DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS – Sky’s Gone Out (1982)

DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS (PARTE 3)

O ano de 1982 foi muito bom para o Bauhaus: o show no Old Vic Theatre foi filmado e posteriormente lançado em VHS (em 1984) com o nome de ‘Shadow of Light’; fizeram uma “aparição” na cena de abertura do filme sobre vampiros ‘Hunger’ (Fome de Viver), com Catherine Deneuve e David Bowie, interpretando ‘Bela Lugosi’s Dead’; o single ‘Spirit’, primeiro a contar com um produtor (Hugh Jones), conseguiu uma boa recepção e rotação nas rádios, alcançando o 42º lugar nas paradas; junto a tudo isso, a versão de ‘Ziggy Stardust’ (maior êxito da banda), canção de David Bowie, rendeu lugar nas paradas e presença no programa de TV Top of the Pops, da BBC.

O irônico é que, se por um lado a banda chegava pela primeira vez ao popular programa da TV britânica, por outro era justamente com uma versão de uma canção de Bowie, que a banda tanto era acusada de imitar. Inclusive em uma entrevista para a Melody Maker, publicada em outubro de 1982, a banda respondendo porque fizeram o cover disse: “a ideia de fazer a versão de Ziggy Stardust foi parcialmente uma reação a pessoas que como você [no caso o jornalista Steve Sutherland], insiste em afirmar que somos uma imitação de Bowie”. Em outra entrevista, David J comenta novamente sobre a cover: “fizemos justamente o oposto do que os críticos esperavam”.

Com tantas coisas acontecendo, difícil seria imaginar (na época) que em 1983, cerca de um ano depois, aconteceria a separação do grupo. A “aparição” em ‘Fome de Viver’ é citada comumente como um dos motivos para isso, já que apenas Peter Murphy aparece no filme, em detrimento aos outros membros da banda, que teriam se sentido excluídos.

Voltando a 1982, o grupo parecia disposto a explicitar suas influências através de versões – já haviam feito ‘Telegram Sam’ (Marc Bolan). Além da já citada ‘Ziggy Stardust’ (Bowie), fazem uma versão para ‘Third Uncle’ (Brian Eno), ambas registradas em apresentação na BBC. Essas versões são lançadas no single “Ziggy Stardust”, que contempla uma versão ao vivo de 1981 para “Waiting for the Man” (Velvet Undergground), com Nico nos vocais.

‘Third Uncle’ viria a ser a faixa que abre, de forma inusitada, ‘Sky’s Gone Out’, terceiro álbum do Bauhaus, lançado em outubro de 1982. Embora não seja considerado o melhor álbum da banda, com ele alcançam a melhor posição nas paradas ao longo de toda a carreira, emplacando um 4º lugar na parada inglesa. A versão do Bauhaus mantem a pegada energética da original, mas soa mais garageira que a de Eno, com guitarras cortantes, efeitos de flanger e às vezes microfonia. Uma releitura bem próxima da original e com o toque da banda por conta de Peter Murphy.

No álbum, mais uma vez a banda apresenta diversidade de ideias, não tão inspiradas como em álbuns anteriores, mas ainda assim conseguindo manter a aura de antes e emplacando canções emblemáticas.

A versão para “Spirit” é menos interessante e mais estranha que a que já havia saído em single alguns meses antes, soando excessivamente produzida. Cabe uma observação: a banda não havia ficado satisfeita com a versão que havia saído no single, produzida por Hugh Jones, apesar do alcance que ela conseguiu. “Não gostamos de fazer single”, foi a resposta da banda em um entrevista. “Spirit” tem letra de David J e evidentemente fala do espírito de alguém que se foi, provavelmente um(a) artista, de uma forma um tanto romântica: “Esta noite eu poderia estar com você ou esperar nos bastidores, elevar seu coração com uma canção esvoaçante, cortar as cordas dos fantoches”, finalizando com os versos que se tornaram “famosos”: “We love the audience”, cantado em uníssono por todos os membros da banda, inclusive em apresentações ao vivo. A levada tem um quê de música cigana.

‘In the Night’, outra das faixas interessantes de ‘Sky’s Gone Out’, soa uma tentativa de reencontrar o Bauhaus de batidas tribais de ‘Double Dare’, quase como uma continuação daquela com seus riffs rasgantes de guitarra e efeitos diversos.

Sobressaem-se no disco as canções de tom mais acústico como ‘Silent Hedges’, que Murphy fala de “ir ao inferno novamente”, e ‘All We Ever Wanted’, que traz uma ponta de decepção em sua letra: “Tudo o que sempre quisemos foi tudo, tudo que sempre conseguimos foi o frio”. ‘The Three Shadows’, dividida em três partes, soa um tanto exagerada e bem estranha, sendo a parte dois a mais interessante, embora as duas partes cantadas possuam letra com versos enigmáticos e surreais. ‘The Three Shadows II’ também pende para o acústico; com base repetitiva permite a Peter Murphy exercitar sua voz grave sobre sons de pianos martelantes e efeitos de vento soprando.

O álbum teve uma edição limitada que continha o ao vivo, “Press the Eject and Give Me the Tape”, que, segundo consta, teria sido a frase dita pelo segurança a um espectador que havia gravado o show em uma fita K7. Na capa, mais uma vez, uma ilustração feita pelo guitarrista Daniel Ash, que se assemelha a um eclipse.

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