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Música é momento.

Quando comprei esse disco do Ramones não estava no momento certo. Por isso detestei a música do grupo.

Na época, não conhecia nada da banda e a ideia de punk-rock pra mim estava ligada ao Sex Pistols, The Clash, Dead Kennedys. A música dos Ramones exalava algo que não se parecia com punk. Não havia o senso de perigo, não havia agressividade, ao contrário, soava muito ingênuo, bubblegum e mais básico que meus “heróis” do punk. Pra mim ‘Rocket to Russia’não correspondia à minha ideia de punk, mesmo tendo lido que os Ramones eram uma das bandas precursoras do punk-rock, pra mim Ramones não era punk, musicalmente falando.

Um das coisas que eu gostava era a capa, totalmente despojada, realmente punk.

Havia algumas músicas que me agradavam como ‘I Don’t Care’ (onde se percebia a chupação que a Legião Urbana fez para a sua ‘Que País é Esse’), ‘We’re a Happy Family’ e ‘Teenage Lobotomy’. Mas, sendo sincero, o álbum não me agradou de modo geral, soava muito básico e infantil. Tanto que troquei a bolacha com um amigo, não lembro por qual álbum.

Vejam como se confirma a afirmação na primeira frase desse texto.
Anos mais tarde os Ramones viriam a se tornar uma das minhas obsessões graças à coletânea ‘Ramonesmania’, que um amigo me emprestou, já em CD.

Fiquei passado, não entendia como não havia gostado dos Ramones quando comprei ‘Rocket to Russia’. “Como é divertida a música dos Ramones”, eu pensei. Mas era justamente isso, na época do ‘Rocket to Russia’ diversão era tudo que menos queria encontrar na música, eu queria (como disse antes) perigo, agressividade, ódio, melancolia…menos diversão.

Por isso, naquela época a música dos Ramones não me agradou, ao contrário, me fez criar uma ojeriza que se desfaria anos mais tarde. Ainda bem! Hoje eu gosto pra caramba dos Ramones, e adoro o ‘Brain Drain’.

Não pensem que essa seria a primeira vez que eu detestaria uma banda e mais tarde passaria a gostar, aconteceu também com os Talking Heads e o Stone Roses, que fica pra um outro momento.

+ RELACIONADOS:
Esse eu tinha em vinil: Standing on a Beach (The Cure, 1986)

Ian Lockwood, Jez Sullivan, Jon Crannage e Matt Power, respectivamente vocal/guitarra, guitarra, baixo e bateria do Heroes of Switzerland poderiam ter enveredado por caminhos “fáceis”, seguindo modismos como inúmeras bandas atuais. Poderiam fazer electro, indie-folk ou new-rave. Ao invés disso, preferiram tomar uma trilha mais complicada, de acesso difícil e onde os riscos são enormes. Um caminho onde as cobranças por algo “novo” são bem maiores e onde todas as possibilidades parecem esgotadas. Ao seguirem por aí, sabem, de antemão, que nesse caminho encontrarão um público específico: fãs órfãos de bandas shoegaze dos anos 90 e/ou admiradores de dream-pop, nu-gaze ou outro termo que sirva pra designar bandas novas com influências shoegaze.

Em sua página no Myspace a banda lista influências diversas, de Swervedriver, Ride e My Bloody Valentine a Whitesnake, Rush e Sabbath, passando por The Cure, PIL, Death Cab for Cutie e Luna, dentre outros. Mas, segundo Ian, eles fazem músicas apenas para nos transportar. As muralhas de guitarra que constroem, apesar de tentarem soterrar as melodias, apenas criam um embate em que o ganhador são os sentidos, que se vêem atordoados com as ondas de barulhos a atingi-los, rememorando um certo quarteto de Oxford (citado logo acima) em seus melhores momentos. Basta então fechar os olhos e se deixar guiar pelos riffs fartos e embrulhados em feedback, reverb e distorção, a sensação será mesmo de transporte.

O que chama a atenção na música desse quarteto de Nortingham, que foi formado em 2003, é a brutalidade da bateria (“Compliancy”, “Disposable Fiction”, “Why”), a sinuosidade melódica executada pelas linhas de baixo (“Fall” e “Reassurance”) e as belas melodias (“Wish it Away” , “Wonderland” e “Panic Attack”) . A abertura do álbum, com a poderosa “Waiting”, rememora inevitávelmente “Leave Them All Behind” do Ride. Há alguns momentos com caídas inevitáveis para os lados do My Bloody Valentine, Swervedriver e do Kitchens of Distinction também, mas no geral os heróis conseguem se sair bem em seu primeiro álbum. Deixam explícitas suas influências mas não caem na mera imitação, longe disso, encontram espaços para processar muito bem suas referências. Quem seguir a trilha, encontrará também canções com climas bastante melancólicos, lembrando Film School.

