DEPECHE MODE – Spirit (2017)

NOTA: 8,0



“Apesar do clima de continuidade, Depeche Mode não decepciona e reafirma sua relevância”

Perto de completar quarenta anos de carreira o Depeche Mode demonstra que não está disposto a sentar-se na confortável poltrona do comodismo que costuma atrair muitos artistas ou, como diria Raul Seixas, “ficar com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”.

Com uma carreira de caminhos sinuosos, o Depeche Mode faz parte do grupo de bandas que começou com uma proposta sonora que foi sendo aperfeiçoada ao longo dos discos, lapidando, aparando arestas e alargando fronteiras. Do tecnopop de batidas dançantes e melodias simples fizeram a transição gradual para os instrumentais densos e de letras sobre dor, culpa e redenção. Passaram da infância à fase adulta e chegaram à meia idade, com perdas e ganhos, quedas e resurgimento. Tornaram-se maduros, sua música é reflexo disso.

“Spirit” simboliza essa maturidade, não no arcabouço musical, já que está tão próximo do seu antecessor que mais parece uma continuação, mas nas mensagens expressas nas letras, que da forma mais direta possível alerta para uma série de problemas que recrudescem em nossa sociedade.
A sensação de que estamos retrocedendo, ao invés de seguirmos num processo evolutivo, é o tema da abertura do disco na faixa “Going Backwards”. Esse paradoxo em que nossa sociedade parece estar engasgado também é explorado de forma inteligente e contundente na série “Black Mirror”; apesar de todos os avanços tecnológicos alcançados, ainda observamos as mesmas mazelas sociais de séculos atrás e, enquanto indivíduos, continuamos arraigados a concepções ultrapassadas.

Aí a banda lança a pergunta desafiadora na faixa seguinte: “Onde está a revolução?”. A revolução tanto pode ser entendida individual quanto coletivamente. A repetição de frases serve como forma de martelar o ouvinte com o questionamento: “Where’s the Revolution, come on people you let me down”. Ambas as faixas são conduzidas por uma base percussiva e repetitiva com elementos que surgem e se vão ao longo de seus cinco minutos. À base minimalista agregam-se diversos elementos, criando certa aura de tensão e suspense. Esse minimalismo perpassa todo o álbum, estava também presente no subestimado “Delta Machine”(2013).

”The Worst Crime” e “Scum” seguem pelo mesmo caminho das letras ácidas. A primeira, quase à capela, alerta fala dos perigos de líderes populistas e sobre os julgamentos precipitados, e como podem conduzir a condenações injustas, levando-se a cometer “o pior crime”. “Scum” é uma crítica à superficialidade, às pessoas sem conteúdo, vazias por dentro, egoístas. O instrumental e letra são bem repetitivos. “Poor Man” também segue enfiando o dedo na ferida ao criticar as corporações e a forma como controlam nossas vidas. Embora nem todas as letras de “Spirit” mantenham o teor político, ele parece ter sido concebido com essa aura de tensão pairando sobre os pensamentos de Martin e Dave.

Sobre o título do álbum, em entrevista Dave definiu as intenções: “Queremos estimular o pensamento. E, para isso, levantamos várias questões. A mais importante é: Onde está o espírito de união? É essencial pensarmos sobre isto, porque hoje vivemos num mundo que potencia a separação”. A saída do Reino Unido da União Européia pode ser um exemplo dessa falta de união citada pelo vocalista.

“You Move” explora a ideia da sensualidade: “Eu gosto da maneira que você se move, gosto da maneira que você se move esta noite”. “Cover me” é um pedido de ajuda: “Proteja me”. “Eternal” é outra faixa à capela, mas com uma declaração de amor intensa, lembrando “Somebody”: ” Você é a minha eterna, amor eterno”. Em “Poison Heart” utilizam andamento de blues e riffs de guitarra. Os momentos densos, beirando um álbum sombrio, cede espaço para uma levada dançante que pode fazer sucesso nas pistas em “So Much Love”. Embora não seja suficiente para tirar a característica soturna que permeia todo o álbum, cuja produção a cargo de James Ford (Simian Mobile Disco) ressalta os sons mais graves a todo instante, com as batidas da bateria bastante secas.

“Spirit” fecha com “Fail”, outra faixa de letra pesada e frases de alerta bem pessimistas: “Nossas almas são corruptas. Nossas mentes estão bagunçadas. Nossas consciências, falidas. Oh, estamos fodidos… É inútil até mesmo começar a ter esperança. Que a justiça vai prevalecer. Que a verdade vai derrubar as escalas”.

Fãs saudosos podem até reclamar que a banda poderia tentar reeditar algo nos moldes do “Violator”. Mas é saudosismo! Lá se vão quase trinta anos e nem no álbum que o sucedeu o Depeche Mode olhou para trás, “Songs of Faith and Devotion” foi mais uma guinada na música do grupo. E essa tendência de ir saindo do círculo musical havia começado bem antes, lá em “Black Celebration”.

“Spirit” é um álbum intenso, oferece algumas canções com temática mais romântica, mas no geral tenta pesar a mão na consciência do seu ouvinte sobre uma série de questões que estão acontecendo ao redor do mundo e requerem atenção. O Depeche Mode mostra porque continuam relevantes no cenário da música eletrônica.

QUEM?: Spirea X

As raízes do Spirea X estão fincadas em outra banda escocesa, no Primal Scream, de onde saiu um dos fundadores, o guitarrista Jim Beattie, e também o nome da banda – Spirea-X é o nome de uma das faixas do lado B do single “Cristal Crescent”, do Primal Scream. Beattie largou o Primal Scream em 1988, logo após o lançamento do primeiro álbum, “Sonic Flower Groove”, ao que tudo indica dor diferenças musicais. Posteriormente juntou-se a sua namorada Judith Boyle (backing vocals) e mais James O’Donnell (baixo) , Thomas McGurk (guitarra) e Andy Kerr (bateria) e deu vida ao Spirea X, que logo foi contratado pela gravadora 4AD.

Em abril de 91 o Spirea X lança seu primeiro single, “Chlorine Dream”, inspirado na vida de Brian Jones (Rolling Stones). “É mais sobre uma pessoa como Brian Jones do que sobre o Brian Jones em si”, afirmou Beattie em uma entrevista da época, admitindo que na época em que escreveu a canção estava lendo um livro sobre os Stones. “Chlorine Dream” tem toques psicodélicos, batida dançante e vocais lânguidos, elementos muito usados na época por bandas como Telescopes, Chapterhouse, The Charlatans, Ride e o próprio Primal Scream. Apesar disso, Beattie, considerado arrogante por parte da imprensa, insistia que não havia banda igual a eles.

Esse lado polêmico/presunçoso de Beattie pode ser encontrado em algumas frases que costumava usar em entrevistas, duas delas: “Não acho que somos ególatras como o Ride, não preciso pois tenho minha música que me garante”; “Há muitas pessoas são reticentes em suas ideias, não sou como elas. Somos um grupo pop brilhante. Escrevemos canções brilhantes. Odiamos os Stone Roses e não há muito mais a falar”.

