SAINDO DO FORNO: Public Service Broadcasting – Every Valley (2017)

Em seu terceiro álbum o duo PSB, agora um trio, mais uma vez apresenta um conjunto de canções conceituais. No álbum anterior o tema era a corrida espacial, “Every Valley” centra na ascensão e declínio da indústria do carvão na Inglaterra, especificamente no País de Gales. Segundo J. Willgoose, a ideia veio enquanto finalizava “The Race for Scape” e quanto mais pensava a respeito mais interessado ficava. “Every Valley” marca uma guinada musical ao utilizarem instrumentos orgânicos de forma mais intensa, principalmente o trio baixo/guitarra/bateria, do que nos álbuns anteriores: “queremos fazer algo em um nível mais humano”; e também apresenta colaborações de outros artistas acrescentando vocais, juntando-se aos já famosos usos de samples de trechos de anúncios publicitários. Dentre os convidados a vocalista Tracyanne Campbell (Camera Obscura), James Dean Bradfield (Manic Street Preachers) e a atriz Lisa Jen Brown, esses dois últimos de origem galesa. Gravado em Ebbw Vale, também no País de Gales, “Every Valley” é um álbum rumos diversos e um tanto mais convencional, com direito a canções épicas, como na faixa título, guitarras distorcidas e bateria pesada quase se aproximando do post-rock (All Out) e até um pop-rock de tons mais convencionais (Turn no More) ou com elementos jazzísticos (You+Me).

:: DATA DE LANÇAMENTO: 07 de julho, pelo selo Play It Again Sam

:: FAIXAS:
01 – Every Valley
02 – The Pit
03 – People Will Always Need Coal
04 – Progress [ft. Tracyanne Campbell]
05 – Go To The Road
06 – All Out
07 – Turn No More [ft. James Dean Bradfield]
08 – They Gave Me A Lamp [ft. Haiku Salut]
09 – You + Me [ft. Lisa J€n Brown]
10 – Mother Of The Village
11 – Take Me Home

RIDE – Weather Diaries (2017)

NOTA: 7,0

“Apesar de irregular novo álbum após vinte e um anos aponta caminhos”

No final da década de 80 e início dos anos 90, enquanto nos EUA germinava a semente do que viria a ficar conhecido como grunge, na Inglaterra brotava o que posteriormente viria a ser rotulado de shoegaze. Se o grunge pegava as referências barulhentas das bandas de garagem, do hard rock e do punk, o shoegaze viajava tantos nas guitarras etéreas do Cocteau Twins quanto nas microfonias e reverberações do Jesus and Mary Chain, mas também bebia nas referências sessentistas de bandas psicodélicas e nas harmonias vocais e melodias dos Byrds.

“Nowhere” (1990), primeiro álbum do Ride é um dos melhores álbuns de estreia de uma banda e um dos pilares do shoegaze. Lá estão misturadas essas últimas referências citadas no parágrafo anterior, numa combinação perfeita entre melodias impactantes, barulho envolvente e bem condensado e um jogo vocal interessante entre Mark Gardener e Andy Bell. Alguns afirmam que o álbum de estreia dos ingleses acabou ofuscado pelo estrondo que foi “Nevermind”, do Nirvana, vindo a ter seu reconhecimento posteriormente. Após “Nowhere”, seguiram-se mais três álbuns, sendo “Going Blank Again” (1992) o mais consistente, já que para os álbuns seguintes a opção clara foi de direcionar sua música para algo mais próximo ao que estava fazendo o Oasis, que ia galgando os degraus do sucesso. Com isso o Ride ia perdendo ou mudando a sua identidade, construída a partir da sonoridade que emergia de seus dois primeiros álbuns, ao tempo que as divergências internas iam corroendo o relacionamento como banda até o derradeiro fim em 96.

“Weather Diaries” vem após mais de vinte anos desde o último álbum de estúdio “Carnival of Light” (1996). Nesse meio tempo tanto Mark quanto Andy estiveram envolvidos em diversas bandas, tanto como protagonistas quanto convidados. Andy chegando a tocar com o Oasis por anos e Mark fazendo parceria com Robin Guthrie. E a pergunta que se faz sempre que uma banda volta a ativa é: qual “banda” iremos encontrar nesse novo disco? Qual a desse Ride versão 2017?

Vamos abstrair. Vamos imaginar se pudéssemos entrar numa máquina do tempo e fazer o lançamento de “Weather Diaries” em 1994. Quão deslocado ele poderia soar se lançado dois anos depois de “Going Blank Again”? Sim, não existe o SE, todos sabemos, mas nada nos impede de fazer suposições, de criar cenários. E, sim, “Weather Diaries” poderia tranquilamente ser o terceiro disco do Ride, pois musicalmente está muito próximo de “Going Blank…”, basta checar o uso discreto de elementos eletrônicos em diversas faixas, começando pelo barulhinhos sintetizados de “Lannoy Point”, um dreampop de pegada melódica. A diversidade musical também é comparável, indo de momentos mais densos ao da busca de uma canção pop a ficar guardada na memória e ser assoviada de vez em quando. Mas é aí que a banda falha lindamente aqui, não há uma canção com uma melodia ou refrão marcante. E nesse quesito esse novo Ride deixa a desejar. A sequência das três primeiras faixas do álbum em nada ajudam, apesar das letras interessantes, musicalmente soam pouco inspiradas, menos até que muitas bandas imitadoras do próprio Ride. Inclusive os riffs de abertura de “Charm Assault” até assusta quem torceu o nariz para a fase “setentista” da banda, evidente em seus últimos álbuns.

Com o tom saudoso na letra de “Home is a Feeling” e o instrumental mais denso, “Weather Diaries” começa a tomar rumos diferentes, peca por ser uma canção curta mediante o que a ideia instrumental propõe. “Weather Diaries”, faixa título, remete aos contemporâneos do Slowdive no clima etéreo embalado por efeitos intensos de delay e baixo de linhas profundas. remete ao próprio Ride do início, que gostava de se perder em instrumentais com muralhas de guitarras, aqui numa forma mais contida. É uma pena que duas das melhores canções do álbum, “Impermanence” (com um quê de U2) e “White Sands” estejam lá no final do álbum, talvez para redimir os “pecados” cometidos lá na trinca de abertura.