Pode não ser novo, pode ser mais do mesmo, mas a música do Heroes of Switzerland atinge em cheio ao que se propõe, transportar. Então, se você estiver andando pela rua com seu aparelhinho de MP3 ou deitado ouvindo “Comfort in Fear” e de repente se sentir estranho, não diga que não te avisei.

Saindo do forno: dicas sobre álbuns, singles, EP’s recém lançados.

Sade com exatos vinte e seis anos de carreira prefere não arriscar. Há praticamente uma década sem lançar nada inédito, neste novo álbum retoma a sonoridade dos últimos trabalhos de estúdio. Nenhuma inovação, tipo: flertar com a música eletrônica ou soar “moderninha” como Madonna atualmente. Fiel ao seu estilo sofisticado, com sua voz límpida e sempre bem acompanhada por excelentes músicos, eis sua fórmula do sucesso. Destaque aqui para: “The Moon And The Sky”, faixa de abertura; “Soldier Of Love”, com sua batida marcial; a beleza suave de “Be That Easy” e “In Another Time”, uma quase balada acompanhada de um belo sax e um discreto violino. Considerando o tempo de ausência, bem que Sade poderia retomar o “swing” que existia nos seus primeiros trabalhos ou gravar um álbum só de covers – algo inusitado. Mas por enquanto, ela prefere “um lugar seguro”, título da faixa que encerra “Soldier Of Love”. Haja tanto amor!

+ Em julho de 1989 a Revista Bizz publicou uma lista com oitenta discos essenciais dos anos 80, postaremos aqui todos eles com os respectivos comentários da revista.

“Álbum de estréia da banda que não teve pudor em retomar ao pop com refinamento. Um tratado ambicioso sobre o amor moderno, embalado por teclados, saxofone e cordas.”

DISCOGRAFIA COMENTADA: BAUHAUS (PARTE 2)

Em janeiro de 1981, dois meses após lançar seu primeiro álbum, o Bauhaus assina com o selo Beggars Banquet. Em março desse mesmo ano excursionam pelos EUA. Lançam em abril o primeiro single do álbum vindouro, ‘Kick in the Eye’, com a faixa ‘Satori’ no lado B. Essa versão do single é ligeiramente diferente da que viria a sair no álbum. Mostra o grupo com uma pegada funk, graças à linha de baixo dançante. ‘Satori’ é uma faixa instrumental essencialmente percussiva com um acento mais reggae no baixo e os efeitos de guitarra entrecortados típicos de Daniel Ash.

Curiosidade: nessa época, David J, sob o pseudônimo de Captain Jose da Silva, junto com Max Akopolis, e Alan Moore (pseudônimo de Translucia Baboon), mantinha um projeto em paralelo com o Bauhaus, chamado The Sinister Ducks, que chegou a abrir alguns shows do Bauhaus.

Em junho sai o segundo single, ‘The Passion of Lovers’, no lado B uma faixa com o nome de todos os integrantes. Essa nova canção do Bauhaus é também surpreendente, mostra a banda flertando com violões e teclados. Com dois singles que seguem direções tão díspares, antever o que viria em ‘Mask’ parece uma tarefa difícil, o que corrobora a dificuldade em “enquadrar” a música do grupo, que cada vez mais toma vertentes diversas, engana a crítica que não consegue rotular a música deles.

‘Mask’ ganha o mundo em outubro de 1981.

Com uma capa em preto e branco, a cargo de Daniel Ash, e um título bastante sugestivo, o Bauhaus tira/põe (?) sua máscara em seu segundo álbum, tomando um caminho diverso de outrora, reflexo do momento em que a banda se encontrava. Em ‘In the Flat Field’ a maior parte canções eram do início da carreira, dos primeiros ensaios. Natural que ‘Mask’ apresente uma “maturidade” musical e um abrandamento na crueza explícita de ‘In The Flat Field’. Essa tendência que já se insinuava nos singles, concretiza-se no álbum. Por essa época o grupo se inclinava inclusive pelo dub, vide ‘In Fear of Dub’, uma versão para ‘In Fear of Fear’, que mais tarde entraria como faixa bônus ou ‘Earwax’.