Em maio de 91 sai o EP “Speed Reaction”, contendo a faixa título e mais três canções. A canção título segue por um lado ensolarado, lembrando algo do Primal Scream era “Sonic Flower Groove”. “What Kind of Love” também tem um quê de Primal Scream, só que já com a pegada percussiva dançante, backing vocals femininos e guitarras distorcidas esparsas.

“Fireblade Skies” é lançado em outubro de 1991. O álbum traz onze faixas, nove inéditas e os a-sides dos singles anteriormente lançados. Não há surpresas, musicalmente falando, a verve é a mesma que já vinham mostrando: psicodelia, batidas dançantes, melodias e riff ganchudos, vocais lânguidos, mantendo-se em para com as bandas já citadas no segundo parágrafo. Cabe destacar as faixas: ” Nothing Happened Yesterday” (uma gema pop), “Fire and Light” (a canção mais viajada do grupo), “Confusion in my Soul” e “Sunset Down” (totalmente lisérgica).

Em 92, com a banda já reduzida a um duo, restando apenas Beattie e a namorada, o Spirea X é dispensado pela 4AD e na sequência encerra as atividades. A dupla viria a formar o Adventures in Stereo.

:::ÁLBUNS:
Fireblade Skies (1991)

::: SINGLES/EP’S:
Chlorine Dream (1991)
Speed reaction (1991)

:::MAIS SOBRE A BANDA:

+ 4AD
+ Reportagem
+ Resenha

CINEMA: O Lamento (The Wailing / Gokseong, 2016)

NOTA: 8,5

“Horror coreano dá novos ares ao estilo sem apelar para os sustos facéis”

O que primeiro chama a atenção em “O Lamento” é a sua longa duração para os padrões estabelecidos pelo cinema hollywoodiano, formatados geralmente em uma hora e quarenta minutos no máximo, aqui são duas horas e meia aproximadamente, o que já de início deixa clara a intenção do diretor em contar sua estória sem pressa, de forma que possa envolver o espectador com o ambiente em que a mesma se desenrola e desenvolver os personagens de forma que se possa criar empatia com os mesmos.

Esse é o terceiro longa do diretor coreano Hong-Jin Na, que também é o responsável pelo roteiro do filme. Com ele conseguiu abocanhar o prêmio de melhor diretor em festivais asiáticos. Logo não estranhem se de repente der as caras em alguma produção hollywoodiana, o que seria muito justo dada as qualidades que consegue apresentar nesse longa de horror.

Num pacato vilarejo no interior da Coréia uma série de chacinas brutais começam a quebrar a normalidade e atemorizar a população, o que coincide com a chegada de um japonês misterioso que vive isolado na floresta (Jun Kunimura). Com a polícia investigando o caso, entra em cena o atrapalhado e covarde policial Jong-goo (Do-won Kwak), que junto com seu parceiro serão responsáveis por algumas das cenas mais cômicas já vistas em filmes de terror. A cena da falta de energia e a em que é atacado por uma senhora cheia de queimaduras são impagáveis. Aí alguns poderão até pensar estar diante de um típico terrir, de algo na linha de “Fome Animal”, mas esse primeiro ato cômico ocupa apenas a primeira hora do filme, como se pretendesse deixar o espectador relaxado, ao tempo que aproxima o espectador dos personagens, pessoas simples e cheias de temores e fraquezas.

A medida que “O Lamento” avança o clima vai ficando mais denso com a atmosfera do vilarejo se tornando cada vez mais ameaçadora. O roteiro passa então a ir conduzindo por pistas falsas, mudando o foco propositadamente, de forma a desembocar num final não só surpreendente como também que deixa algumas perguntas sem resposta. O que de forma alguma subtrai a sua capacidade de envolver, ao ponto das duas horas e meia passarem sem que se dê conta. Essas perguntas sem resposta parecem propositais, obrigam o espectador a tentar montar o quebra-cabeça que o roteiro promoveu em sua meia hora final, onde nada é o que parece ser.

Há uma série de fatores que conspiram a favor do filme: a fotografia é exuberante, com longas tomadas em aberto da floresta que circunda o vilarejo, mas assustadora; as atuações dos personagens principais são convincentes; os diálogos e situações, mesmo as mais surreais e hilárias, não resvalam para os clichês que estamos habituados; e, o principal, as crenças, lendas e mitos orientais fogem do comumente mostrado no terror ocidental. O que para alguns pode causar certa estranheza, serve de elemento para criar um ambiente desconhecido, incomum. Como na cena do ritual praticada pelo xamã, que em outros filmes seria feita por um padre exorcista. Há certos exageros, como a quantidade de sangue espalhado nas cenas dos assassinatos, o que pode ser tomado como forma tornar mais impactante os crimes.

Quem espera algo na linha de filmes do estilo trilha sonora que se eleva para provocar sustos ou monstros sobrenaturais atacando pessoas, ou efeitos especiais esplendorosos irá se decepcionar – alguns chegaram a compará-lo ao filme “A Bruxa”, devido a forma como o horror se apresenta. O caminho seguido aqui é então mais do horror do que do terror, horror este que em grande parte do tempo está em suspensão, noutros apenas de forma psicológica, mas que sempre desemboca de forma avassaladora e cruel sobre os personagens, não fazendo concessão em momento algum, o que nos remete a, por exemplo, “Eden Lake”, apenas no que se refere ao final pessimista, já que “O Lamento” quase nada é mostrado, sendo muito mais sugerido.

*PS: Comenta-se que Ridley Scott pretende fazer um remake do filme, precisa?

VIDEO: Living Colour – Live in Woodstock Festival Poland (2016)

Living Colour é uma banda novaiorquina formada nos anos 80. Lançaram “Vivid”, seu primeiro álbum, em 88 e logo foram aclamados por crítica e público, que se deleitaram com o crossover praticado pela banda onde misturavam elementos de hard-rock com hip-hop, blues, música caribenha, reaggae e outros ritmos, sempre com uma pegada intensa na cozinha e tendo à frente Vernon Reid, guitarrista que logo foi alçado ao grupo dos guitar heroes, além de presença constante no lendário clube CBGB. Destaque para a ácida “Cult of Personality” e o vozeirão de Corey Glover.

“Time’s Up” (1990), seu segundo álbum, manteve a banda ainda em alta, apresentando a arrasa quarteirão e polêmica “Elvis is Dead”, que conta com a ilustre presença de Little Richard. “Stain” (1993) marcou a saída do baixista Muzz Skillings e entrada de Doug Wimbish além de mudança na sonoridade do grupo, que adicionou à sua música elementos eletrônicos, de música industrial e uma pegada bem mais pesada que antes. Após um hiato de dez anos, lançaram os pouco comentados “Collideøscope” (2003) e “The Chair in the Doorway” (2009). No dia 08/09 sai “Shade”, quinto álbum da banda, após oito anos de silêncio discográfico e enquanto isso podemos curtir esse ótimo show da banda.

