REEDITANDO: The Durutti Column – Sunlight to Blue… Blue to Blackness (2008)

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The Durutti Column é Vini Reilly. E vice-versa. Nome de banda para soar mais modesto ou mais fácil para as gravadoras. Um guitarrista simples, com problemas de saúde, que já homenageou a mãe falecida em discos, e que não recebeu (e ainda não recebe) a mesma atenção que realmente merece. Não tem o status que outros da extinta gravadora Factory – da qual começou fazendo parte, possuem. Não tão como o estrelato de New Order e Happy Mondays, diga-se de passagem. Isso desde o início dos anos 80. Sempre correndo por fora, e assim como o trintão grupo inglês The Fall, uma carreira longínqua e com discos lançados sem interrupção. Discografia imensa. Por alto, mais de 20 discos. Participações em discos de gente de peso como o ‘Viva Hate’ do Morrissey.

Por que, então, esse músico continua ignorado? Talvez seja porque Vini Reilly faça uma sonoridade que espanta os mais desavisados. Para aqueles que procuram hypes e que não fogem do mais do mesmo que a mídia impõe. Ou porque o que está em jogo é a questão da música com cérebro, com sentimentos, vindas de algum lugar lá no fundo de um coração que talvez sempre tenha se prezado pelo anonimato ou pela esquiva da mídia. De uma pessoa que consegue tratar a arte como fosse sempre seu primeiro filho. Com mãos de fada. Com carinho.

Falar de algo remanescente de uma época onde conhecíamos no máximo 2 bandas por mês é algo tão difícil. Um período onde obter o vinil de algum grupo era como encontrar ouro no seu mais puro quilate. E ficávamos ouvindo aquele disco por horas a fio. Esperando pelo próximo que já nos deixava com os bolsos vazios. Foi nessa época então, que não hesitei em adquirir uma obra comentada na antiga revista Bizz, o álbum ‘LC’ (1981). A partir daí, criei um vínculo obrigatório em dar seguimento aos trabalhos do The Durutti Column.

E se eu disser que ‘Sunlight To Blue…Blue To Blackness’ remete a álbuns do início de carreira? Um pouco de ‘The Return Of Durutti Column’ (1980) ou até mesmo do próprio ‘LC’? Poderia soar blasfêmia para algum fã? Acho que não. Seria até uma honra, pois representa a fase em que ele realmente deveria ter se lançado ao mundo e poderia ter alcançado a sua fama. Tanto que em 2008, o artista deu uma revigorada sonora na linda ‘Never Known’ (que outrora fez parte do disco ‘LC’). Numa outra roupagem mais acelerada e dançante, sem deixar de ter o toque de Midas do Senhor Vini Reilly.

Aqui, Vini prefere dar prioridade aos instrumentos. Poucos vocais. Os poucos aparecem sobre efeitos e vão dar as caras na sexta música, ‘Never Known’. Na sétima música, ‘So Many Crumbs And Monkeys!’, o vocal ganha mais destaque. O tom de voz triste e pacífico embrenhado a guitarras multiplicadas (sim, porque ele faz o instrumento valer por mil na canção) é magnífico. Como já disse, o The Durutti Column não precisa tanto da voz para ressaltar as músicas. As estruturas melódicas falam por si só. A exemplo de ‘Ananda’ que me fez pensar logo em ter aulas de piano, tão lindo ficou o instrumento tocado pela jovem pianista Poppy Morgan na composição. Contudo, é a própria Morgan que faz um dueto vocal com Reilly durante os 8 minutos da contagiante e hipnotizante ‘Head Glue’. Uma das melhores do disco, na minha sincera opinião.

‘Glimpse’ é uma peça acústica digna dos melhores guitarristas do mundo. Vai sendo conduzida por ciclos e mais ciclos de dedilhados. A melancólica ‘Messages’ une, de forma pungente, uma harmônica junto a cordas impecáveis. ‘Demo For Gathering Dust’ traz cordas num estado desvairado de acordes, sobreposições infinitas levando a uma loucura vertiginosa que até então parece que eu não tinha ouvido em alguma música neste universo.

Vini Reilly é aquele músico que transforma tempestade em bonança, que traz luz mesmo em tempos de extrema escuridão. A única ausência de luz que você pode querer é apagar a lâmpada do seu quarto ao deitar e ouvir o disco, para assim, então, entender melhor ainda essa obra de arte.

Allmusic
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Ouça a linda ‘Head Glue’

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