Ideias e estilo sempre estiveram primeiro plano na concepção do Bauhaus. ‘Mask’ reafirma isso, as ideias musicais tomam as mais variadas formas, e o baixo de David J (agora mais pontual e groove) e a bateria sempre inusitada de Kevin Haskins continuam sendo a matéria bruta das canções do grupo, que passa a incorporar teclados e sax, como em ‘Dancing’, com letra de David J (‘estamos dançando no lado negro dessa canção’) ou a pscótica ‘In Fear of Fear’ e seu sax alucinado. Em ‘Of Lillies and Remains’ (com um groove quase reggae) a cozinha faz uma “cama” para a declamação da letra que fala de alguém que descobre que acabou de morrer e precisa escalar um muro alto e cheio de buracos para voltar à vida.

Por ter obtido uma boa colocação nas paradas, é comum a afirmação de ser o álbum mais comercial do grupo. Vá lá que ‘Kick in the Eye’ é das canções mais acessíveis do grupo, mas ‘Mask’ não é um álbum de fácil assimilação, há uma clima denso, uma atmosfera carregada que percorre algums canções, como em ‘Mask’ ou ‘Hollow Hills’. Acrescente-se que a maior parte das letras não são nada palatáveis. ‘Passion of Lovers’, por exemplo, tem teclados de fundo com tons épicos/misteriosos, o baixo é profundo, Murphy canta que “a paixão dos amantes é pela morte”. ‘Muscle in Plastic’ segue uma melodia dissonante ao piano, linha de baixo com muitos espaços vazios e uma confissão: ‘Sou músculo em plástico, um mau movimento de Nijinski, uma peça branca do show e não tenho nada a perder’. As referências não param, ‘The Man With X-Ray Eyes’ toma emprestado o título do filme de Roger Corman, de 1963 e ‘Kick in the Eye’ fala da busca por Satori, um termo relacionado ao Budismo.

Após o lançamento e relativo sucesso alcançado por ‘Mask’, o Bauhaus seguiria por uma maratona de shows pela Europa, EUA e algumas apresentações para a TV.

:: RELACIONADOS: Bauhaus – In The Flat Field (1980)

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Ao escrever essa resenha, tinha intenção de elaborar o meu melhor texto até hoje. Contudo, sei que não vou conseguir. Dada a complexidade do filme em questão? De maneira nenhuma. Spike Jonze, o diretor, matiza seu filme com o que Hollywood necessita nestes últimos tempos. Criar um filme sobre criança – e não propriamente para o público infantil – que seja para todas as gerações, inesquecível, fantástico, lírico, onírico, sensível, com narrativa praticamente única, honesto, repleto de metáforas, isso, claro, sem soar para o lado complexo, e ‘cabeça’ demais.

Não conseguirei porque ‘Onde Vivem os Monstros’ fica no rol daqueles filmes que você nunca consegue delinear cabalmente, traçar os melhores momentos, e que posteriores sessões dele tornam-se imprescindíveis e obrigatórias. E tudo que ficar aqui, em minhas palavras, ainda não traduzem a beleza total do filme.

O primeiro mérito teria que vir pelo escritor Maurice Sendak. O livro, de 1963, ganhou vários prêmios até hoje. Spike Jonze pega a história e a deixa com um aspecto fiel e ainda mais detalhista. A sinopse se resume à vida do garoto Max de 9 anos (com a boa interpretação do ator mirim Max Records). Seus medos, sua solidão e um tanto quanto a incompreensão por parte da irmã e da mãe (a atriz Catherine Keener). Numa noite, após ficar de castigo, ele foge de seu quarto, e ao encontrar um barco, parte para outro lugar, encontrando por fim uma ilha habitada por monstros. Bruscamente, Max resolve se juntar aos monstros, e para fazer a amizade com eles, se passa por um rei de uma terra distante – método esse que vai funcionar em teoria.

Depois, o que vemos é um exercício de belas imagens (mesmo que alguns monstros arranquem árvores com socos) e de belos diálogos. Vale lembrar que os monstros passam por momentos semelhantes aos dos humanos: raiva, ciúme, compaixão, medos. Numa certa parte do filme, a cativante monstra KW, ao ser indagada por Max sobre família, responde: ‘como é difícil ser uma família’ (tocante). Em cada monstro com sua característica própria, Max vê o retrato de seu mundo ao lado da família.

O impacto maior do filme é a amizade entre Max e o monstro Carol. Aos poucos, Jonze vai pincelando momentos alternados entre a alegria, o amadurecimento dos personagens, o choque da verdade e o drama – e confesso que senti até medo nos instantes finais. E também derramei lágrimas. E fui dormir pensando no filme (muito tempo não acontecia comigo) e hoje, coloco no mesmo nível – sem dúvidas – de clássicos antigos tais como ‘A Fantástica Fábrica de Chocolates’ e ‘Conta Comigo’.

Mais detalhes sobre o filme (elenco, curiosidades, imagens).