Como álbum de retorno, o que se percebe é que o Ride parece fora de forma, refletindo-se no resultado final: um álbum inconstante, diversificado no sentido não positivo da palavra. Um apanhado de boas ideias que rendem algumas canções interessantes e de ideias pouco inspiradas ou que precisavam de um trabalho mais apurado. A produção a cargo do DJ Erol Alkan parece não ter sido das escolhas mais acertadas, ainda que tenham se cercado de Alan Moulder, colaborador de longa data, para a parte de mixagem. “Weather Diaries” é um caleidoscópio de ideias que talvez precisasse de um tempo maior de maturação para que pudesse, quem sabe, chegar a um resultado mais palatável. Seus melhores momentos são aqueles que o Ride do presente dá uma olhadinha para o Ride do passado e o camufla com uma “linguagem” mais atual.

OCEANO SONORO: microbunny | scapegoat

nome :: microbunny

membros :: al okada (instrumentos), tamara williamson (voz), rebecca campbell (voz – 2010)

atividade :: 2001-~

origem :: toronto, ca

álbuns :: microbunny (2001), dead stars (2004), 49 swans (2010)

hit ::
???

para quem gosta de :: trip-hop, massive attack, portishead, nu-jazz

:: soturno, elegante, noturno, intrigante, adjetivos que cabem perfeitamente na descrição da música desse projeto canadense encabeçado por al okada (fã de brian eno e david lynch) e que tem na voz aconchegante de tamara williamson (nos dois primeiros álbuns) um de seus pontos fortes. misturando elementos de jazz e de música eletrônica com ambientações orquestrais, o microbunny se aproxima tanto do trip-hop quanto do nu-jazz. seu primeiro álbum pode figurar tranquilamente nas listas de melhores álbuns de trip-hop já lançados e vale a conferida por qualquer um que se diz fã do gênero, esse é também o melhor álbum da banda e o denso.

REEDITANDO: THE AIRFIELDS – Up All Night (2008)

NOTA: 7,8



“Cheiro de naftalina em melodias assoviáveis”

Os delicados dedilhados harmoniosos de guitarra que abrem o début dos canadenses do Airfields são o prenúncio de que o grupo não abandonou a fórmula que vinha seguindo em seus lançamentos anteriores (singles e EP’s). Um conforto para os fãs de primeiro momento, que poderiam ter dúvidas quanto ao rumo que o grupo seguiria, já que em “Yr So Wonderful”, seu último single, a predominância era de canções mais aceleradas com guitarras distorcidas, em associação direta ao My Bloody Valentine e The Primitives. Por sinal, todas as canções desse single estão presentes no álbum.

Fácil de descrever, a música do Airfields parece querer capturar o clima de uma época e trazê-lo de volta para esses dias. Cheira a nostalgia, a naftalina. Remete diretamente à cena inglesa do final dos anos 80 e início dos 90. Engloba desde os dedilhados melodiosos do jangle-pop (“Prisoners of Love”, “Rocket Flare”), com a doçura do twee-pop e toques de Smiths (“Icing Sugar”, “The Long Way Home”, “St. Monday”) e mais a distorção com embrulho pop e vocais lânguidos (“I Never See You Smile”, “Yr So Wonderful” e “Love Tariffs”). Não estranhem portanto comparações com Bodines, The Sea Urchins, Primal Scream (fase “Sonic Flower Groove), Wedding Present, The Wake, Field Mice e outras tantas bandas da Sarah Records ou englobadas na Class of 86.

A releitura é fácil de gostar. Os rapazes não só fizeram o dever de casa direitinho como já se mostram capazes de ensinar a muitas outras bandas contemporâneas como se faz legítimas canções pop viciantes, com refrão ganchudo e melodias agradáveis já numa primeira audição. A fórmula funciona bem nas onze faixas, criando o túnel do tempo para uns vinte anos atrás.

Ao lado dos americanos do Math and The Phisics Club e dos brasileiros do Postal Blue, o Airfields é uma das bandas mais interessantes a explorar esse universo musical. Mais personalidade e ousadia, qualidades tão raras em 99% das bandas atuais, não fariam nenhum mal.

Melhores Momentos: “Prisoners of Love”, “Icing Sugar” e “Happy and Safe”.

PUBLICADO ORIGINALMENTE AQUI: http://www.muzplay.net/coluna/45459/the-airfields-up-all-night

REEDITANDO: EVANGELICALS – The Evening Descends (2008)

NOTA: 9,0

“Para quem segue a trilha do Flaming Lips e Mercury Rev vai se encontrar nos caminhos dos Evangelicals”

Os Evangelicals são de Norman, cidade de maioria protestante, localizada no estado de Oklahoma, que já deu ao mundo da música as bandas Chainsaw Kittens, Starlight Mints e Flaming Lips. Apesar disso, Josh Jones, vocalista e mentor da banda, comenta que a sombra musical a pairar por aquelas bandas é de artistas country como Garth Brooks e Toby Keith. Josh afirma que não há nada de ironia no nome da banda, e que é impossível escapar da religião em qualquer lugar nos Estados Unidos.

Em 2006 lançaram o elogiado “Gone”, onde já mostravam um futuro promissor. “Gone” foi todo composto por Josh, que canta e toca guitarra. Para as sessões em estúdio, ele convidou os amigos Austin Stephens (bateria) e Kyle Davis (baixo). Com essa formação fecharam com a Misra Records, que lançou o álbum na sugestiva data: 06/06/2006. Com essa formação a banda chega ao segundo disco, “The Evening Descend”, que cumpre o prometido em seu debut e assusta já com a capa.

A psicodelia anos 2000 que a banda apresentou em seu debut se espalha também aqui, mas de forma mais burilada, rendendo momentos do mais delicioso pop com elementos psicodélicos, numa trilha onde podemos encontrar vestígios do Flaming Lips e Mercury Rev. Sua música soa ao mesmo tempo atual (nos momentos mais convencionais) e retrô (quando a psicodelia aumenta).

Introduções que pouco ou nada tem a ver com o restante da música, mudanças repentinas de andamento, palmas, backing vocals engraçadinhos, sons de sirenes de ambulância, gargalhadas ensandecidas e outros samples diversos, elementos musicais inusitados que surgem e vão embora subitamente, até sons de brinquedo infantil e vocais carregados de eco. Tudo isso está espalhado em “The Evening Descends”. A experiência de ouvi-lo com fone acaba sendo bastante reveladora.

Mas tudo isso poderia não fazer sentido algum ou soar de maneira enfadonha não tivesse a banda a medida exata para dosá-los sem tornar saturado, ou não fossem músicos competentes o suficiente para construir canções com arranjos de bases sólidas, sendo esses elementos apenas o toque a mais. Porque tudo que encontramos na música do grupo já foi utilizado por outros, o que provoca espanto é justamente como eles conseguiram de certa forma “reinventar” essas ideias sem cair na mera imitação.

