PJ Harvey – The Hope Six Demolition Project

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Seguindo  a tradição de cronistas essenciais do rock, como Bob Dylan e Morrissey, Polly Jean, sem dúvida sabe como tirar músicas de uma dada realidade.

Após um hiato de 5 anos sem lançar material inédito, Polly Jean Harvey ou simplesmente PJ Harvey, lança um disco com aspecto musical muito diferente dos outros que o antecederam.

Aparecendo para o mundo em 1992, com um disco bastante cru, onde se caracterizava autênticos blues com uma pegada mais visceral de guitarras barulhentas, PJ se estabeleceu como uma das vozes mais autênticas dos anos 90. Temas como feminismo, amor, questões do corpo, sexualidade, religião, são temas recorrentes em seus discos. Os sucessos dos três primeiro discos fizeram com que PJ se estabelecesse como uma das grandes personalidades da música inglesa e mundial nos anos e discos que se seguiram.

Cantora, compositora e multi-instrumentista, PJ sempre tem algo novo a apresentar, uma nova nuance, seja de seu mundo interno ou da forma como encara e se relaciona com a realidade que a cerca. Essa forma de enxergar a realidade fez com que ela se jogasse em um novo projeto no mínimo interessante.

Na companhia do cineasta Seamus Murphy e sendo conduzidos pelo famoso repórter Paul Schwartzman, do The Washington Post, a artista viajou por diversos locais do mundo (Kosovo, Afeganistão e Washington D.C.), sempre como expectadora de tudo o que acontecia, com o intuito de estudar o verdadeiro impacto e os diversos desdobramentos da guerra na vida dos civis ao redor do mundo. Inspirado nestes registros, com seu testemunho, a artista lança um disco contundente sobre os registros observados e como foi dito anteriormente, não na sua visão, mas na visão daqueles que fizeram parte de seus registros, tanto o cineasta Seamus Murphy, como de pessoas locais, sobre histórias de “zumbis” abandonados por programas estacionados do governo, pessoas que sofreram com guerras e a paralisação coletiva diante de cenários isolados bem caóticos.

Hope Six Demolition Project é o encontro de todas estas visões como espectador destes locais em forma de música e poesia, sendo a poesia mais marcante que a música propriamente dita. Um álbum que tem sua base em melodias marciais com um clima fantasmagórico traz o retorno de guitarras, não necessariamente no rock propriamente dito. Sons e sensações essas que acompanham até o final do disco apontado para o blues, o spiritual gospel, o folk e até o free jazz no uso do saxofone, em algumas vezes lembrando cânticos de escolas dominicais de igrejas locais.

Musicalmente o álbum não apresenta a sujeira e distorções de alguns álbuns anteriores, fazendo com que soe com uma sonoridade bastante leve, dando vez aos metais, estas quando aparecem soam ao longe, mas não tão presentes. Com a escolha por esse instrumental PJ também tende a cantar mais suavemente, isto não quer dizer que seja uma interpretação tão meiga, ou seja subindo o tom de voz sinalizando seu descontentamento, sua indignação para com os temas abordados ao longo do disco, soando por vezes panfletária. Confesso que só descobri isso após horas e horas de audição do disco.

“The Hope Six Demolition Project” é um álbum cru, como a própria Polly Jean, um disco de difícil audição e para se escutar com calma, prestando-se atenção nas letras e nas melodias, no clima lúgubre, nos barulhos em todos os seus detalhes. Uma pena que este belo disco tenha passado quase desapercebido. Mais uma vez Polly Jean nos presenteia com um grande e belo disco, confirmando que consegue passear por várias vertentes musicais sem perder sua autenticidade e originalidade, sua marca registrada. 

Um pensamento sobre “PJ Harvey – The Hope Six Demolition Project

  1. Bom texto. Situando um pouco a história da cantora, assim como descrevendo o disco. Não vou mentir que tenho uma lacuna na discografia da Pj Harvey. Alguns discos ouvi por força de amigos que me indicaram na época, mas depois deixei de lado alguns trabalhos. Conheço bastante ‘Dry’, ‘To Bring You My Love’ e ‘Uh Huh Her’, os outros eu não ouvi bastante. Talvez busque conhecer esse da resenha, para, quem sabe, ter uma opinião a mais sobre ela.

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