Nota: 10,0

‘A Paean to Wilson’ (Uma Homenagem a Wilson) é, como o próprio título já diz, um álbum tributo a Tony Wilson (falecido em 2007), fundador da Factory Records, selo de Manchester que tinha em seu cast um leque de bandas emblemáticas na década de 80: Joy Division, New Order, A Certain Ratio e Happy Mondays, para citar algumas. O The Durutti Column também fazia parte desse cast, WIlson foi um de seus membros e fundador, ao lado do guitarrista/pianista Vini Reilly, o homem que há mais de três décadas leva o nome da banda adiante. Nas notas do álbum, Vini diz: “The Durutti Column was Tony Wilson’s baby”.

Quem viu ‘24 Hours Party People’ deve lembrar-se de uma cena em que um rapaz magro, empunhando sua guitarra toca para uma plateia inexistente no clube de Wilson, era Vini Reilly, que pergunta a Wilson: Como foi? – Foi ótimo. Maravilhoso. Muito bom, foi… eu adorei. Diz Wilson como incentivo. A cena pode não ter acontecido da maneira narrada no filme, mas simboliza justamente o apoio que Wilson sempre deu a Vini. Mais que tudo, segundo palavras de Vini, Wilson era seu melhor amigo.

Profundamente abalado com a doença e posterior morte do amigo, Vini compôs esse tributo a Wilson, na época que ele ainda estava hospitalizado: “A Paean to Wilson é parte de um trabalho que comecei a fazer quando meu amigo, Tony Wilson, morreu. Um pouco antes de ele morrer, enviei a parte instrumental e ele adorou, então decidi tocar o projeto”.

O álbum é essencialmente instrumental e divide-se em doze atos, cuja ideia é formar uma peça única. Além disso, traz um disco bônus com cinco faixas. Tem a participação dos músicos que tem colaborado recentemente com o Durutti Column: Bruce Mitchell, Keir Stewart , Poppy Morgan, John Metcalfe, Tim Kellet, Ruby Morgan, Kate Williamson. Abre com o sampler de uma frase retirada de uma entrevista de Wilson com o produtor Martin Hannet , onde este explica todo o processo de produção; ao final Wilson fala pra Hannet: “Você não é um membro da banda, você é só um técnico”, e termina com a longa ‘How Unbelievable’, adornada pelos encantadores dedilhados de Vini e que termina com quatro minutos de silêncio.

Entre o ato inicial e o final, destacam-se o canto etéreo e dedilhado angustiado em ‘Chant’, as batidas tribais e guitarras furiosas da instrumental ‘Quatro’, e a arrebatadoramente triste ‘Along Came Poppy’, com viola, piano e sax dilacerantes; ou ainda, ‘Catos Revisited’, repleta de influencia flamenca ‘Stuki’ e ‘Duet with Piano’, que instrumentalmente remete aos primeiros trabalhos do Durutti Column. O disco bônus, apenas canções com nomes, a última é justamente ‘Anthony’, que saiu no álbum ‘Sex and Death’, de 1995. é composto de seis canções como nomes masculinos: ‘Bruce’, ‘Keir’, ‘Neil’, ‘Mike’, ‘Alan’ e ‘Anthony’, foi lançado apenas em formato digital em 2005.

Ao contrário do que se possa pensar, ‘A Paean to Wilson’ é um disco cheio de vida, apesar de melancólico, pode figurar tranquilamente ao lado dos melhores álbuns da extensa e pouco conhecida discografia do Durutti Column. É uma homenagem na forma de doze belas canções, o que mais se poderia esperar de um artista como Vini Reilly?

NOTA: 9,0

:: RELACIONADOS: The Durutti Column – Love in the Time of Recession (2009)

:: Duas grandes decepções de 2009, além do Placebo com “Battle For The Sun”, foram Echo & The Bunnymen – “The Fountain” e Depeche Mode – “Sounds Of The Universe”. :-(

:: Passaram batidos em 2009: Dolores O’Riordan – “No Baggage”, Ian Brown – “My Way” e The Twilight Sad – “Forget The Night Ahead”. A primeira, uma mera sombra dos Cranberries; o segundo fez um melhor álbum, influenciado por Michael Jackson, segundo o próprio. O último, com a boa qualidade de sempre, mas um pouco mais pop; prejudicado (creio) porque seu lançamento ocorreu praticamente no final do ano. :-|

:: Duas grandes músicas de 2009 de álbuns não tão à altura: “Surprise Hotel”, do Fool’s Gold, lembra “(Nothing But) Flowers”, do Talking Heads; e “Behave”, do Ocuban, música instrumental com bons climas e elementos sutis. :-)

