como ‘Três Homens Em Conflito’ (1966), aquele filme onde todos são suspeitos (‘Identidade’ de 2003) e nem mesmo películas do próprio Tarantino escapam (‘Cães de Aluguel’ de 1992 e ‘Django Livre’ de 2012 nos chegam à mente).

Tarantino não precisa de uma megaprodução. Esse é outro recurso. ‘Os Oito Odiados’ se passa, convincentemente, em apenas dois cenários. Uma solitária diligência sob uma forte nevasca e depois o armazém da Minnie. Mas é no devido estabelecimento que a narrativa engrandece, toma forma e vai criando no espectador todo o suspense nos contando gradativamente a verdadeira história por trás dos fatos. Quentin precisa do seu habitual, do que a gente já conhece desde ‘Cães de Aluguel’: a violência, derramamento de sangue, palavrões, personagens sujos e mal encarados, o homem enfrentando a si mesmo no desespero. Ele faz o espectador não gostar de ninguém do filme, aliás, os personagens chegam com uma aura de mistério e aqui, não há uma noção de mocinho-bandido, existe sim a questão de que preciso sobreviver ou me dar bem. Para nós, difícil saber quem conta a verdade, qual a intenção daqueles presentes no armazém. A narrativa em capítulos segue um bom procedimento. Pode ser até fácil você decifrar aquele final, mas não de saber quem pode alcançar o objetivo (e isso soma pontos no meu conceito sobre cinema atual).

Em clima de isolamento e desolação, com uma trilha eficaz do experiente mestre Morricone e chegando a um ápice desnorteante e violento na meia hora final, Tarantino usa e abusa do cinema típico que aprendeu a evoluir. O elenco também fez o diretor se sentir em porto seguro: Samuel L. Jackson, Tim Roth e Kurt Russell já trabalharam diversas vezes com Quentin, facilitando esse entrosamento entre diretor- ator-personagem. Igualmente gostei da atuação de Walter Goggins cuja passagem brilhante pela série ‘Justified’ já havia me despertado a atenção. Michael Madsen também está no elenco, ator que considerava bem sumido das telas.

Como tema de fundo, a película se passa alguns anos depois da Guerra da Secessão. Por conta dela, alguns diálogos serão traçados na narrativa. Apesar disso, ele recebeu algumas críticas negativas e gerou polêmicas. Mas o acontecimento histórico serve como um tempero para a ira de alguns personagens e também para o fortalecimento da tensão no ambiente. Tarantino segue com sua linguagem cinematográfica, sua idiossincrasia e seu estilo, inspirado por mestres da sétima arte e criando, talvez, uma nova mentalidade para o western atual. Será pra sempre bem querido, ou pra sempre detestado. Sem levantar bandeira ao extremo, gosto do que ele anda fazendo, dentro do cinema que precisa inovar e querer ousar.

Para saber mais, clique aqui
Filmow
IMDB
Rotten Tomatoes

4 pensamentos sobre “CINEMA: Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

  1. Sábias palavras, Luciano. E considere essa sua (espécie) de parágrafo como complemento de minha resenha. Ideia tão boa e lúcida acerca do filme que poderia ser encaixada muito bem ali, em meu texto. Obrigado pelo elogio também.

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  2. Acho que o que Tarantino fez nesse filme foi dar uma esticada , de forma magistral, naquela cena da taberna de Bastardos Inglórios. Claro, deu uma recheada na história, colocou mais personagens e histórias paralelas, de forma a prolongar o filme e culminar numa longa sequência na taberna. Gostei do filme e o final acabou me surpreendendo. Acho que a direção segura de Tarantino, os diálogos sempre interessantes e a atuação de cada um dos atores contribuiu para que o filme não caísse na mesmice.E, como sempre, Tarantino joga muito sangue na tela, que não agrada a muitos. No meu caso, sempre vejo por um lado cômico, devido ao exagero com que ele faz isso, como num filme gore. Quanto a resenha, boa a oportuna.

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  3. Também fico com ‘Django Livre’, sobretudo analisando outros quesitos de ambos os filmes. Mas esse faroeste moderno que Tarantino anda articulando está interessante e pode trazer mais trabalhos curiosos pro futuro. Obrigado pela leitura e comentário.

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