Essa é uma apresentação da banda no Woodstock polonês em 2016, onde apresentam uma mescla de seu repertório ao longo dos anos de carreira, além de acrescentar versões para Beatles (Tomorrow Never Knows) e The Clash (Should I Stay or Should I Go). Qualidade de áudio e vídeo perfeitas e a banda bastante afiada, com Corey cantando muito bem, apesar dos anos, e Reid e Wimbish segurando a onda em todos os momentos, principalmente quando resolvem enveredar pelo lado mais virtuoso e cheio de fírulas. Peca por deixar de fora “Elvis is Dead” e “Memories Can’t Wait” (cover do Talking Heads).

Para quem curte: Red Hot Chili Peppers, Faith no More, Infectious Groove, crossover e virtuoses.

Setlist: 01 – Middle Man, 02 – Type, 03 – Ignorance is Bliss, 04 – Desperate People, 05 – Sunshine of Your Love, 06 – Love Rears Its Ugly Head, 07 – Tomorrow Never Knows (The Beatles cover), 08 – Go Away, 09 – Time’s Up, 10 – Cult of Personality, 11 – Should I Stay or Should I Go (The Clash cover)

SAINDO DO FORNO: Starsailor – All This Life (2017)

Um hiato de oito anos e o Starsailor volta a apresentar um álbum de inéditas. Segundo o vocalista James Walsh a ideia era apenas fazer alguns shows, mas aí veio o selo Cooking Vinyl e ofereceu a oportunidade de lançarem um novo álbum. Surgido no inicio da década de 2000, o Starsailor logo agradou público e imprensa com o álbum “Love is Here”, com destaque pra faixa “Alcooholic”. A época era bem propicia para o tipo de música executado pela banda, as paradas estavam dominadas por nomes como Coldplay, Travis, Muse, Doves, Elbow, Embrace, e outros nomes menos conhecidos despontavam como o post britpop. A sonoridade do trio encaixava-se bem no contexto, com destaque para as baladas confessionais, geralmente com ênfase ao piano. Sobre a faixa que abre o novo álbum (Listen to Your Heart), o vocalista descreve como uma “canção emocional e energética” e acrescenta: “acho que fazendo o que nós fazemos, você tem que ser levado pela emoção e pelo instinto”. Assim como há essa abertura explosiva, “All This Life” guarda também os momentos baladeiros como em “Sunday Best” ou em “Blood, e tendência para o pop mais acessível como em “Take a Little Time” e “Caught in the Meddle”. Destaque: “FIA (Fuck It All)”.

:: DATA DE LANÇAMENTO: 01 de setembro, pelo selo Cooking Vinyl

:: FAIXAS:

01. Listen To Your Heart
02. All This Life
03. Take A Little Time
04. Caught In The Middle
05. Sunday Best
06. Blood
07. Best Of Me
08. Break The Cycle
09. Fallout
10. FIA (F**k It All)
11. No One Else

SAINDO DO FORNO: Public Service Broadcasting – Every Valley (2017)

Em seu terceiro álbum o duo PSB, agora um trio, mais uma vez apresenta um conjunto de canções conceituais. No álbum anterior o tema era a corrida espacial, “Every Valley” centra na ascensão e declínio da indústria do carvão na Inglaterra, especificamente no País de Gales. Segundo J. Willgoose, a ideia veio enquanto finalizava “The Race for Scape” e quanto mais pensava a respeito mais interessado ficava. “Every Valley” marca uma guinada musical ao utilizarem instrumentos orgânicos de forma mais intensa, principalmente o trio baixo/guitarra/bateria, do que nos álbuns anteriores: “queremos fazer algo em um nível mais humano”; e também apresenta colaborações de outros artistas acrescentando vocais, juntando-se aos já famosos usos de samples de trechos de anúncios publicitários. Dentre os convidados a vocalista Tracyanne Campbell (Camera Obscura), James Dean Bradfield (Manic Street Preachers) e a atriz Lisa Jen Brown, esses dois últimos de origem galesa. Gravado em Ebbw Vale, também no País de Gales, “Every Valley” é um álbum rumos diversos e um tanto mais convencional, com direito a canções épicas, como na faixa título, guitarras distorcidas e bateria pesada quase se aproximando do post-rock (All Out) e até um pop-rock de tons mais convencionais (Turn no More) ou com elementos jazzísticos (You+Me).

:: DATA DE LANÇAMENTO: 07 de julho, pelo selo Play It Again Sam

:: FAIXAS:
01 – Every Valley
02 – The Pit
03 – People Will Always Need Coal
04 – Progress [ft. Tracyanne Campbell]
05 – Go To The Road
06 – All Out
07 – Turn No More [ft. James Dean Bradfield]
08 – They Gave Me A Lamp [ft. Haiku Salut]
09 – You + Me [ft. Lisa J€n Brown]
10 – Mother Of The Village
11 – Take Me Home

RIDE – Weather Diaries (2017)

NOTA: 7,0

“Apesar de irregular novo álbum após vinte e um anos aponta caminhos”

No final da década de 80 e início dos anos 90, enquanto nos EUA germinava a semente do que viria a ficar conhecido como grunge, na Inglaterra brotava o que posteriormente viria a ser rotulado de shoegaze. Se o grunge pegava as referências barulhentas das bandas de garagem, do hard rock e do punk, o shoegaze viajava tantos nas guitarras etéreas do Cocteau Twins quanto nas microfonias e reverberações do Jesus and Mary Chain, mas também bebia nas referências sessentistas de bandas psicodélicas e nas harmonias vocais e melodias dos Byrds.

“Nowhere” (1990), primeiro álbum do Ride é um dos melhores álbuns de estreia de uma banda e um dos pilares do shoegaze. Lá estão misturadas essas últimas referências citadas no parágrafo anterior, numa combinação perfeita entre melodias impactantes, barulho envolvente e bem condensado e um jogo vocal interessante entre Mark Gardener e Andy Bell. Alguns afirmam que o álbum de estreia dos ingleses acabou ofuscado pelo estrondo que foi “Nevermind”, do Nirvana, vindo a ter seu reconhecimento posteriormente. Após “Nowhere”, seguiram-se mais três álbuns, sendo “Going Blank Again” (1992) o mais consistente, já que para os álbuns seguintes a opção clara foi de direcionar sua música para algo mais próximo ao que estava fazendo o Oasis, que ia galgando os degraus do sucesso. Com isso o Ride ia perdendo ou mudando a sua identidade, construída a partir da sonoridade que emergia de seus dois primeiros álbuns, ao tempo que as divergências internas iam corroendo o relacionamento como banda até o derradeiro fim em 96.