Um dos trunfos dos Evangelicals é sem dúvida o timbre de voz de Josh, perfeito para a sonoridade proposta pela banda, não esquecendo das doses de ousadia, loucura e variedade dos arranjos, que fazem de cada canção uma experiência diferente, mas não retira a unidade do disco como um todo, o que faz lembrar o Menomena. A produção corretíssima é também um dos pontos altos de “The Evening Descends”.

Destacar canções é difícil, mas a trinca que abre o álbum é indubitavelmente a força atrativa que arrasta para a religião dos Evangelicals e faz sentir vontade de lá permanecer, absorto ouvindo suas canções. No momento as favoritas são “How Do You Sleep” e a louca “Stoned Again”, onde Josh detona “You don’t know me, But you might see me out in severe weather warning, lighting matches, I’m not changing, you’re all freaky, I’m just singing”, ambas com pesos exatos de loucura e emoção. Mas a que pode conquistar muitos é mesmo “Skeleton Man”, aparentemente bem comportada, mas que do meio pro final se torna caótica, doida, perigosa.

Para quem, por causa do nome, pensou que a banda fizesse christian-rock, há que se tomar cuidado (não reparou na capa?), pois a música da banda de tão contagiante pode acabar desvirtuando do “caminho”. Caso isso aconteça, não há com o que se preocupar, a doutrina de Josh e sua turma é inofensiva. Além do mais, diante de álbuns assim, poucos conseguem resistir à sedução. Longe de ser evangélico, mas estou com os “Evangelicals”.

ORIGINALMENTE PUBLICADO AQUI: http://www.muzplay.net/coluna/68780/evangelicals-the-evening-descends

DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS – Sky’s Gone Out (1982)

DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS (PARTE 3)

O ano de 1982 foi muito bom para o Bauhaus: o show no Old Vic Theatre foi filmado e posteriormente lançado em VHS (em 1984) com o nome de ‘Shadow of Light’; fizeram uma “aparição” na cena de abertura do filme sobre vampiros ‘Hunger’ (Fome de Viver), com Catherine Deneuve e David Bowie, interpretando ‘Bela Lugosi’s Dead’; o single ‘Spirit’, primeiro a contar com um produtor (Hugh Jones), conseguiu uma boa recepção e rotação nas rádios, alcançando o 42º lugar nas paradas; junto a tudo isso, a versão de ‘Ziggy Stardust’ (maior êxito da banda), canção de David Bowie, rendeu lugar nas paradas e presença no programa de TV Top of the Pops, da BBC.

O irônico é que, se por um lado a banda chegava pela primeira vez ao popular programa da TV britânica, por outro era justamente com uma versão de uma canção de Bowie, que a banda tanto era acusada de imitar. Inclusive em uma entrevista para a Melody Maker, publicada em outubro de 1982, a banda respondendo porque fizeram o cover disse: “a ideia de fazer a versão de Ziggy Stardust foi parcialmente uma reação a pessoas que como você [no caso o jornalista Steve Sutherland], insiste em afirmar que somos uma imitação de Bowie”. Em outra entrevista, David J comenta novamente sobre a cover: “fizemos justamente o oposto do que os críticos esperavam”.

Com tantas coisas acontecendo, difícil seria imaginar (na época) que em 1983, cerca de um ano depois, aconteceria a separação do grupo. A “aparição” em ‘Fome de Viver’ é citada comumente como um dos motivos para isso, já que apenas Peter Murphy aparece no filme, em detrimento aos outros membros da banda, que teriam se sentido excluídos.

Voltando a 1982, o grupo parecia disposto a explicitar suas influências através de versões – já haviam feito ‘Telegram Sam’ (Marc Bolan). Além da já citada ‘Ziggy Stardust’ (Bowie), fazem uma versão para ‘Third Uncle’ (Brian Eno), ambas registradas em apresentação na BBC. Essas versões são lançadas no single “Ziggy Stardust”, que contempla uma versão ao vivo de 1981 para “Waiting for the Man” (Velvet Undergground), com Nico nos vocais.

‘Third Uncle’ viria a ser a faixa que abre, de forma inusitada, ‘Sky’s Gone Out’, terceiro álbum do Bauhaus, lançado em outubro de 1982. Embora não seja considerado o melhor álbum da banda, com ele alcançam a melhor posição nas paradas ao longo de toda a carreira, emplacando um 4º lugar na parada inglesa. A versão do Bauhaus mantem a pegada energética da original, mas soa mais garageira que a de Eno, com guitarras cortantes, efeitos de flanger e às vezes microfonia. Uma releitura bem próxima da original e com o toque da banda por conta de Peter Murphy.

No álbum, mais uma vez a banda apresenta diversidade de ideias, não tão inspiradas como em álbuns anteriores, mas ainda assim conseguindo manter a aura de antes e emplacando canções emblemáticas.

A versão para “Spirit” é menos interessante e mais estranha que a que já havia saído em single alguns meses antes, soando excessivamente produzida. Cabe uma observação: a banda não havia ficado satisfeita com a versão que havia saído no single, produzida por Hugh Jones, apesar do alcance que ela conseguiu. “Não gostamos de fazer single”, foi a resposta da banda em um entrevista. “Spirit” tem letra de David J e evidentemente fala do espírito de alguém que se foi, provavelmente um(a) artista, de uma forma um tanto romântica: “Esta noite eu poderia estar com você ou esperar nos bastidores, elevar seu coração com uma canção esvoaçante, cortar as cordas dos fantoches”, finalizando com os versos que se tornaram “famosos”: “We love the audience”, cantado em uníssono por todos os membros da banda, inclusive em apresentações ao vivo. A levada tem um quê de música cigana.

‘In the Night’, outra das faixas interessantes de ‘Sky’s Gone Out’, soa uma tentativa de reencontrar o Bauhaus de batidas tribais de ‘Double Dare’, quase como uma continuação daquela com seus riffs rasgantes de guitarra e efeitos diversos.

Sobressaem-se no disco as canções de tom mais acústico como ‘Silent Hedges’, que Murphy fala de “ir ao inferno novamente”, e ‘All We Ever Wanted’, que traz uma ponta de decepção em sua letra: “Tudo o que sempre quisemos foi tudo, tudo que sempre conseguimos foi o frio”. ‘The Three Shadows’, dividida em três partes, soa um tanto exagerada e bem estranha, sendo a parte dois a mais interessante, embora as duas partes cantadas possuam letra com versos enigmáticos e surreais. ‘The Three Shadows II’ também pende para o acústico; com base repetitiva permite a Peter Murphy exercitar sua voz grave sobre sons de pianos martelantes e efeitos de vento soprando.

