RIDE – Weather Diaries (2017)

NOTA: 7,0

“Apesar de irregular novo álbum após vinte e um anos aponta caminhos”

No final da década de 80 e início dos anos 90, enquanto nos EUA germinava a semente do que viria a ficar conhecido como grunge, na Inglaterra brotava o que posteriormente viria a ser rotulado de shoegaze. Se o grunge pegava as referências barulhentas das bandas de garagem, do hard rock e do punk, o shoegaze viajava tantos nas guitarras etéreas do Cocteau Twins quanto nas microfonias e reverberações do Jesus and Mary Chain, mas também bebia nas referências sessentistas de bandas psicodélicas e nas harmonias vocais e melodias dos Byrds.

“Nowhere” (1990), primeiro álbum do Ride é um dos melhores álbuns de estreia de uma banda e um dos pilares do shoegaze. Lá estão misturadas essas últimas referências citadas no parágrafo anterior, numa combinação perfeita entre melodias impactantes, barulho envolvente e bem condensado e um jogo vocal interessante entre Mark Gardener e Andy Bell. Alguns afirmam que o álbum de estreia dos ingleses acabou ofuscado pelo estrondo que foi “Nevermind”, do Nirvana, vindo a ter seu reconhecimento posteriormente. Após “Nowhere”, seguiram-se mais três álbuns, sendo “Going Blank Again” (1992) o mais consistente, já que para os álbuns seguintes a opção clara foi de direcionar sua música para algo mais próximo ao que estava fazendo o Oasis, que ia galgando os degraus do sucesso. Com isso o Ride ia perdendo ou mudando a sua identidade, construída a partir da sonoridade que emergia de seus dois primeiros álbuns, ao tempo que as divergências internas iam corroendo o relacionamento como banda até o derradeiro fim em 96.

“Weather Diaries” vem após mais de vinte anos desde o último álbum de estúdio “Carnival of Light” (1996). Nesse meio tempo tanto Mark quanto Andy estiveram envolvidos em diversas bandas, tanto como protagonistas quanto convidados. Andy chegando a tocar com o Oasis por anos e Mark fazendo parceria com Robin Guthrie. E a pergunta que se faz sempre que uma banda volta a ativa é: qual “banda” iremos encontrar nesse novo disco? Qual a desse Ride versão 2017?

Vamos abstrair. Vamos imaginar se pudéssemos entrar numa máquina do tempo e fazer o lançamento de “Weather Diaries” em 1994. Quão deslocado ele poderia soar se lançado dois anos depois de “Going Blank Again”? Sim, não existe o SE, todos sabemos, mas nada nos impede de fazer suposições, de criar cenários. E, sim, “Weather Diaries” poderia tranquilamente ser o terceiro disco do Ride, pois musicalmente está muito próximo de “Going Blank…”, basta checar o uso discreto de elementos eletrônicos em diversas faixas, começando pelo barulhinhos sintetizados de “Lannoy Point”, um dreampop de pegada melódica. A diversidade musical também é comparável, indo de momentos mais densos ao da busca de uma canção pop a ficar guardada na memória e ser assoviada de vez em quando. Mas é aí que a banda falha lindamente aqui, não há uma canção com uma melodia ou refrão marcante. E nesse quesito esse novo Ride deixa a desejar. A sequência das três primeiras faixas do álbum em nada ajudam, apesar das letras interessantes, musicalmente soam pouco inspiradas, menos até que muitas bandas imitadoras do próprio Ride. Inclusive os riffs de abertura de “Charm Assault” até assusta quem torceu o nariz para a fase “setentista” da banda, evidente em seus últimos álbuns.

Com o tom saudoso na letra de “Home is a Feeling” e o instrumental mais denso, “Weather Diaries” começa a tomar rumos diferentes, peca por ser uma canção curta mediante o que a ideia instrumental propõe. “Weather Diaries”, faixa título, remete aos contemporâneos do Slowdive no clima etéreo embalado por efeitos intensos de delay e baixo de linhas profundas. remete ao próprio Ride do início, que gostava de se perder em instrumentais com muralhas de guitarras, aqui numa forma mais contida. É uma pena que duas das melhores canções do álbum, “Impermanence” (com um quê de U2) e “White Sands” estejam lá no final do álbum, talvez para redimir os “pecados” cometidos lá na trinca de abertura.

Como álbum de retorno, o que se percebe é que o Ride parece fora de forma, refletindo-se no resultado final: um álbum inconstante, diversificado no sentido não positivo da palavra. Um apanhado de boas ideias que rendem algumas canções interessantes e de ideias pouco inspiradas ou que precisavam de um trabalho mais apurado. A produção a cargo do DJ Erol Alkan parece não ter sido das escolhas mais acertadas, ainda que tenham se cercado de Alan Moulder, colaborador de longa data, para a parte de mixagem. “Weather Diaries” é um caleidoscópio de ideias que talvez precisasse de um tempo maior de maturação para que pudesse, quem sabe, chegar a um resultado mais palatável. Seus melhores momentos são aqueles que o Ride do presente dá uma olhadinha para o Ride do passado e o camufla com uma “linguagem” mais atual.

2 pensamentos sobre “RIDE – Weather Diaries (2017)

  1. Exatamente, e você citou em seu texto: quando eu escutei as primeiras canções desse disco, por ironia achei se tratar uma espécie de “Going Blank Again’ Parte 2. Considerei um disco mediano, com bons momentos e outros bem fracos que fazem você pular faixas, o que não me agrada sobretudo dentro da experiência e do nome que o Ride tem. Quem sabe um próximo eles não consertam algumas coisas? Outro texto muito bem, situando o leitor em épocas antigas da música, dando todo um embasamento pra gente seguir com vontade no texto. Parabéns.

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  2. Na minha resenha, os destaques foram “Home Is A Feeling”, “Cali” e “White Sands”… “Impermanence” é uma boa música, mas possui parece ser uma “White Sands II”! Destaquei também os vocais em uníssono (até interessantes) de Mark e Andy. Sobre “Cali” até destaquei: entrada com baixo em destaque (marcante), guitarras dedilhadas alternando com parede de guitarras dando profundidade e vocais em perfeito uníssono! É aquela velha história… O álbum comparado com o de certas bandas que copiaram o som do Ride, fica além. Mas dentro da carreira da própria banda, fica aquém!

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