“Weather Diaries” vem após mais de vinte anos desde o último álbum de estúdio “Carnival of Light” (1996). Nesse meio tempo tanto Mark quanto Andy estiveram envolvidos em diversas bandas, tanto como protagonistas quanto convidados. Andy chegando a tocar com o Oasis por anos e Mark fazendo parceria com Robin Guthrie. E a pergunta que se faz sempre que uma banda volta a ativa é: qual “banda” iremos encontrar nesse novo disco? Qual a desse Ride versão 2017?

Vamos abstrair. Vamos imaginar se pudéssemos entrar numa máquina do tempo e fazer o lançamento de “Weather Diaries” em 1994. Quão deslocado ele poderia soar se lançado dois anos depois de “Going Blank Again”? Sim, não existe o SE, todos sabemos, mas nada nos impede de fazer suposições, de criar cenários. E, sim, “Weather Diaries” poderia tranquilamente ser o terceiro disco do Ride, pois musicalmente está muito próximo de “Going Blank…”, basta checar o uso discreto de elementos eletrônicos em diversas faixas, começando pelo barulhinhos sintetizados de “Lannoy Point”, um dreampop de pegada melódica. A diversidade musical também é comparável, indo de momentos mais densos ao da busca de uma canção pop a ficar guardada na memória e ser assoviada de vez em quando. Mas é aí que a banda falha lindamente aqui, não há uma canção com uma melodia ou refrão marcante. E nesse quesito esse novo Ride deixa a desejar. A sequência das três primeiras faixas do álbum em nada ajudam, apesar das letras interessantes, musicalmente soam pouco inspiradas, menos até que muitas bandas imitadoras do próprio Ride. Inclusive os riffs de abertura de “Charm Assault” até assusta quem torceu o nariz para a fase “setentista” da banda, evidente em seus últimos álbuns.

Com o tom saudoso na letra de “Home is a Feeling” e o instrumental mais denso, “Weather Diaries” começa a tomar rumos diferentes, peca por ser uma canção curta mediante o que a ideia instrumental propõe. “Weather Diaries”, faixa título, remete aos contemporâneos do Slowdive no clima etéreo embalado por efeitos intensos de delay e baixo de linhas profundas. remete ao próprio Ride do início, que gostava de se perder em instrumentais com muralhas de guitarras, aqui numa forma mais contida. É uma pena que duas das melhores canções do álbum, “Impermanence” (com um quê de U2) e “White Sands” estejam lá no final do álbum, talvez para redimir os “pecados” cometidos lá na trinca de abertura.

Como álbum de retorno, o que se percebe é que o Ride parece fora de forma, refletindo-se no resultado final: um álbum inconstante, diversificado no sentido não positivo da palavra. Um apanhado de boas ideias que rendem algumas canções interessantes e de ideias pouco inspiradas ou que precisavam de um trabalho mais apurado. A produção a cargo do DJ Erol Alkan parece não ter sido das escolhas mais acertadas, ainda que tenham se cercado de Alan Moulder, colaborador de longa data, para a parte de mixagem. “Weather Diaries” é um caleidoscópio de ideias que talvez precisasse de um tempo maior de maturação para que pudesse, quem sabe, chegar a um resultado mais palatável. Seus melhores momentos são aqueles que o Ride do presente dá uma olhadinha para o Ride do passado e o camufla com uma “linguagem” mais atual.

OCEANO SONORO: microbunny | scapegoat

nome :: microbunny

membros :: al okada (instrumentos), tamara williamson (voz), rebecca campbell (voz – 2010)

atividade :: 2001-~

origem :: toronto, ca

álbuns :: microbunny (2001), dead stars (2004), 49 swans (2010)

hit ::
???

para quem gosta de :: trip-hop, massive attack, portishead, nu-jazz

:: soturno, elegante, noturno, intrigante, adjetivos que cabem perfeitamente na descrição da música desse projeto canadense encabeçado por al okada (fã de brian eno e david lynch) e que tem na voz aconchegante de tamara williamson (nos dois primeiros álbuns) um de seus pontos fortes. misturando elementos de jazz e de música eletrônica com ambientações orquestrais, o microbunny se aproxima tanto do trip-hop quanto do nu-jazz. seu primeiro álbum pode figurar tranquilamente nas listas de melhores álbuns de trip-hop já lançados e vale a conferida por qualquer um que se diz fã do gênero, esse é também o melhor álbum da banda e o denso.

REEDITANDO: THE AIRFIELDS – Up All Night (2008)

NOTA: 7,8



“Cheiro de naftalina em melodias assoviáveis”

Os delicados dedilhados harmoniosos de guitarra que abrem o début dos canadenses do Airfields são o prenúncio de que o grupo não abandonou a fórmula que vinha seguindo em seus lançamentos anteriores (singles e EP’s). Um conforto para os fãs de primeiro momento, que poderiam ter dúvidas quanto ao rumo que o grupo seguiria, já que em “Yr So Wonderful”, seu último single, a predominância era de canções mais aceleradas com guitarras distorcidas, em associação direta ao My Bloody Valentine e The Primitives. Por sinal, todas as canções desse single estão presentes no álbum.

Fácil de descrever, a música do Airfields parece querer capturar o clima de uma época e trazê-lo de volta para esses dias. Cheira a nostalgia, a naftalina. Remete diretamente à cena inglesa do final dos anos 80 e início dos 90. Engloba desde os dedilhados melodiosos do jangle-pop (“Prisoners of Love”, “Rocket Flare”), com a doçura do twee-pop e toques de Smiths (“Icing Sugar”, “The Long Way Home”, “St. Monday”) e mais a distorção com embrulho pop e vocais lânguidos (“I Never See You Smile”, “Yr So Wonderful” e “Love Tariffs”). Não estranhem portanto comparações com Bodines, The Sea Urchins, Primal Scream (fase “Sonic Flower Groove), Wedding Present, The Wake, Field Mice e outras tantas bandas da Sarah Records ou englobadas na Class of 86.

A releitura é fácil de gostar. Os rapazes não só fizeram o dever de casa direitinho como já se mostram capazes de ensinar a muitas outras bandas contemporâneas como se faz legítimas canções pop viciantes, com refrão ganchudo e melodias agradáveis já numa primeira audição. A fórmula funciona bem nas onze faixas, criando o túnel do tempo para uns vinte anos atrás.

Ao lado dos americanos do Math and The Phisics Club e dos brasileiros do Postal Blue, o Airfields é uma das bandas mais interessantes a explorar esse universo musical. Mais personalidade e ousadia, qualidades tão raras em 99% das bandas atuais, não fariam nenhum mal.

Melhores Momentos: “Prisoners of Love”, “Icing Sugar” e “Happy and Safe”.

