CINEMA: O Lamento (The Wailing / Gokseong, 2016)

NOTA: 8,5

“Horror coreano dá novos ares ao estilo sem apelar para os sustos facéis”

O que primeiro chama a atenção em “O Lamento” é a sua longa duração para os padrões estabelecidos pelo cinema hollywoodiano, formatados geralmente em uma hora e quarenta minutos no máximo, aqui são duas horas e meia aproximadamente, o que já de início deixa clara a intenção do diretor em contar sua estória sem pressa, de forma que possa envolver o espectador com o ambiente em que a mesma se desenrola e desenvolver os personagens de forma que se possa criar empatia com os mesmos.

Esse é o terceiro longa do diretor coreano Hong-Jin Na, que também é o responsável pelo roteiro do filme. Com ele conseguiu abocanhar o prêmio de melhor diretor em festivais asiáticos. Logo não estranhem se de repente der as caras em alguma produção hollywoodiana, o que seria muito justo dada as qualidades que consegue apresentar nesse longa de horror.

Num pacato vilarejo no interior da Coréia uma série de chacinas brutais começam a quebrar a normalidade e atemorizar a população, o que coincide com a chegada de um japonês misterioso que vive isolado na floresta (Jun Kunimura). Com a polícia investigando o caso, entra em cena o atrapalhado e covarde policial Jong-goo (Do-won Kwak), que junto com seu parceiro serão responsáveis por algumas das cenas mais cômicas já vistas em filmes de terror. A cena da falta de energia e a em que é atacado por uma senhora cheia de queimaduras são impagáveis. Aí alguns poderão até pensar estar diante de um típico terrir, de algo na linha de “Fome Animal”, mas esse primeiro ato cômico ocupa apenas a primeira hora do filme, como se pretendesse deixar o espectador relaxado, ao tempo que aproxima o espectador dos personagens, pessoas simples e cheias de temores e fraquezas.

A medida que “O Lamento” avança o clima vai ficando mais denso com a atmosfera do vilarejo se tornando cada vez mais ameaçadora. O roteiro passa então a ir conduzindo por pistas falsas, mudando o foco propositadamente, de forma a desembocar num final não só surpreendente como também que deixa algumas perguntas sem resposta. O que de forma alguma subtrai a sua capacidade de envolver, ao ponto das duas horas e meia passarem sem que se dê conta. Essas perguntas sem resposta parecem propositais, obrigam o espectador a tentar montar o quebra-cabeça que o roteiro promoveu em sua meia hora final, onde nada é o que parece ser.

Há uma série de fatores que conspiram a favor do filme: a fotografia é exuberante, com longas tomadas em aberto da floresta que circunda o vilarejo, mas assustadora; as atuações dos personagens principais são convincentes; os diálogos e situações, mesmo as mais surreais e hilárias, não resvalam para os clichês que estamos habituados; e, o principal, as crenças, lendas e mitos orientais fogem do comumente mostrado no terror ocidental. O que para alguns pode causar certa estranheza, serve de elemento para criar um ambiente desconhecido, incomum. Como na cena do ritual praticada pelo xamã, que em outros filmes seria feita por um padre exorcista. Há certos exageros, como a quantidade de sangue espalhado nas cenas dos assassinatos, o que pode ser tomado como forma tornar mais impactante os crimes.

Quem espera algo na linha de filmes do estilo trilha sonora que se eleva para provocar sustos ou monstros sobrenaturais atacando pessoas, ou efeitos especiais esplendorosos irá se decepcionar – alguns chegaram a compará-lo ao filme “A Bruxa”, devido a forma como o horror se apresenta. O caminho seguido aqui é então mais do horror do que do terror, horror este que em grande parte do tempo está em suspensão, noutros apenas de forma psicológica, mas que sempre desemboca de forma avassaladora e cruel sobre os personagens, não fazendo concessão em momento algum, o que nos remete a, por exemplo, “Eden Lake”, apenas no que se refere ao final pessimista, já que “O Lamento” quase nada é mostrado, sendo muito mais sugerido.

*PS: Comenta-se que Ridley Scott pretende fazer um remake do filme, precisa?

3 pensamentos sobre “CINEMA: O Lamento (The Wailing / Gokseong, 2016)

  1. Aproveitei e assisti neste fds. Um filme que deixa muitas perguntas, e esse é um fator muito bom para o cinema atual, não deixar nada claro, sempre fazer o espectador questionar e ir dormir pensando naquilo. Eu só diminuiria um pouco o tempo do filme, sobretudo na primeira hora, cortaria algumas coisas. De qualquer forma, é o cinema coreano sempre surpreendendo e se tornando exemplo para o cansado cinema de terror.

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  2. Obrigado pelas palavras, Eduardo. Sobre o motivo de escrever, volto a repetir: gostar de música/cinema e gostar de escrever. Além do desejo de querer compartilhar algo que achamos interessante/relevante…ou não.

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  3. Muitos dizem que a gente escreve para o blog por orgulho, para dizer que entende sobre música ou cinema. Que nada. Penso que a verdadeira intenção de se fazer uma resenha sobre determinada produção artística tenha essa finalidade maior: instigar o leitor, fazê-lo ficar imaginando o que está por ser visto, isso, claro, sem o autor da resenha dar pistas lúcidas sobre o que se embute/esconde ali. E você fez isso muito bem, Luciano. Tanto que cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi colocar o filme para baixar. Ótima resenha.

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