:: Poderiam ainda compor minha lista de melhores de 2009: “Walking On A Dream”, do Empire Of The Sun, um maravilhoso trabalho pop; e “Tomorrow Today”, do Seeland, mais um excelente trabalho indie-pop-rock. :-)

:: Pra quem gosta das guitarras de Johnny Marr (The Smiths) misturadas aos vocais e climas do Belle & Sebastian, The Electric Pop Group – “Seconds” (2010) vai agradar bastante. :-)

:: Finalizando, alguns artistas de peso que estão para lançar seu novo álbum neste primeiro semestre de 2010: R.E.M., U2, Interpol e Strokes – é aguardar pra conferir. :-)

Não deixa de ser decepcionante que o Shout Out Louds tenha despido sua música justamente daquilo que era uma de suas forças maiores: os adornos nos arranjos.

O pior ainda é que, conforme palavras do próprio Olenius, foi proposital. A idéia foi fazer um álbum mais “básico”. Os refrãos que eram outro dos pontos fortes do grupo, foram deixados de lado ou perderam intensidade; e os backing vocals da tecladista Bebban Stenborg, que em ‘Impossible’ (do álbum anterior), por exemplo, eram um ótimo contraponto com a voz de Olenius, não aparecem em ‘Work’.

Aí, quem adorou tudo isso no álbum anterior, vai logo de cara torcer o nariz para o novo trabalho dos suecos, não sem motivo. Sem os citados elementos o Shout Out Louds nada mais é que mais uma banda fazendo indie-pop junto com uma multidão de bandas semelhantes. Há pianos, cordas e instrumentos de sopros ocasionais, mas a gama de elementos presentes em ‘Our Ill Wills’, objetivamente deixados de lado, fazem falta.

Estaria o Shout Out Louds de ressaca ou dispostos a seguir caminhos diferentes?

‘Work’ está uns dois ou três passos atrás do seu antecessor (melhor álbum de 2007 em minha opinião), se situando entre o que a banda fez em seu debute e no segundo disco.

Melodicamente o grupo continua afiado, os vocais de Olenius também, mas falta a ‘Work’, inclusive, uma canção marcante. Sei que é chato e injusto ficar tecendo comparações, mas enquanto o álbum anterior estava recheado delas, ‘Work’ segue um caminho inverso. Se essa era a ideia da banda, ótimo; senão, eles deram um tiro no próprio pé.

Azar de quem esperava uma continuação de ‘Our Ill Wills’.

Aí soa até irônico uma faixa com o título ‘Show me Something New’ (mostre-me algo novo), um dos momentos “ensolarados” do álbum. ‘Fall Hard’, onde o backing de Bebban aparece bem discretamente, é outro momento cheio de frescor, musicalmente falando (já que a letra é até meio desesperadora), e um dos singles de ‘Work’, junto com ‘Walls’, canção que começa meio estranha mas ganha fôlego nos instantes finais, com um refrão a ser cantado a plenos pulmões. ‘1999’ também é bacana (e pode vir a ser lançada em single), e a épica ‘Moon’, que faz pensar num Arcade Fire mais básico.

Poderia ser melhor, mas o SE é algo que só existe em nossas mentes, no imaginário.

NOTA: 7,0

PS: Inicialmente o texto era pra sair na seção Saindo do Forno, já que o álbum vai ser lançado no dia 23/02, mas acabei me estendendo.

“Em Reeditando postarei textos meus que foram publicados nos sites Outernative e Muzplay, da época em que escrevia para os mesmos”


Siouxsie – Mantaray
(Universal, 2007)

Algumas coisas são inevitáveis e até bem previsíveis, a incursão de Siouxsie em carreira solo é uma delas. Ou alguém pensou que a ex-punk e ex-groupie dos Sex Pistols, iria parar após a dissolução do grupo ou da separação de seu companheiro, Budgie? “Mantaray”, seu primeiro álbum solo, é a resposta da cinquentona Siouxsie e o seu presente para os órfãos de sua banda, por sinal seus vocais estão em forma, não tão poderosos quanto no início de carreira, mas muito bem colocados, para que possa aguentar as apresentações ao vivo. Contando com a colaboração dos produtores Steve Evans e Charlie Jones, que além de produzirem, compuseram e tocaram os instrumentos em todas as faixas, “Mantaray” mostra a cantora passeando por um terreno que já é de seu conhecimento: glam-rock (About To Happen), baladas devastadoramente tristes (If It Doesn’t Kill You), levadas tribais (One Mile Below), música de cabaré com pitadas de jazz (Drone Zone) ou canções pop com tons dramáticos e arranjos suntuosos, que até lembram “Face to Face”, faixa que sua banda compôs para a trilha sonora de Batman, (Here Comes the Day e Loveless); aventura-se também por ambientes novos: rock com elementos de música industrial (Into a Swan). Siouxsie mostra que está firme e forte e praparada para enfrentar o que vier, ela deixa isso bem claro no refrão de “Into a Swan”: “sinto uma força que nunca senti antes”, enquanto em “If It Doesn’t Kill You”, ela canta que “se isso não te mata, isso te dá uma sacudida”. Melhores momentos: “Here Comes that Day”, “Loveless” e “Sea of Tranquility”.(NOTA: 7,6)