PUBLICADO ORIGINALMENTE AQUI: http://www.muzplay.net/coluna/45459/the-airfields-up-all-night

REEDITANDO: EVANGELICALS – The Evening Descends (2008)

NOTA: 9,0

“Para quem segue a trilha do Flaming Lips e Mercury Rev vai se encontrar nos caminhos dos Evangelicals”

Os Evangelicals são de Norman, cidade de maioria protestante, localizada no estado de Oklahoma, que já deu ao mundo da música as bandas Chainsaw Kittens, Starlight Mints e Flaming Lips. Apesar disso, Josh Jones, vocalista e mentor da banda, comenta que a sombra musical a pairar por aquelas bandas é de artistas country como Garth Brooks e Toby Keith. Josh afirma que não há nada de ironia no nome da banda, e que é impossível escapar da religião em qualquer lugar nos Estados Unidos.

Em 2006 lançaram o elogiado “Gone”, onde já mostravam um futuro promissor. “Gone” foi todo composto por Josh, que canta e toca guitarra. Para as sessões em estúdio, ele convidou os amigos Austin Stephens (bateria) e Kyle Davis (baixo). Com essa formação fecharam com a Misra Records, que lançou o álbum na sugestiva data: 06/06/2006. Com essa formação a banda chega ao segundo disco, “The Evening Descend”, que cumpre o prometido em seu debut e assusta já com a capa.

A psicodelia anos 2000 que a banda apresentou em seu debut se espalha também aqui, mas de forma mais burilada, rendendo momentos do mais delicioso pop com elementos psicodélicos, numa trilha onde podemos encontrar vestígios do Flaming Lips e Mercury Rev. Sua música soa ao mesmo tempo atual (nos momentos mais convencionais) e retrô (quando a psicodelia aumenta).

Introduções que pouco ou nada tem a ver com o restante da música, mudanças repentinas de andamento, palmas, backing vocals engraçadinhos, sons de sirenes de ambulância, gargalhadas ensandecidas e outros samples diversos, elementos musicais inusitados que surgem e vão embora subitamente, até sons de brinquedo infantil e vocais carregados de eco. Tudo isso está espalhado em “The Evening Descends”. A experiência de ouvi-lo com fone acaba sendo bastante reveladora.

Mas tudo isso poderia não fazer sentido algum ou soar de maneira enfadonha não tivesse a banda a medida exata para dosá-los sem tornar saturado, ou não fossem músicos competentes o suficiente para construir canções com arranjos de bases sólidas, sendo esses elementos apenas o toque a mais. Porque tudo que encontramos na música do grupo já foi utilizado por outros, o que provoca espanto é justamente como eles conseguiram de certa forma “reinventar” essas ideias sem cair na mera imitação.

Um dos trunfos dos Evangelicals é sem dúvida o timbre de voz de Josh, perfeito para a sonoridade proposta pela banda, não esquecendo das doses de ousadia, loucura e variedade dos arranjos, que fazem de cada canção uma experiência diferente, mas não retira a unidade do disco como um todo, o que faz lembrar o Menomena. A produção corretíssima é também um dos pontos altos de “The Evening Descends”.

Destacar canções é difícil, mas a trinca que abre o álbum é indubitavelmente a força atrativa que arrasta para a religião dos Evangelicals e faz sentir vontade de lá permanecer, absorto ouvindo suas canções. No momento as favoritas são “How Do You Sleep” e a louca “Stoned Again”, onde Josh detona “You don’t know me, But you might see me out in severe weather warning, lighting matches, I’m not changing, you’re all freaky, I’m just singing”, ambas com pesos exatos de loucura e emoção. Mas a que pode conquistar muitos é mesmo “Skeleton Man”, aparentemente bem comportada, mas que do meio pro final se torna caótica, doida, perigosa.

Para quem, por causa do nome, pensou que a banda fizesse christian-rock, há que se tomar cuidado (não reparou na capa?), pois a música da banda de tão contagiante pode acabar desvirtuando do “caminho”. Caso isso aconteça, não há com o que se preocupar, a doutrina de Josh e sua turma é inofensiva. Além do mais, diante de álbuns assim, poucos conseguem resistir à sedução. Longe de ser evangélico, mas estou com os “Evangelicals”.

ORIGINALMENTE PUBLICADO AQUI: http://www.muzplay.net/coluna/68780/evangelicals-the-evening-descends

DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS – Sky’s Gone Out (1982)

DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS (PARTE 3)

O ano de 1982 foi muito bom para o Bauhaus: o show no Old Vic Theatre foi filmado e posteriormente lançado em VHS (em 1984) com o nome de ‘Shadow of Light’; fizeram uma “aparição” na cena de abertura do filme sobre vampiros ‘Hunger’ (Fome de Viver), com Catherine Deneuve e David Bowie, interpretando ‘Bela Lugosi’s Dead’; o single ‘Spirit’, primeiro a contar com um produtor (Hugh Jones), conseguiu uma boa recepção e rotação nas rádios, alcançando o 42º lugar nas paradas; junto a tudo isso, a versão de ‘Ziggy Stardust’ (maior êxito da banda), canção de David Bowie, rendeu lugar nas paradas e presença no programa de TV Top of the Pops, da BBC.

O irônico é que, se por um lado a banda chegava pela primeira vez ao popular programa da TV britânica, por outro era justamente com uma versão de uma canção de Bowie, que a banda tanto era acusada de imitar. Inclusive em uma entrevista para a Melody Maker, publicada em outubro de 1982, a banda respondendo porque fizeram o cover disse: “a ideia de fazer a versão de Ziggy Stardust foi parcialmente uma reação a pessoas que como você [no caso o jornalista Steve Sutherland], insiste em afirmar que somos uma imitação de Bowie”. Em outra entrevista, David J comenta novamente sobre a cover: “fizemos justamente o oposto do que os críticos esperavam”.

Com tantas coisas acontecendo, difícil seria imaginar (na época) que em 1983, cerca de um ano depois, aconteceria a separação do grupo. A “aparição” em ‘Fome de Viver’ é citada comumente como um dos motivos para isso, já que apenas Peter Murphy aparece no filme, em detrimento aos outros membros da banda, que teriam se sentido excluídos.

Voltando a 1982, o grupo parecia disposto a explicitar suas influências através de versões – já haviam feito ‘Telegram Sam’ (Marc Bolan). Além da já citada ‘Ziggy Stardust’ (Bowie), fazem uma versão para ‘Third Uncle’ (Brian Eno), ambas registradas em apresentação na BBC. Essas versões são lançadas no single “Ziggy Stardust”, que contempla uma versão ao vivo de 1981 para “Waiting for the Man” (Velvet Undergground), com Nico nos vocais.

‘Third Uncle’ viria a ser a faixa que abre, de forma inusitada, ‘Sky’s Gone Out’, terceiro álbum do Bauhaus, lançado em outubro de 1982. Embora não seja considerado o melhor álbum da banda, com ele alcançam a melhor posição nas paradas ao longo de toda a carreira, emplacando um 4º lugar na parada inglesa. A versão do Bauhaus mantem a pegada energética da original, mas soa mais garageira que a de Eno, com guitarras cortantes, efeitos de flanger e às vezes microfonia. Uma releitura bem próxima da original e com o toque da banda por conta de Peter Murphy.