O álbum teve uma edição limitada que continha o ao vivo, “Press the Eject and Give Me the Tape”, que, segundo consta, teria sido a frase dita pelo segurança a um espectador que havia gravado o show em uma fita K7. Na capa, mais uma vez, uma ilustração feita pelo guitarrista Daniel Ash, que se assemelha a um eclipse.

THURSTON MOORE – Rock’n’Roll Consciousness (2017)

NOTA: 7,5

“Segundo álbum solo pós-Sonic Youth reforça o ditado que leva anos para se afastar do que já fez, principalmente quando fez por tanto tempo”

O timbre das guitarras que abre “Rock’n’Roll Consciousness” é inconfundível, por anos foi marca registrada da ex-banda de Thurston Moore, o Sonic Youth. Poderia vir alguma microfonia ou um inferninho noise característico no ato pós melodia, mas segue-se um solo envenenado em fuzz, algo inimaginável em uma canção do SY. Estamos falando da longa “Exalted”, que se por um lado carrega muito da aura dos trabalhos de outrora, inclusive na estrutura do arranjo multifacetado, também quer ter cara própria, quer ser uma música de Moore enquanto artista solo.

Diferente do álbum anterior, aqui o guitarrista admite que buscou fazer um trabalho mais de banda, com isso deu liberdade aos músicos que o acompanham para que tivessem papel menos “secundário” nas canções. Assim James Sedwards (guitarra) e Debbie Googe (baixo) mostram personalidade em suas funções, acrescentam novos ingredientes às ideias de Moore. Ainda que Steve Shelley, que também era parceiro no Sonic Youth, seja um elemento na equação que acaba não mudando muito a conversa, mas até sua pegada ruma por lados diferentes ao acompanhar o baixo de Debbie, como se percebe na levada marcial de “Cusp”, a faixa com estrutura mais direta de todo álbum, quiçá da carreira do guitarrista.

“Rock’n’Roll Consciousness” segue uma mescla entre melodia e momentos de guitarras explosivas, uma explosão controlada que já tinha se tornado característica nos álbuns do SY pós “Dirty”. Muito dessa dicotomia perpassa quase todas as poucas canções do álbum, tendo seu lado mais experimental em “Aphrodite. O que quebra essa verve que remeteria de forma direta a um total requentado de coisas antigas é justamente a liberdade que Sedwards tem para adicionar timbres diversos daqueles tão comuns na história de Moore, e o faz tanto em “Exalted” quanto em “Turn On”, essa última por sinal com uma sequência melódica que muito lembra um trecho da música “Na Baixa do Sapateiro”. Enquanto o solo em “Smoke of Dreams” traz à canção um quê de Dinosaur Jr., devido tanto à progressão de acordes quanto ao efeito utilizado.

Questionado sobre o título do álbum, Moore afirmou que ao avaliar a sua vida e buscar algo que sempre a esteve direcionando, a conclusão foi de que a música tem sido esse elemento, o rock especificamente, por isso uma “consciência rock’n’roll”. As ideias musicais presente no aqui deixam bem claras as intenções de fazer um álbum rock, um álbum de guitarras, que mesmo resvalando muito em momentos do passado busca apontar para o futuro, ainda que tenha que regredir a raízes de um passado mais remoto ainda, ao exaltar referências do rock de garagem setentista de forma mais explícita.

ARCADE FIRE – Everything Now

“Everything Now” é o nome do quinto álbum dos canadenses do Arcade Fire, a sair no dia 28/07. O álbum que tem produção de Thomas Bangalter (Daft Punk) e Steve Mackey, foi gravado no Boombox Studios, Sonovox Studios e Gang Recording Studio.

“Everything Now” é também o nome de uma das faixas/single que fará parte do novo disco, com a banda soltando um clip para a mesma Essa nova faixa sucede “I Give You Power”, lançada na véspera da posse de Donald Trump.

Esse novo álbum vem depois de um período de quatro anos desde o lançamento de “Reflektor” (2013) e até o momento tem mostrado a banda seguindo por caminhos mais pop e até dançante.

Abaixo o clip de “Everything Now”.

KRAFTWERK – Pop Art (2015)

“Pop art ou Arte pop é um movimento artístico surgido na década de 1950 na Inglaterra, mas que alcançou sua maturidade na década de 1960 nos Estados Unidos.” (Wikipedia)

Pelo tempo de duração de Pop Art, documentário sobre o grupo alemão Kraftwerk produzido pela BBC inglesa e dirigido por Hannes Rossacher e Simon Witter, dá pra antever que muita coisa ficará por ser abordada na produção.

O próprio histórico da banda, as saídas de integrantes, o estúdio Kling Klang, tudo isso já tomaria um grande espaço e, apesar da discografia relativamente pequena em relação a sua trajetória, os álbuns do Kraftwerk são pequenos compêndios musicais que requerem sempre uma análise aprofundada, o que o documentário não pretende evidentemente.

“Pop Art” opta por focar em aspectos pontuais, um deles a importância e influência da música do combo alemão nas artes, musicais ou não, como no surgimento ou renovação de gêneros musicais diversos, incluindo aí o hip-hop, o techno e a dance music. Com uma ligeira incursão pelo rock, mostrando, por exemplo, como o Coldplay transformou a melodia de “Computer World” no riff guia para a faixa “Talk”.

Mas é principalmente na influência que a música “fria e dura”, e de batidas precisas, dos alemães acabou por exercer do outro lado do mundo que o documentário vai focar variados momentos, na música dançante feita dos EUA na dobradinha fim dos 70/início dos 80.

Segue-se um apanhado de artistas que começaram a utilizar as batidas eletrônicas oriundas daquela “fria” banda alemã em suas músicas que seriam sucesso nas boates americanas, seja via remixes de François Kevorkian ou a surrupiada de “Trans Europe Express” e “Numbers” pelo Afrika Bambaata.

Da tempo para contar um pouco da história da banda dentro do cenário musical alemão, mostrando desde o seu surgimento, com trechos interessantes de suas primeiras apresentações. Trechos de uma preciosa entrevista com Ralf Hütter em 1981 (que saiu originalmente num documentário da mesma época), fundador e único membro remanescente da formação inicial.

Outra preciosidade são os trechos da apresentação conjunta para a TV com o Can, outra importante banda do que se convencionou chamar de krautrock, termo usado para designar as bandas alemãs surgidas na época; e comentários do baixista Holger Czukay. Esses trechos seriam bem mais preciosos se desde 2014 já não estivesse disponível no Youtube o vídeo com a apresentação completa.