Shout Out Louds – Our Ill Wills
(Merge Records, 2007)

Em entrevista recente, falando sobre “Our Ill Wills”, Adam Olenius, declarou que o álbum foi muito mais trabalhado em estúdio e pensado que o seu antecessor, “Howl Howl Gaff Gaff” (2005), que foi basicamente “vamos gravar as canções e ver o resultado”. Prova de que o trabalho compensa, os suecos saíram do estúdio com um belo segundo álbum, mais coeso, mais accessível, repleto de belas canções. A ótima abertura com as batidas acústicas e os celos da deliciosa “Tonight I Have to Leave It”, uma canção sobre (o título já entrega) rompimento, é um belo cartão de visitas para o que virá. E o álbum em nenhum momento decepciona, tem seus momentos mais tristes como em “Time Left for Love” e “Meat is Murder”, mas nenhuma canção que faça sentir vontade de pular a faixa. Por seu lado, as quatro canções que iniciam o álbum são de arrancar um sorriso até nos mais ranzinzas, e não há segredos, apenas canções adornadas com pequenos elementos (cordas, pianos, glockenspiel, percussão) em favor das melodias, ressalte-se ainda os vocais mais “inspirados”. Até na simplicidade do arranjo de “Blue Headlights”, canção composta por Bebban Stenborg (teclados), a banda esbanja candura. Há ainda a ótima “Impossible”, onde Olenius canta que não quer sentir como se não tivesse um futuro, e a cureana “Normandie” (espécie de Close To Me). A voz de Olenius lembra bastante a de Robert Smith, o que faz com que pensemos no The Cure fazendo indie-pop. Se o resultado fosse algo próximo desse “Our Ill Wills” seria ótimo. Melhores momentos: “Tonight I Have To Leave It”, “Parents Living Room”, “You Are Dreaming”, “Suit Yourself” e “Impossible”, (NOTA: 9,0)



New Model Army – High

(Akoustik, 2007)

Justin Sullivan carrega o seu New Model Army já há vinte e sete anos e chega ao seu décimo álbum com uma vitalidade e urgência que faz lembrar os melhores momentos da banda nos longínquos anos oitenta. Bom para os fãs que tem um motivo a mais para sorrir, principalmente os brasileiros que tiveram a oportunidade de vê-los novamente no país recentemente. No percurso, o NMA passou por várias mudanças, e acontecimentos trágicos, como a eletrocução e quase morte de Sullivan durante um show, mas a mais impactante foi a morte, em 2004, do baterista, co-fundador e grande amigo de Sullivan, Rob Heaton, um dos responsáveis pelo som da banda. Para quem conhece a música do NMA, não há muito do que se falar, são os inconfundíveis vocais de Sullivan, mais declamados ou falados do que cantados e com certo tom de raiva, as letras afiadas, a cozinha poderosa e com certo balanço, pitadas de folk (a cargo das batidas de violão), de hard rock (nos riffs mais pesados de guitarra) e também baladas, como na ótima faixa que dá nome ao álbum, na quase acústica “Sky in Your Eyes” e na climática “Rivers”. Pode soar clichê, mas “High” mostra a banda numa forma como não se via desde “Impurity”, seu álbum de 92. “No Mirror No Shadow”, por exemplo, vai de encontro ao que a banda já produziu nos anos oitenta, não só pela crueza, mas principalmente pelo refrão cantado em uníssono, bastante usual naquela fase deles. O entrosamento da cozinha na chacoalhante “Dawn” também remete aos melhores momentos da dupla Heaton/Morrow (ex-baixista). “High” é, sem dúvida, um dos melhores álbuns lançados pelo New Model Army nos últimos anos, vai agradar aos fãs (em sua maioria trintões) e serve como ótima apresentação da banda às novas gerações. Melhores momentos: “One of the Chosen”, “High”, “No Mirror, No Shadow” e “Rivers” (NOTA: 7,8)

Saindo do forno: dicas sobre álbuns, singles, EP’s recém lançados.