No álbum, mais uma vez a banda apresenta diversidade de ideias, não tão inspiradas como em álbuns anteriores, mas ainda assim conseguindo manter a aura de antes e emplacando canções emblemáticas.

A versão para “Spirit” é menos interessante e mais estranha que a que já havia saído em single alguns meses antes, soando excessivamente produzida. Cabe uma observação: a banda não havia ficado satisfeita com a versão que havia saído no single, produzida por Hugh Jones, apesar do alcance que ela conseguiu. “Não gostamos de fazer single”, foi a resposta da banda em um entrevista. “Spirit” tem letra de David J e evidentemente fala do espírito de alguém que se foi, provavelmente um(a) artista, de uma forma um tanto romântica: “Esta noite eu poderia estar com você ou esperar nos bastidores, elevar seu coração com uma canção esvoaçante, cortar as cordas dos fantoches”, finalizando com os versos que se tornaram “famosos”: “We love the audience”, cantado em uníssono por todos os membros da banda, inclusive em apresentações ao vivo. A levada tem um quê de música cigana.

‘In the Night’, outra das faixas interessantes de ‘Sky’s Gone Out’, soa uma tentativa de reencontrar o Bauhaus de batidas tribais de ‘Double Dare’, quase como uma continuação daquela com seus riffs rasgantes de guitarra e efeitos diversos.

Sobressaem-se no disco as canções de tom mais acústico como ‘Silent Hedges’, que Murphy fala de “ir ao inferno novamente”, e ‘All We Ever Wanted’, que traz uma ponta de decepção em sua letra: “Tudo o que sempre quisemos foi tudo, tudo que sempre conseguimos foi o frio”. ‘The Three Shadows’, dividida em três partes, soa um tanto exagerada e bem estranha, sendo a parte dois a mais interessante, embora as duas partes cantadas possuam letra com versos enigmáticos e surreais. ‘The Three Shadows II’ também pende para o acústico; com base repetitiva permite a Peter Murphy exercitar sua voz grave sobre sons de pianos martelantes e efeitos de vento soprando.

O álbum teve uma edição limitada que continha o ao vivo, “Press the Eject and Give Me the Tape”, que, segundo consta, teria sido a frase dita pelo segurança a um espectador que havia gravado o show em uma fita K7. Na capa, mais uma vez, uma ilustração feita pelo guitarrista Daniel Ash, que se assemelha a um eclipse.

THURSTON MOORE – Rock’n’Roll Consciousness (2017)

NOTA: 7,5

“Segundo álbum solo pós-Sonic Youth reforça o ditado que leva anos para se afastar do que já fez, principalmente quando fez por tanto tempo”

O timbre das guitarras que abre “Rock’n’Roll Consciousness” é inconfundível, por anos foi marca registrada da ex-banda de Thurston Moore, o Sonic Youth. Poderia vir alguma microfonia ou um inferninho noise característico no ato pós melodia, mas segue-se um solo envenenado em fuzz, algo inimaginável em uma canção do SY. Estamos falando da longa “Exalted”, que se por um lado carrega muito da aura dos trabalhos de outrora, inclusive na estrutura do arranjo multifacetado, também quer ter cara própria, quer ser uma música de Moore enquanto artista solo.

Diferente do álbum anterior, aqui o guitarrista admite que buscou fazer um trabalho mais de banda, com isso deu liberdade aos músicos que o acompanham para que tivessem papel menos “secundário” nas canções. Assim James Sedwards (guitarra) e Debbie Googe (baixo) mostram personalidade em suas funções, acrescentam novos ingredientes às ideias de Moore. Ainda que Steve Shelley, que também era parceiro no Sonic Youth, seja um elemento na equação que acaba não mudando muito a conversa, mas até sua pegada ruma por lados diferentes ao acompanhar o baixo de Debbie, como se percebe na levada marcial de “Cusp”, a faixa com estrutura mais direta de todo álbum, quiçá da carreira do guitarrista.

“Rock’n’Roll Consciousness” segue uma mescla entre melodia e momentos de guitarras explosivas, uma explosão controlada que já tinha se tornado característica nos álbuns do SY pós “Dirty”. Muito dessa dicotomia perpassa quase todas as poucas canções do álbum, tendo seu lado mais experimental em “Aphrodite. O que quebra essa verve que remeteria de forma direta a um total requentado de coisas antigas é justamente a liberdade que Sedwards tem para adicionar timbres diversos daqueles tão comuns na história de Moore, e o faz tanto em “Exalted” quanto em “Turn On”, essa última por sinal com uma sequência melódica que muito lembra um trecho da música “Na Baixa do Sapateiro”. Enquanto o solo em “Smoke of Dreams” traz à canção um quê de Dinosaur Jr., devido tanto à progressão de acordes quanto ao efeito utilizado.

Questionado sobre o título do álbum, Moore afirmou que ao avaliar a sua vida e buscar algo que sempre a esteve direcionando, a conclusão foi de que a música tem sido esse elemento, o rock especificamente, por isso uma “consciência rock’n’roll”. As ideias musicais presente no aqui deixam bem claras as intenções de fazer um álbum rock, um álbum de guitarras, que mesmo resvalando muito em momentos do passado busca apontar para o futuro, ainda que tenha que regredir a raízes de um passado mais remoto ainda, ao exaltar referências do rock de garagem setentista de forma mais explícita.

ARCADE FIRE – Everything Now

“Everything Now” é o nome do quinto álbum dos canadenses do Arcade Fire, a sair no dia 28/07. O álbum que tem produção de Thomas Bangalter (Daft Punk) e Steve Mackey, foi gravado no Boombox Studios, Sonovox Studios e Gang Recording Studio.

“Everything Now” é também o nome de uma das faixas/single que fará parte do novo disco, com a banda soltando um clip para a mesma Essa nova faixa sucede “I Give You Power”, lançada na véspera da posse de Donald Trump.

Esse novo álbum vem depois de um período de quatro anos desde o lançamento de “Reflektor” (2013) e até o momento tem mostrado a banda seguindo por caminhos mais pop e até dançante.

Abaixo o clip de “Everything Now”.

KRAFTWERK – Pop Art (2015)

“Pop art ou Arte pop é um movimento artístico surgido na década de 1950 na Inglaterra, mas que alcançou sua maturidade na década de 1960 nos Estados Unidos.” (Wikipedia)

Pelo tempo de duração de Pop Art, documentário sobre o grupo alemão Kraftwerk produzido pela BBC inglesa e dirigido por Hannes Rossacher e Simon Witter, dá pra antever que muita coisa ficará por ser abordada na produção.