Como não poderia deixar de ser, um apanhado de entrevistas com artistas e jornalistas fazendo suas análises a respeito da “usina de força”, tradução da o nome da banda: Paul Morley (jornalista musical), Francois Kevorkian (DJ), Peter Boettcher (fotógrafo da banda), dentre outros.

Para os fãs não deixa de ser um deleite, ainda que historicamente muita coisa fique de fora: as saídas de Florian Schneider e Karl Bartos, dois dos principais membros do grupo; álbuns fundamentais como “Radioactivity” e “Man Machine”, por exemplo, quase não são citados ou de forma rápida, bem como os primeiros Kraftwerk e Kraftwerk 2 ; o seu estúdio Kling Klang e a participação no grupo Organisation.

Tivesse sido produzido no Brasil, “Pop Art” falaria também da influência das batidas dos alemães no funk e hip hop carioca, seja de forma direta ou através de seus copiadores/influenciados.

+ PS: Para quem deseja um documentário mais abrangente sobre o Kraftwerk, recomendo ‘Kraftwerk and the Electronic Revolution’, documentário de 2008 com quase três horas de duração. Esse documentário pode ser encontrado no Youtube, dividido em dez partes, só não tem legendas.

POST WAR GLAMOUR GIRLS – Swan Songs (2017)

NOTA: 7,8

“Presente, passado e futuro coexistem simultaneamente no novo álbum do quarteto de Leeds”

Post War Glamour Girls é uma banda de Leeds (UK) e ‘Swan Songs’ é seu terceiro álbum num período de pouco menos de quatro anos. Em2014 lançaram o surpreendente ‘Pink Fur’, ‘Feeling Strange’ em 2015, dois bons álbuns que podem agradar tanto fãs de música pós-punk “old school” quanto aos chegados às releituras feitas por bandas contemporâneas.

Apesar disso, parcas são as informações a respeito do quarteto. Faça lá uma busca no Wikipedia e sinta-se entre frustrado e abismado em não encontrar qualquer informação a respeito deles. No máximo uma referência ao seu nome, retirado do título de um poema de John Cooper Clarke, detalhe largamente conhecido pelos mais chegados.

Para a gravação de ‘Swan Songs’ resolveram experimentar, isolaram-se num estúdio localizado num local remoto da Escócia, mantendo-se afastado de tudo que pudesse tirar o foco do processo de composição/gravação, conforme palavras da própria banda.

Gravado em apenas duas semanas, ‘Swan Songs’ pode ser resumido como uma incursão refrescante pelo universo musical do PWGG sem grande distanciamento de seu passado.

Novas canções, novos arranjos, mas com raízes mantidas: o lado teatral das interpretações vocais, as guitarras de timbres banhados em reverb e o baixo buscando se aparecer mais que tudo. Mas é a voz grave de James Smith que dá o tom da música do grupo. As subidas e descidas vocais de Smith, às vezes quase ensandecendo, são acompanhadas por um instrumental que pode descambar para avalanches sonoras, como na longa “Divine Decline”, faixa que fecha o álbum, ou momentos mais tranquilos e melódicos como em ‘Golden Time’ (recheada com um cortante arranjo de cordas) e ‘Sea of Rains’.

Quem tem obsessão por analisar a forma como as bandas distribuem as canções pelo álbum, dirá que aqui a banda pecou grandemente em começar com a poderosa ‘Guiding Light’ já no e na sequência emendar “Chipper” (bons resquícios de Pixies) outra canção mais “pesada”, levando a falsas suposições de que o álbum tomaria um caminho mais pesado, pois a sequência é de canções mais soturnas como a bela “Gull Rips a Worm to Rags”, com lembranças evidentes de Nick Cave.

Dentre as canções que apontam a música do PWGG para um direção que pode ser seguida em álbuns futuros, com riffs intensos de guitarra e baixão contundente, há “Pollyanna Cowgirl” e “Welfare by Prozac”. Embora quaisquer caminhos se mostrem possíveis para o quarteto, vez que são daquelas bandas inquietas que não parecem se contentar com a linearidade, ainda que esse seja seu disco mais linear, por contraditório que pareça.

Abaixo, o clip de “Organ Donor”, faixa curtinha e que foi a primeira a dar um aperitivo do que seria “Swan Songs”. Segundo James Smith, a letra é inspirada no experimento científico de Milgram, sobre o comportamento das pessoas em obedecer autoridades.

ESSE EU TINHA EM VINIL: The Wedding Present – Bizarro (1989)

bizarro

“Quanto mais barulhento melhor”

As guitarras barulhentas do Sonic Youth, JAMC e MBV já haviam preparado meus tímpanos adequadamente para todo e qualquer tipo de barulho que viesse a seguir, então o “encontro” com a banda de Leeds aconteceu de forma tranquila, gerando paixão à primeira vista, mesmo tendo seu cartão de visita o nome de “Bizarro”.

E “Bizarro”, como tantos outros discos que vieram a se acomodar na minha pequena e saudosa coleção de vinis, apareceu também na Muzak.

Capa verde com uma mancha laranja e o nome da banda, nada mais. Para quem estava acostumado a capas como as dos Smiths ou Echo and the Bunnymen, não deixava de ser intrigante aquela capa daquela até então desconhecida banda. Não tão desconhecida por ter aparecido de forma discreta num pequeno texto da Bizz, onde faziam comparações aos Smiths. Comparações essas que até hoje não consigo encontrar muito sentido, embora se referissem mais às letras de David Gedge do que ao som.

Então, disco na mão e lá vamos nós checar qual é a desse povo.

E a desse povo nesse álbum era progressão de acordes rápidos, bateria acelerada, riffs rasgantes e distorções que vez ou outra se avolumavam, foi o que saltou em cima de mim em meu primeiríssimo contato com o The Wedding Present. Um vocalista com vocal grave e, embaixo do barulho controlado, um senso melódico cortante e certa melancolia juvenil. Não tinha como não agradar. Entraram diretamente no meu top de bandas barulhentas do coração, o que alguns chamavam na época de guitar bands.

“Bizarro” é um disco perfeito. Quase cinquenta minutos distribuídos em canções de formatos pop diversos. Nas canções curtas e diretas de pouco mais de dois minutos a la Ramones. Ou nas mais longas e que desembocavam num inferninho noise dos bons, vide as avassaladoras “Bewitched” e Take Me!”.