“Eita mundo pequeno sô”. É da República do Cazaquistão esta banda que faz um post-rock eletrônico de excelente qualidade. Mais um envolvente trabalho que é puro prazer aos ouvidos, de um maravilhoso instrumental! “Silence of Space” com seu clima épico (poderia compor a trilha sonora de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”) é a faixa “intro” anunciando o que de bom está por vir. “Cosmic Explosion” é tudo que o próprio título diz: uma explosão cósmica de sons, onde harpas dão boas vindas a um paraíso musical. “Music of Waves” com sua bateria marcada, não eletrônica por sinal, e uma bela melodia (guitarra e teclados) que se repete como um mantra mantém o bom clima da faixa anterior. A cadência marcante de “Aerostatic” e o techno de “Be Kind, Be Good” lembram melhores momentos de Moby. “Losing Touch” encerra de forma legal “Bluelight”, que assim como “Tradition” do Golden Ages, é mais uma curta e bela viagem ao infinito universo da música!

Faz quase quatro anos que os texanos do Midlake lançaram o aclamado ‘Trails of Van Occupanther’, que trazia a emblemática ‘Roscoe’, lembra? Como o tempo parece passar rápido?! Nem sempre, é verdade. No mundo da música, para algumas bandas ele parece andar tão rápido e para outras parece tão lento. No caso do Midlake, parece que foi há uma década. Apostava que lançariam algo em 2008, queimei a língua.

Oficialmente (já que o álbum se encontra disponível na net desde o fim do ano passado) o disco do quinteto sai em fevereiro desse ano, mostra os rapazes mais viciados na música folk e melódicos do que nunca: “We got into British folk. We started listening to Fairport Convention, Steeleye Span, and Pentangle; those are the three biggies. Strawbs, Amazing Blondel, a lot of more obscure bands: Yellow Autumn, Windy Corner”, disse Tim Smith, o mentor do Midlake, em entrevista ao site Pitchfork.

É perceptível o aprofundamento do grupo no folk dos anos setenta na sonoridade que emana de ‘The Courage of Others’, que segue por um caminho mais bucólico, mais acústico, mas nem por isso menos empolgante que ‘Trails of…’. Musicalmente o grupo continua impecável na construção de belos arranjos e melodias, que geralmente incorporam flauta ou arranjos de cordas (o piano ficou meio esquecido). Aos poucos vão deixando cada vez mais distante as associações com o Radiohead, uma das influências da grupo.

Inicialmente, ‘The Courage of Others’ soa linear, reto, e é mesmo, as três ou quatro primeiras canções parecem possuir o mesmo andamento, parecem fazer parte de uma longa suíte de andamentos quase invariáveis, principalmente em se tratando dos vocais, mas é o bucolismo que contamina todas elas e o uso recorrente dos mesmos elementos (acústco/elétrico) que acaba criando essa sensação ‘de estar sentado à porta olhando para o campo num dia que parece mais longo do que na verdade é, e que não se consegue levantar e ir fazer outra coisa pois se sente bem’.

Bom que essas primeiras impressões de repetição vão se desfazendo com mais audições e percebe-se a força de ‘Winter Dies’, por exemplo, uma forte candidata a melhor do álbum junto com a devastadora ‘Rulers, Rulling All Things’ ou o arranjo impecável de ‘The Horn’.

Quem observou mais detalhadamente a capa do álbum e associou a elementos renascentistas não estará errado, há elementos no álbum que remetem, principalmente em ‘Bring Down’ (com vocais quase à capela) e ‘In The Ground’.

Embora não apresente canções tão emblemáticas quanto o álbum anterior, mostra que a banda evoluiu a ponto de ir aos poucos definindo seu próprio som, criando sua marca própria e deixando as influências mais diluídas que nunca.

NOTA: 8,0

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Caso eu fosse preguiçoso e não gostasse de escrever sobre música, eu diria concisamente e rapidamente aqui: Get Well Soon é o Ramona Falls de 2010. As similaridades de tal fato viriam nas constatações que são bandas de um homem só e bastante ecléticas em suas sonoridades. O Ramona Falls era Brett Knopf, no GWS é o alemão Konstantin Gropper. Outra constatação: são projetos sem muito apoio da mídia (mesmo em tempos com tantos blogs pela internet), poucos textos a respeito e que tendem a se transformar em discos do ano – mesmo com um desconhecimento covarde.

Gropper não é marinheiro de primeira viagem. Já fez trilha sonora para filmes de Win Wenders, e isso já é uma bagagem de respeito e tanto. É ou não é? Também não é apenas isso. Quem, em tempos de tanta banda aparecendo a cada segundo, numa época onde discos curtos tornam-se fundamentais, ainda consegue fazer um disco de 14 músicas (e praticamente 60 minutos) ser instigante e valer até o último acorde? A resposta está aqui, e chama-se ‘Vexations’.