O próprio histórico da banda, as saídas de integrantes, o estúdio Kling Klang, tudo isso já tomaria um grande espaço e, apesar da discografia relativamente pequena em relação a sua trajetória, os álbuns do Kraftwerk são pequenos compêndios musicais que requerem sempre uma análise aprofundada, o que o documentário não pretende evidentemente.

“Pop Art” opta por focar em aspectos pontuais, um deles a importância e influência da música do combo alemão nas artes, musicais ou não, como no surgimento ou renovação de gêneros musicais diversos, incluindo aí o hip-hop, o techno e a dance music. Com uma ligeira incursão pelo rock, mostrando, por exemplo, como o Coldplay transformou a melodia de “Computer World” no riff guia para a faixa “Talk”.

Mas é principalmente na influência que a música “fria e dura”, e de batidas precisas, dos alemães acabou por exercer do outro lado do mundo que o documentário vai focar variados momentos, na música dançante feita dos EUA na dobradinha fim dos 70/início dos 80.

Segue-se um apanhado de artistas que começaram a utilizar as batidas eletrônicas oriundas daquela “fria” banda alemã em suas músicas que seriam sucesso nas boates americanas, seja via remixes de François Kevorkian ou a surrupiada de “Trans Europe Express” e “Numbers” pelo Afrika Bambaata.

Da tempo para contar um pouco da história da banda dentro do cenário musical alemão, mostrando desde o seu surgimento, com trechos interessantes de suas primeiras apresentações. Trechos de uma preciosa entrevista com Ralf Hütter em 1981 (que saiu originalmente num documentário da mesma época), fundador e único membro remanescente da formação inicial.

Outra preciosidade são os trechos da apresentação conjunta para a TV com o Can, outra importante banda do que se convencionou chamar de krautrock, termo usado para designar as bandas alemãs surgidas na época; e comentários do baixista Holger Czukay. Esses trechos seriam bem mais preciosos se desde 2014 já não estivesse disponível no Youtube o vídeo com a apresentação completa.

Como não poderia deixar de ser, um apanhado de entrevistas com artistas e jornalistas fazendo suas análises a respeito da “usina de força”, tradução da o nome da banda: Paul Morley (jornalista musical), Francois Kevorkian (DJ), Peter Boettcher (fotógrafo da banda), dentre outros.

Para os fãs não deixa de ser um deleite, ainda que historicamente muita coisa fique de fora: as saídas de Florian Schneider e Karl Bartos, dois dos principais membros do grupo; álbuns fundamentais como “Radioactivity” e “Man Machine”, por exemplo, quase não são citados ou de forma rápida, bem como os primeiros Kraftwerk e Kraftwerk 2 ; o seu estúdio Kling Klang e a participação no grupo Organisation.

Tivesse sido produzido no Brasil, “Pop Art” falaria também da influência das batidas dos alemães no funk e hip hop carioca, seja de forma direta ou através de seus copiadores/influenciados.

+ PS: Para quem deseja um documentário mais abrangente sobre o Kraftwerk, recomendo ‘Kraftwerk and the Electronic Revolution’, documentário de 2008 com quase três horas de duração. Esse documentário pode ser encontrado no Youtube, dividido em dez partes, só não tem legendas.

POST WAR GLAMOUR GIRLS – Swan Songs (2017)

NOTA: 7,8

“Presente, passado e futuro coexistem simultaneamente no novo álbum do quarteto de Leeds”

Post War Glamour Girls é uma banda de Leeds (UK) e ‘Swan Songs’ é seu terceiro álbum num período de pouco menos de quatro anos. Em2014 lançaram o surpreendente ‘Pink Fur’, ‘Feeling Strange’ em 2015, dois bons álbuns que podem agradar tanto fãs de música pós-punk “old school” quanto aos chegados às releituras feitas por bandas contemporâneas.

Apesar disso, parcas são as informações a respeito do quarteto. Faça lá uma busca no Wikipedia e sinta-se entre frustrado e abismado em não encontrar qualquer informação a respeito deles. No máximo uma referência ao seu nome, retirado do título de um poema de John Cooper Clarke, detalhe largamente conhecido pelos mais chegados.

Para a gravação de ‘Swan Songs’ resolveram experimentar, isolaram-se num estúdio localizado num local remoto da Escócia, mantendo-se afastado de tudo que pudesse tirar o foco do processo de composição/gravação, conforme palavras da própria banda.

Gravado em apenas duas semanas, ‘Swan Songs’ pode ser resumido como uma incursão refrescante pelo universo musical do PWGG sem grande distanciamento de seu passado.

Novas canções, novos arranjos, mas com raízes mantidas: o lado teatral das interpretações vocais, as guitarras de timbres banhados em reverb e o baixo buscando se aparecer mais que tudo. Mas é a voz grave de James Smith que dá o tom da música do grupo. As subidas e descidas vocais de Smith, às vezes quase ensandecendo, são acompanhadas por um instrumental que pode descambar para avalanches sonoras, como na longa “Divine Decline”, faixa que fecha o álbum, ou momentos mais tranquilos e melódicos como em ‘Golden Time’ (recheada com um cortante arranjo de cordas) e ‘Sea of Rains’.

Quem tem obsessão por analisar a forma como as bandas distribuem as canções pelo álbum, dirá que aqui a banda pecou grandemente em começar com a poderosa ‘Guiding Light’ já no e na sequência emendar “Chipper” (bons resquícios de Pixies) outra canção mais “pesada”, levando a falsas suposições de que o álbum tomaria um caminho mais pesado, pois a sequência é de canções mais soturnas como a bela “Gull Rips a Worm to Rags”, com lembranças evidentes de Nick Cave.

Dentre as canções que apontam a música do PWGG para um direção que pode ser seguida em álbuns futuros, com riffs intensos de guitarra e baixão contundente, há “Pollyanna Cowgirl” e “Welfare by Prozac”. Embora quaisquer caminhos se mostrem possíveis para o quarteto, vez que são daquelas bandas inquietas que não parecem se contentar com a linearidade, ainda que esse seja seu disco mais linear, por contraditório que pareça.

Abaixo, o clip de “Organ Donor”, faixa curtinha e que foi a primeira a dar um aperitivo do que seria “Swan Songs”. Segundo James Smith, a letra é inspirada no experimento científico de Milgram, sobre o comportamento das pessoas em obedecer autoridades.

ESSE EU TINHA EM VINIL: The Wedding Present – Bizarro (1989)

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“Quanto mais barulhento melhor”

As guitarras barulhentas do Sonic Youth, JAMC e MBV já haviam preparado meus tímpanos adequadamente para todo e qualquer tipo de barulho que viesse a seguir, então o “encontro” com a banda de Leeds aconteceu de forma tranquila, gerando paixão à primeira vista, mesmo tendo seu cartão de visita o nome de “Bizarro”.

E “Bizarro”, como tantos outros discos que vieram a se acomodar na minha pequena e saudosa coleção de vinis, apareceu também na Muzak.