Não há faixas a serem puladas, o disco segue numa levada em que os BPM’s pouco variam de faixa pra faixa, os elementos se repetem e, apesar disso, cada faixa apresenta uma feição própria, cada uma tem seu barulho proprio. Talvez muito do que se ouve em termos de barulho pode ser atribuído à produção de Steve Albini (que já havia produzido os Pixies), já que na discografia da banda não encontramos um outro álbum com sonoridade parecida, com essas guitarras alucinadamente abrasivas.

Encontrei “Bizarro” em CD muitos anos depois, perdido numa loja da capital, numa promoção de dez reais. Dei um grito de alegria em vê-lo lá, agora com uma capa alaranjada, não tão bonita quanto a do vinil, mas com aquelas canções que tantas tardes da década de noventa me acompanharam, E, detalhe, o CD traz faixas bônus. Que sorte a minha, o destino mais uma vez me colocou diante de algo que me deixou feliz e que até hoje me faz sorrir com as lembranças que esse disco traz.

Preferidas de sempre: Brassneck, No, Kennedy (um petardo!) e Take me!.

ESSE EU TINHA EM VINIL: The Band of Holy Joy – Manic, Magic, Majestic (1989)

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“A vida e sua montanha russa de sentimentos”

Até aqui tenho comentado sobre discos que foram uma espécie de pilar na minha formação musical, muitos deles reconhecidamente influentes na vida de muitas outras pessoas e na história da música.

Mas nem só de standards era feita minha pequena discografia. Entre eles, lá estavam diversos álbuns e bandas pouquíssimo conhecidas e comentadas, mas que acabaram se tornando parte da minha história de vida e se tornando muito queridos.

Dentre esses, destaco este “Manic, Magic Majestic” da The Band of Holy Joy, cujas informações eram pouquíssimas ou nenhuma na época que comprei. Hoje estou informado que a banda surgiu em Londres e que esse é o seu oitavo álbum, numa carreira iniciada nos primeiros anos da década de 80.

Como minha “carreira” de comprador de discos e pesquisador de novas bandas passou por fases diversas, não tenho como ser exato sobre que tipo de som estava ouvindo na época que comprei o disco, afinal sua sonoridade foge completamente aos padrões musicais que costumava escutar na época, muito provavelmente bandas pós punk inglesas ou com guitarras barulhentas.

A música que sai do disco é recheada de elementos folclóricos e certo ar circense. Não há guitarras distorcidas. Não há baixos densos. Não há baterias tribais. Os elementos clássicos do chamado rock’n’roll, não são os elementos básicos, mas metais, cordas, pianos e até xilofone, em arranjos bem construídos que compõem canções muitas vezes repletas de saudade como nas inesquecíveis “Tactiless”, “Manic Magic, Majestic”, “What the Moon Saw” e “Blessed Boy”.

Era um dos discos que ouvia quando queria “refrescar” minha mente de guitarras barulhentas ou canções densas. Um disco que aprendi a gostar e descobrir sua beleza.

Lembro que comprei a um preço mais baixo que o normal porque a primeira faixa estava arranhada e provocava um chiado a partir de determinado momento, algo que inicialmente não me incomodou, mas que com o tempo começou a me deixar chateado, pois comecei a gostar do disco a tal ponto que pensava ser uma injustiça que num disco de tantas qualidades houvesse acontecido algo tão “cruel”.

Ouvindo-o hoje em dia, percebo que o mesmo pouco envelheceu e que algumas de suas canções poderiam facilmente estar tocando nas rádios e muitas pessoas pensariam ser um disco lançado recentemente.

Não o tenho em CD, fiz algumas pesquisas e percebi que até no EBAY é difícil de encontrá-lo. Esse é mais um da minha lista a ser recuperado. Não faz parte das listas de discos clássicos da música, mas faz da lista da minha vida.

NIGHT MOVES – Pennied Days (2016)

NOTA: 8,0

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“Canções pop certeiras que servem como bálsamo para dias turbulentos”

Há dias em que você acorda e não quer saber de canções barulhentas, tampouco de canções melancólicas. Você quer uma canção que te atinja em cheio o corpo e a alma, como um convite para dançar.

Nessas horas, você vai zapeando por um sem nome de artistas conhecidos e desconhecidos e parece que nenhum conseguirá “salvar o seu dia”. Você quer fugir de sua zona de conforto, daqueles álbuns já conhecidos e que sabe que ainda conseguem esse efeito mágico. Você quer algo novo, que nunca tenha escutado, mas que lhe traga uma melodia que permaneça rodopiando em sua cabeça durante o dia, que faça você sentir uma certa ansiedade para poder ouvir novamente, ou uma certa cautela para não ouvir demais e acabar ficando saturado.

Algumas pessoas lhe dirão que você vive sonhando e que já não é possível encontrar músicas assim, pois tudo que tinha a ser feito na música já foi feito. Mas você não quer algo “novo”, original, que seja a oitava maravilha do mundo. Você não quer um novo Surfer Rosa (Pixies), ou Violator (Depeche Mode) ou Psychocandy (Jesus and Mary Chain) ou The Queen is Dead (The Smiths), ou qualquer outro álbum grandioso na história da música pop, você só quer o sopro refrescante de uma brisa suave a tocar sua face.

Aí você encontra “Pennied Days”, do duo Night Moves, e sua busca chega ao fim momentaneamente, até o comichao voltar a acontecer. Enquanto isso, você vai se esbaldando com “Carl Sagan” e as outras oito canções que compôem essa gema pop a ser descoberta por uma multidão àvida por “novas novidades”.

MINOR VICTORIES – Minor Victories (2016)

NOTA: 9.0

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“Projeto com nomes conhecidos da cena musical inglesa sai vitorioso em seu álbum de estreia”

Slowdive, Mogwai e Editors. Essas três palavras ou esses três nomes de banda juntos poderia sugerir um show ou uma coletânea se não soubéssemos já de algum tempo tratar-se do projeto Minor Victories, nova empreitada de Rachel Goswell (Slowdive), Stuart Braithwaite (Mogwai), Justin Lockey (Editors) e seu irmão James Lockey, cuja banda Hand Held Cine Club é a incógnita dessa equação.

Surgido de uma ideia inicial que pretendia lançar apenas um EP e tendo apenas Rachel e Justin, o Minor Victories rapidamente cresceu em componentes e ideias, essa “frutificação” rendeu tanto que deu origem ao álbum homônimo.

A soma de partes diversas resulta num disco que acaba não se aproximando tanto de nenhuma das bandas originais de seus membros, talvez um pouco mais do Mogwai dos dias atuais, por causa do uso massivo de sintetizadores e batidas secas de bateria.