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Eu sou uma pessoa que gosta de decifrar enigmas, e chamaria esse álbum de um caleidoscópio montado a partir de várias bandas (e não é exagero). ‘5 Steps/7 Words’ tem um quê da melhor fase do Beirut com sopros em demasia, ‘That Love’ e ‘A Burial At Sea’ remetem a algo da melancolia dos Tindersticks (claro, sem a voz do crooner Stuart Staples, e sim com a voz também imponente de Konstantin), e tudo bem se você pensar até em Radiohead na antítese calma/explosão de ‘Aureate!’. ‘Nausea’ brinca com o ouvinte fazendo ele pensar que a música seja de algum disco do The Divine Comedy.

Violinos se mesclam a canções ricas de arranjos (sem perder o charme pop-rock do passado) e trazem petardos como ‘Werner Herzog Get Shot’. Os refrões são pegajosos, sem caírem na ingenuidade, e vem carregados de emoção e com belos coros (para gritar e se cantar junto), tome por exemplo ‘We Are Free’ e ‘We Are Ghosts’. Candidatas a hits do ano aparecem, comprove ouvindo ‘Seneca’s Silence’ e ‘Angry Young Man’.

Um disco onde citar uma preferida entre 14 jóias é uma missão ingrata e impossível. E confesso, há muito tempo (muito mesmo) que não me chateio por ouvir um disco tão extenso, não faço questão de perder uma hora de minha vida. Perder? Na verdade, ganhei. Em forma de um sorriso na cara, agradeço sempre por aparecimento de músicos como Konstantin Gropper.

Nota: 9,0

Myspace da banda

Biografia

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Saindo do forno: dicas sobre álbuns, singles, EP’s recém lançados.

Parece que o Massive Attack está se especializando em deixar seus fãs na seca, cada vez mais aumentam o hiato entre seus álbuns, cinco, sete anos… fica-se a imaginar que seu próximo álbum talvez saia em… 2020? Não dá pra considerar ‘Collected’, pois é uma coletânea. Nesses sete anos que separam ‘Heligoland’ (nome de um arquipélago alemão) de ‘100th Window’ (2003) é evidente que a música pop passou por mudanças e com o Massive attack não poderia ser diferente: “O mundo mudou e nós acompanhamos essas mudanças. Faz parte do crescimento, não é?”, disse Del Naja em entrevista a Folha Ilustrada. É perceptível a mudança na sonoridade do grupo, hoje um duo, desde a saída de Adrian Vowles (Mushroom), após o lançamento de ‘Mezzanine’. ‘Heligoland’ marca a volta da parceria mais estreita entre Del Naja (3D) e Grant Marshall (Daddy G), os remanescentes, já que ‘100th Window’ foi praticamente um disco solo de Del Naja. Menos denso e mais “variado” que seu antecessor, ‘Heligoland’ amplia o leque de parcerias do Massive Attack, que além dos já conhecidos Horace Andy e Martina Topley-Bird, traz Damon Albarn (Blur), Tunde Adebimpe (Tv on the Radio), Hope Sandoval e Guy Harvey (Elbow). Encontra o Massive Attack com um conjunto mais diverso de canções e ambientes, que vão desde o breakbeat de ‘Babel’ até a densidade/sensualidade trip-hop de ‘Splitting the Atom’ e ‘Girl I Love You’, relembrando os velhos tempos, ou os experimentos eletrônicos de ‘Flat of the Blade’, e a beleza quase épica de ‘Saturday Come Slow’.

PS: ‘Heligoland’ será lançado no dia 09 de fevereiro.

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ACIDEZ é a palavra que resume este trabalho desta banda da Filadélfia que estreou ano passado com o EP ‘Sitting Softly In The Sea’. ‘Tradition’ é música eletrônica lo-fi-espacial, com muito experimentalismo e algo de psicodélico pairando no ar. Influências à parte (Brian Eno e música eletrônica dos 70’s), têm-se aqui um trabalho eletrônico que merece toda uma atenção especial. São aproximadamente 30 minutos (27 min e 45 s exatamente) de uma curta viagem sonora a uma galáxia musical distante. Vocais prolongados e com profundidade, ora etéreos, ora soterrados por efeitos e camadas de teclados, aliado a um instrumental com elementos sutis, muitas vezes “nervosos”, criam todo um clima transcendental e ácido, conduzindo o ouvinte a uma outra “dimensão musical”. O álbum tem suas músicas interligadas, criando uma unidade sem soar repetitivo, e determinando, provavelmente, um trabalho conceitual. Destaque para as envolventes “The Knife House”, “Be Cool” e “Right Season”. Um bom começo pra 2010!

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