Capa verde com uma mancha laranja e o nome da banda, nada mais. Para quem estava acostumado a capas como as dos Smiths ou Echo and the Bunnymen, não deixava de ser intrigante aquela capa daquela até então desconhecida banda. Não tão desconhecida por ter aparecido de forma discreta num pequeno texto da Bizz, onde faziam comparações aos Smiths. Comparações essas que até hoje não consigo encontrar muito sentido, embora se referissem mais às letras de David Gedge do que ao som.

Então, disco na mão e lá vamos nós checar qual é a desse povo.

E a desse povo nesse álbum era progressão de acordes rápidos, bateria acelerada, riffs rasgantes e distorções que vez ou outra se avolumavam, foi o que saltou em cima de mim em meu primeiríssimo contato com o The Wedding Present. Um vocalista com vocal grave e, embaixo do barulho controlado, um senso melódico cortante e certa melancolia juvenil. Não tinha como não agradar. Entraram diretamente no meu top de bandas barulhentas do coração, o que alguns chamavam na época de guitar bands.

“Bizarro” é um disco perfeito. Quase cinquenta minutos distribuídos em canções de formatos pop diversos. Nas canções curtas e diretas de pouco mais de dois minutos a la Ramones. Ou nas mais longas e que desembocavam num inferninho noise dos bons, vide as avassaladoras “Bewitched” e Take Me!”.

Não há faixas a serem puladas, o disco segue numa levada em que os BPM’s pouco variam de faixa pra faixa, os elementos se repetem e, apesar disso, cada faixa apresenta uma feição própria, cada uma tem seu barulho proprio. Talvez muito do que se ouve em termos de barulho pode ser atribuído à produção de Steve Albini (que já havia produzido os Pixies), já que na discografia da banda não encontramos um outro álbum com sonoridade parecida, com essas guitarras alucinadamente abrasivas.

Encontrei “Bizarro” em CD muitos anos depois, perdido numa loja da capital, numa promoção de dez reais. Dei um grito de alegria em vê-lo lá, agora com uma capa alaranjada, não tão bonita quanto a do vinil, mas com aquelas canções que tantas tardes da década de noventa me acompanharam, E, detalhe, o CD traz faixas bônus. Que sorte a minha, o destino mais uma vez me colocou diante de algo que me deixou feliz e que até hoje me faz sorrir com as lembranças que esse disco traz.

Preferidas de sempre: Brassneck, No, Kennedy (um petardo!) e Take me!.

ESSE EU TINHA EM VINIL: The Band of Holy Joy – Manic, Magic, Majestic (1989)

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“A vida e sua montanha russa de sentimentos”

Até aqui tenho comentado sobre discos que foram uma espécie de pilar na minha formação musical, muitos deles reconhecidamente influentes na vida de muitas outras pessoas e na história da música.

Mas nem só de standards era feita minha pequena discografia. Entre eles, lá estavam diversos álbuns e bandas pouquíssimo conhecidas e comentadas, mas que acabaram se tornando parte da minha história de vida e se tornando muito queridos.

Dentre esses, destaco este “Manic, Magic Majestic” da The Band of Holy Joy, cujas informações eram pouquíssimas ou nenhuma na época que comprei. Hoje estou informado que a banda surgiu em Londres e que esse é o seu oitavo álbum, numa carreira iniciada nos primeiros anos da década de 80.

Como minha “carreira” de comprador de discos e pesquisador de novas bandas passou por fases diversas, não tenho como ser exato sobre que tipo de som estava ouvindo na época que comprei o disco, afinal sua sonoridade foge completamente aos padrões musicais que costumava escutar na época, muito provavelmente bandas pós punk inglesas ou com guitarras barulhentas.

A música que sai do disco é recheada de elementos folclóricos e certo ar circense. Não há guitarras distorcidas. Não há baixos densos. Não há baterias tribais. Os elementos clássicos do chamado rock’n’roll, não são os elementos básicos, mas metais, cordas, pianos e até xilofone, em arranjos bem construídos que compõem canções muitas vezes repletas de saudade como nas inesquecíveis “Tactiless”, “Manic Magic, Majestic”, “What the Moon Saw” e “Blessed Boy”.

Era um dos discos que ouvia quando queria “refrescar” minha mente de guitarras barulhentas ou canções densas. Um disco que aprendi a gostar e descobrir sua beleza.

Lembro que comprei a um preço mais baixo que o normal porque a primeira faixa estava arranhada e provocava um chiado a partir de determinado momento, algo que inicialmente não me incomodou, mas que com o tempo começou a me deixar chateado, pois comecei a gostar do disco a tal ponto que pensava ser uma injustiça que num disco de tantas qualidades houvesse acontecido algo tão “cruel”.

Ouvindo-o hoje em dia, percebo que o mesmo pouco envelheceu e que algumas de suas canções poderiam facilmente estar tocando nas rádios e muitas pessoas pensariam ser um disco lançado recentemente.

Não o tenho em CD, fiz algumas pesquisas e percebi que até no EBAY é difícil de encontrá-lo. Esse é mais um da minha lista a ser recuperado. Não faz parte das listas de discos clássicos da música, mas faz da lista da minha vida.

NIGHT MOVES – Pennied Days (2016)

NOTA: 8,0

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“Canções pop certeiras que servem como bálsamo para dias turbulentos”

Há dias em que você acorda e não quer saber de canções barulhentas, tampouco de canções melancólicas. Você quer uma canção que te atinja em cheio o corpo e a alma, como um convite para dançar.

Nessas horas, você vai zapeando por um sem nome de artistas conhecidos e desconhecidos e parece que nenhum conseguirá “salvar o seu dia”. Você quer fugir de sua zona de conforto, daqueles álbuns já conhecidos e que sabe que ainda conseguem esse efeito mágico. Você quer algo novo, que nunca tenha escutado, mas que lhe traga uma melodia que permaneça rodopiando em sua cabeça durante o dia, que faça você sentir uma certa ansiedade para poder ouvir novamente, ou uma certa cautela para não ouvir demais e acabar ficando saturado.

Algumas pessoas lhe dirão que você vive sonhando e que já não é possível encontrar músicas assim, pois tudo que tinha a ser feito na música já foi feito. Mas você não quer algo “novo”, original, que seja a oitava maravilha do mundo. Você não quer um novo Surfer Rosa (Pixies), ou Violator (Depeche Mode) ou Psychocandy (Jesus and Mary Chain) ou The Queen is Dead (The Smiths), ou qualquer outro álbum grandioso na história da música pop, você só quer o sopro refrescante de uma brisa suave a tocar sua face.

Aí você encontra “Pennied Days”, do duo Night Moves, e sua busca chega ao fim momentaneamente, até o comichao voltar a acontecer. Enquanto isso, você vai se esbaldando com “Carl Sagan” e as outras oito canções que compôem essa gema pop a ser descoberta por uma multidão àvida por “novas novidades”.