O som que irrompe dos auto-falantes não permite também aproximações imediatas com quaisquer bandas da atualidade, talvez com o álbum lançado por Anohni, por também tangenciar o rock em seus elementos convencionais.

A música executada pelo grupo trabalha com nuances diversas, que adquirem tonalidades únicas, graças à voz charmosa de Rachel, que em geral paira etérea sobre um instrumental às vezes épico.

“Give Up The Ghost” tem assombrosos teclados densos, sintetizadores saturados e bateria espancada com vontade (lembrando algo do The Twilight Sad), mas tem a sutileza dos vocais delicados. A pegada é de um rockão, só que com elementos de música eletrônica.

Embora sejam esses os alicerces que suportam a maior parte do repertório construído pelo Minor Victories, elementos clássicos, representados de forma elegante por sons orquestrados e melodias ao piano, se fazem presentes em algumas canções. Estão lá dando dramaticidade em “A Hundred Ropes” ou um clima de tensão “Breaking my Light”.

A sensação de tensão, por sinal, seguirá ao longo de todo o disco, representando parte dos elementos muito explorados na música próprio Mogwai.

As presenças de Mark Kozelek (Sun KIl Moon) em “For You Always”, e de James Graham (The Twilight Sad) em “Scatered Ashes”, embora com bastante predominância vocal, não apaga ou diminui uma da forças maiores que fazem funcionar a música do grupo, os vocais encantadores de Rachel, a parte frágil da construção musical do grupo. Fragilidade quase cristalina nos momentos etéreos de “Folk Arp”.

“Minor Victories”, o álbum, encanta porque cada faixa tem seu próprio brilho, como um punhado de bons singles reunidos para formar um ótimo álbum. “Cogs” talvez seja o momento de menor atração, mas “Out to Sea” e “Higher Hopes” reservam momentos de apurado senso de construção de arranjos inteligentes, essa última com direito a uma profusão de barulhos épicos que prenunciam um final.

No resumo simples e direto, um dos melhores álbuns de 2016.

LUSH – Blind Spot EP (2016)

NOTA: 7,0

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“Lush sendo Lush em seu novo EP após vinte anos na sombra”

Os últimos anos viram a volta à ativa de diversos expoentes de uma “cena” noventista que ficou conhecida pelo famigerado nome de shoegaze (observadores de sapato) ou “the scene that celebrates itself” ( a cena que se celebra). Termos que musicalmente não dão ideia de absolutamente nada, mas que acabou servindo para rotular bandas que mantinham uma postura no palco de cabeça baixa, olhando para para os pés (shoegaze), embora estivessem concentrados em seus instrumentos ou apenas inseguros. Somado a isso, havia o costume de frequentarem uns os shows dos outros (a cena que se celebra).

Musicalmente as propostas nem sempre se aproximavam. Lá estavam colocadas bandas como My Bloody Valentine, Ride, Slowdive, Chapterhouse, Pale Saints, Swervedriver, dentre outras. Lá estava também o Lush. O elemento que unia quase todas (mas não todas) essas propostas era uma gravadora em comum (Creation Records) ou o fato serem influenciados pelas (quase) mesmas bandas.

Excetuando-se o Pale Saints, todos os citados voltaram à ativa. Swervedriver e MBV lançaram bons discos, Ride e Slowdive prometem soltar o seu brevemente. Mas o Lush foi a banda que mais rapidamente conseguiu botar na rua seu novo rebento, considerando a volta e o lançamento do disco.

Para quem está em dia com a história discográfica da banda de Miki Berenyi , sabe que seus primeiros álbuns jogavam no time de guitarras etéreas a la Cocteau Twins e vocais frágeis, rezando na cartilha do dream-pop. No percurso, deram uma guinada e levaram sua música para um indie-pop com muitos elementos das alternative bands americanas. Isso já em seus últimos discos.

Passados vinte anos desde seu último lançamento, e chegamos a “Bind Spot” (4AD), simpático EP de retorno com quatro faixas.

“Out of Control” é a melhor faixa. Foi a primeira a ser veiculada, rememora os melhores momentos da banda na fase “Spooky”, para muitos admiradores, o melhor disco deles. Canção de levadinha acústica com guitarras climáticas em chorus e teclados etéreos ao redor. A voz de Berenyi com efeito de duplicação dando o clima de leveza etérea. Esses elementos também estão presentes na co-irmã “Lost Boy”.

A música do Lush nunca foi exaltada pela sua complexidade, ao contrário muitas vezes foi destratada devido à simplicidade. E essa simplicidade se mantém. São arranjos de poucos e melodiosos acordes, são canções diretas e com poucas variações.

Em “Burnham Beeches” há uma aproximação maior para o Lush de sua segunda fase. Canção com levadinha inofensiva e melodia ensolarada, acréscimo de instrumentos de sopro pra dar uma diversificada no arranjo. Um climazinho que lembra “Love Vigilants” do New Order.

Fecham com “Rosebud”, onde a opção é por compor uma quase balada acústica cheia de climas. Mostra um lado também conhecido da banda, com um frescor renovado, é bem verdade.

Para uma banda que levou tanto tempo longe, lançar um EP tem suas vantagens, uma delas é poder finalizar mais rapidamente o trabalho, a outra é poder testar a receptividade do público. Há também a possibilidade de apresentar nos shows não apenas coisas do passado, dando assim um frescor ao setlist.

A opção então é acertada, mais acertada ainda porque as novas canções em nada comprometem o que a banda já havia feito antes, ao contrário, acaba até acrescentando. E por não haver tantas expectativas em cima, “Blind Spot” acaba sendo uma boa surpresa.

BLOODY KNIVES – I Will Cut Your Heart Out For This (2016)

NOTA: 7,8

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“Tímpanos à prova nesse novo petardo do Bloody Knives”

Desde que o Jesus and Mary Chain lançou seu angular “Psychocandy”, sendo seguidos poucos anos depois pelo My Bloody Valentine com o seu seminal “Loveless”, que o uso do barulho na música pop passou a ser algo “comum”.

De lá pra cá vários foram os ajuntamentos que contribuíram para o alargamento das fronteiras do noise, em muitos casos levando-o ou elevando-o a níveis absurdamente desorientadores. Como sugestão, dois nomes bem representativos dessa escola do barulho: Astrobrite e Cosmicdust.

