ANOHNI – Hopelessness (2016)

NOTA: 8,0

“Vocalista do Anthony and the Johnsons compõe um dos álbuns mais contundentes do ano”

Em seu novo projeto musical, Antony Hegart, agora sob a identidade de Anohni, envereda por um lado oposto ao de seus trabalhos com o Anthony and the Johnsons, mas que já havia se aventurado em colaborações com outros artistas.

Fruto da parceria com os músicos da cena eletrônica Daniel Lopatin e Ross Birchard, “Hopelessness” segue uma fórmula monotemática musicalmente, mas com letras que abarcam temas diversos.

Os arranjos se estruturam em torno de baterias eletrônicas pesadas, sintetizadores atmosféricos e uma incessante idas e vindas de pequenos elementos eletrônicos que buscam dar dramaticidade ao canto de tom grave e melancólico de Anohni.

Quem acostumou-se com aquele lado clássico e orgânico, pode soar estranho esse “Hopelessness”.

Não só isso, aqui a artista investe pesado em letras de cunho político e também pessoais. Alguns versos chegam de forma bem cortante, como na faixa de abertura “Drone Bomb me”, que pode ser interpretada de forma dúbia, tanto referindo-se a si como aos ataques no Oriente Médio com o uso de drones: “Love, drone bomb me/ Blow me from the mountains/ And into the sea Blow me from the side of the mountain”.

Por sinal, os conflitos armados no Oriente Médio perpassam quase todas as letras, vide “Crisis” com os versos: “Se eu matei seu pai/Com uma bomba zangão/Como você se sentiria?… Se eu torturei o seu irmão em Guantanamo/Eu sinto muito”, finalizando com vários pedidos de desculpas e samples do que pode ser interpretado como uma rajada.

“4 Degrees” tem não só uma batida marcial e sintetizadores densos, há um clima de sufocamento nos samples de instrumentos de sopro que a circundam. Segundo Anohni, a intenção foi colocar pra fora algo que sentia e estava reprimido, a descrença na humanidade, a sua capacidade de destruição do meio ambiente. A letra também segue martelando na consciência: “E todos os rinocerontes e todos esses grandes mamíferos/Quero vê-los prostrados, gemendo pelos campos/Quero vê-los arder/São apenas 4 graus”.

Em “Watch me” uma espécie de tentativa de diálogo com o pai. Segundo a vocalista, sua família sempre foi muito fechada, com pouco espaço para diálogo. Novamente versos profundos: “Papai, papai/Observe-me no quarto de hotel/Observe meu trajeto enquanto me movo de cidade em cidade/Observe-me assistindo pornografia/Observe minhas conversas com amigos e família”.

Nem o presidente Obama escapa dos versos afiados de Anohni, na assustadora “Obama” o relato da decepção em relação às políticas do presidente americano: “Quando você foi eleito/O mundo chorou de alegria/Pensamos que empossáramos/O mensageiro da verdade”.

Se com o seu projeto Miserable, Kristina Esfandiari, utiliza a música como forma de expurgar as dores de uma relação destroçada, Anohni, em Hopelessness, usa a música como forma de expurgar seu descontentamento com o mundo que o cerca e seu “deslocamento” nesse ambiente tão hostil. O faz de forma profunda com sua voz delicada de impostação grave e lírica, contrapondo-se a um instrumental às vezes gélido, duro e seco, ou simplesmente desprovido de cadencias melódicas.

A Desesperança que como título para o álbum e para uma das faixas, ao final, faz todo o sentido.

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