Os texanos do Bloody Knives em seu “I Will Cut Your Heart Out For This” (Saint Marie Records) não querem ficar atrás de ninguém no quesito. Em seu novo álbum põem em ação seu maçarico sonoro movido a muita distorção de guitarras envenenadas com fuzz e vocais débeis em contraponto. Juntam-se a contemporâneos como Spectres, 93Millionsmilesfromthesun, A Place to Bury Strangers e Nothing, nessa extrapolação de guitarras saturadas, baixos trovejantes e batidas carregadas de peso.

A música é asfixiante, põe a respiração em suspenso. O golpe já pode ser sentido no trem desgovernado chamado “Cystic”, um tijolo ensurdecedor de menos de três minutos, mas que pode chacoalhar o cérebro por outros trinta. E o álbum, como não poderia deixar de ser, é curto, com pouco mais de trinta minutos. E segue carregado de intensidade por suas oito canções, inclusive na instrumental “Poison Intro”, com o que parecem ser teclado passando por efeitos distorcidos.

“Reflection Lies” e “Black Hole” são as faixas que se destacam. A primeira, um turbilhão de barulho “controlado”, subjugada por um vocal que tenta não se afogar. A segunda, a faixa mais longa do disco, pelo seu lado mais espacial que vai mudando, ganhando um baixo distorcido, acelerando até terminar em riffs desvairados e uma outra guitarra que mais parece o ronco de um motor de Formula 1.

Para quem resolver se aventurar nesse universo, que fique claro, a cartilha do Bloody Knives é simples e direta: o silêncio é profano, e o barulho a salvação, mas também pode ser o contrário.

OU NÃO?: Your Friend

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Com seu álbum “Gumption” o projeto Your Friend será a banda de 2016, ou não?

Por detrás do nome Your Friend está a vocalista/guitarrista Taryn Miller. Primeiramente lançou em 2014, de forma independente, o autoproduzido EP “Jekyll/Hyde”, que chamou a atenção da Domino Recordings, que resolveu relançá-lo. Um pulo de dois anos e cá está essa garota do Texas com seu primeiro álbum, “Gumption”. Ajudada pelo produtor Nicolas Vernhes (que já trabalhou com nomes como The War on Drugs, Deerhunter, Wild Nothing, Animal Collective, dentre outros), Miller desconstrói sua música de aceno folk com camadas de samples, sintetizadores e outros brinquedinhos eletrônicos, saindo-se com uma música que empurra para paragens etéreas. Sustentadas por batidas monorrítmicas e vocais que ecoam como numa imensa catedral, as canções ganham arranjos que quase sobrepõem por completo o lado acústico da música do Your Friend. “Gumption” é um amálgama de elementos que se avolumam no e se revezam, aposta da repetição. Em certos momentos, remeterá aos últimos trabalhos do Radiohead ou ao Beach House quando os contornos se tornam mais sonhadores, como na onírica “Come Back From It”. Em relação à frase inicial que costuma abrir os textos dessa coluna, exageros à parte, “Gumption” é um álbum de qualidades recônditas, precisa ser descoberto, precisa ser escutado, e quem sabe ela não se torne realidade?

PREFERIDAS: “Heathering” e “Come Back From It”.

RICHARD ASHCROFT – These People (2016)

NOTA: 7,5

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“Ashcroft volta à boa forma num álbum diversificado e de canções pungentes”

Os últimos dias tem assistido o ressurgir discográfico de várias bandas que de alguma forma foram ícones na música pop inglesa: Lush, Travis, Stone Roses, Radiohead. Richard Ashcroft, uma das vozes mais emblemáticas do brit-pop – seja com o The Verve ou em carreira solo -, também dá seu ar da graça com “These People” (Cooking Vinyl, 20/05/2016).

Ashcroft “ressurgiu” para o mundo inteiro com um novo visual no clip da ótima “This Is How It Feels”, primeiro single do álbum. Focado exclusivamente em sua imagem, o clip mostra o vocalista com um visual bem diferente do que estávamos acostumados, de cabelos curtíssimos e com uma aparência mais “solta”. Por seu lado, a música entrega uma espécie de retomada daqueles elementos orquestrados responsáveis por muito da beleza de “Alone with Everybody” (seu primeiro álbum solo) e, principalmente, “Urban Hymns”, álbum mais aclamado de sua ex-banda, o The Verve.

Num segundo momento apresenta o clip da faixa “Hold On”, visualmente idêntico ao anterior, enquanto musicalmente as coisas mudam com as batidas eletrônicas dançantes, mas ainda carregando os mesmo elementos orquestrados, só que com uma ênfase diferente.

Com essas duas faixas, Ashcroft acendeu as faíscas para acenderem o fogo da expectativa por seu mais novo álbum, “These People”, que o vocalista descreve assim: “some personal and world events [taking] a dark turn leading to a sense of urgency and a clearing of the mind”.

No lado pessoal, a luta contra a depressão e o peso da perda de pessoas próximas que incluem a do seu empresário Jazz Summers, o que fez com que o hiato entre os álbuns fosse tão grande: “não queria lançar um novo álbum enquanto ele estava morrendo, estive muito próximo dele até o último instante”, explica.

Casado e com dois filhos, Ashcroft hoje com quarenta e quatro anos, não se desvincula do passado, sugere querer olhá-lo de uma forma diferente e mirando o futuro. Os elementos electro-pop de “Out of My Body” (onde há uma interessante mistura de eletrônico e acústico) e “Hold On”, mostram uma faceta não tão nova em sua carreira, já tinha flertado timidamente no álbum anterior, o incompreendido e guitarreiro “The United Nations of Sound”.
Embora tenha experimentado esse lado de maneira mais contundente em suas colaborações com o projeto UNKLE e com os Chemical Brothers. Já a presença do produtor Hal Malone, responsável pelos elementos orquestrados de “The Urban Hymns” e “Alone With Everybody”, representa a tentativa de reeditar alguns de seus momentos mais inesquecíveis.

E é desses álbuns que “These People” mostra-se mais próximo, ancorando-se na maior parte do tempo em batidas acústicos e adornos de arranjos de cordas e ocasionais slide-guitars, como na bonita “They Don’t Owe Me” ou na faixa que dá nome ao álbum.

Embora não fique tão evidente, esse é um disco de dois ou três momentos, iniciando o terceiro em “Picture of You”, onde, entre bases acústicas de guitarra ou piano, Ashcroft resolve falar e homenagear aqueles que perdeu recentemente sob uma roupagem mais intimista e climas mais tranquilos, prosseguindo em “Black Lines” e “Ain’t The Future So Bright”.

Emotivo e diversificado, “These People” retoma o padrão do compositor da “sinfonia agridoce”, e mostra-o em boa forma.