SAINDO DO FORNO: Philip Selway – Let Me Go (OST), (2017)

Philip Selway é baterista do Radiohead. Lançou dois discos onde conseguiu fugir da sombra de sua banda, revelando em parte sua independência criativa e talentosa fora do quinteto. Dois trabalhos interessantes e que você pode procurar por eles: ‘Familial’ (2010) e ‘Weatherhouse’ (2014). A nova empreitada é a trilha sonora do filme ‘Let Me Go’, da diretora inglesa Polly Steele. Dentro de um conceito OST, Philip segue corretamente a cartilha e constrói paisagens climáticas ou onde há uma beleza e um silêncio próprios para a reflexão do ouvinte (que funcionam melhor depois da justa contemplação do filme). Os detalhes são ricos, tudo é preenchido com violinos, guitarra dedilhada, vibrafone, pianos, glockenspiel e uma discreta eletrônica para completar algumas faixas. Instrumentos que fogem do lugar-comum ao qual o músico está habituado, a bateria. Apenas três faixas possuem vocais, e uma delas, ‘Walk’, ficou radiante na voz feminina de Lou Rhodes, vocalista do Lamb.

Faixas:
01. Helga’s Theme
02. Wide Open
03. Mine
04. Zakopane
05. Walk
06. Snakecharmer
07. Mutti
08. Last Act
09. Let Me Go
10. Days And Nights
11. Don’t Go Now (Elysian Quartet)
12. Let Me Go (Rhodes)
13. Necklace
14. Helga’s Theme (Saw)

Sobre o filme, leia aqui

Sobre o músico
Pitchfork
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Uma prévia do álbum, com algumas músicas

JOGOS: Lego Star Wars: The Force Awakens (2016)

Nota: 8,0

Star Wars: The Force Awakens é reverenciado pela franquia de jogos Lego de uma forma fiel ao filme e muito divertida deixando ao jogador uma boa opção de jogo.

Conheci o universo de jogos da Lego jogando ‘Indiana Jones 2 The Adventures Continues’ em 2009. Depois disso, virou um vício curtir os outros jogos, quebrar ou construir blocos, sair à caça de blocos dourados, coletar personagens, fechar as fases com 100%, curtir cenas de filmes famosos tão bem transpostas pra um jogo. O universo Lego é variado: Jurassic World, Marvel, Batman, Hobbit, Senhor dos Anéis, Piratas do Caribe, Harry Potter, só pra citar alguns. Claro que considero que ainda falta 007 e Game Of Thrones na lista da produtora de jogos (quem sabe num futuro próximo).

Depois de uns 15 jogos, posso dizer que Lego não muda. Segue o seu modo básico de jogar. Faça as fases normalmente no modo história, ao longo do avanço do jogo, personagens são desbloqueados (mais de 200 para obter), isso permite você voltar depois no jogo livre e coletar objetos que apenas com alguns personagens e suas habilidades era possível. A busca de tijolos vermelhos e dourados, somando a lista de inúmeros personagens a serem adquiridos também incrementa a jogatina. Entretanto, em The Force Awakens, duas novidades vieram de forma a evoluir bem o jogo. Os blocos que você quebra e usa para construir peças necessárias para o avanço de fases podem ser usadas em mais lugares. Você usa o direcional para construir em outro espaço do ambiente, o que dá direito a lugares secretos ou mesmo na coleta de algum minikit (vitais para quem curte troféus). Ou seja, existe uma maior abrangência das construções fazendo o jogador ter mais percepções e investigar melhor sua jogada. Outra novidade, partindo para o lado da ação, é o uso de covers trazendo dinâmica e estratégia para os tiroteios, recurso que fica nada devendo a grandes jogos que também usam esse sistema tais como Uncharted e Gears Of War.

Outro primor desse jogo é a caracterização correta e fiel dos personagens. Kylo Ren, BB-8, Rey e Finn são belos exemplos. Com a DLC instalada, personagens dos filmes mais antigos também podem ser jogáveis como Boba Fett e Yoda. O mesmo vale para as cenas dos filmes que são bem reais e aqui até ganham toques bem humorados nas cutscenes, causando no jogador a vontade de não cortar as cenas e seguir acompanhando também a história do jogo. Pra completar, dezenas de missões secundárias, corridas e objetivos dos mais variados a serem cumpridos, além das fases bônus que serão destravadas. Um fator replay incrível que dará ao jogador que vasculha tudo umas 25 a 30 horas de jogo. É Lego sempre em plena forma casando cinema com jogo, unindo o jogador novo ou velho num jogo bem feito, divertido e criativo.

A versão avaliada é a de PS3. O jogo também saiu para Xbox One, Xbox 360, PS4 e PC.

Site do jogo
Steam

DEPECHE MODE – Spirit (2017)

NOTA: 8,0



“Apesar do clima de continuidade, Depeche Mode não decepciona e reafirma sua relevância”

Perto de completar quarenta anos de carreira o Depeche Mode demonstra que não está disposto a sentar-se na confortável poltrona do comodismo que costuma atrair muitos artistas ou, como diria Raul Seixas, “ficar com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”.

Com uma carreira de caminhos sinuosos, o Depeche Mode faz parte do grupo de bandas que começou com uma proposta sonora que foi sendo aperfeiçoada ao longo dos discos, lapidando, aparando arestas e alargando fronteiras. Do tecnopop de batidas dançantes e melodias simples fizeram a transição gradual para os instrumentais densos e de letras sobre dor, culpa e redenção. Passaram da infância à fase adulta e chegaram à meia idade, com perdas e ganhos, quedas e resurgimento. Tornaram-se maduros, sua música é reflexo disso.

“Spirit” simboliza essa maturidade, não no arcabouço musical, já que está tão próximo do seu antecessor que mais parece uma continuação, mas nas mensagens expressas nas letras, que da forma mais direta possível alerta para uma série de problemas que recrudescem em nossa sociedade.
A sensação de que estamos retrocedendo, ao invés de seguirmos num processo evolutivo, é o tema da abertura do disco na faixa “Going Backwards”. Esse paradoxo em que nossa sociedade parece estar engasgado também é explorado de forma inteligente e contundente na série “Black Mirror”; apesar de todos os avanços tecnológicos alcançados, ainda observamos as mesmas mazelas sociais de séculos atrás e, enquanto indivíduos, continuamos arraigados a concepções ultrapassadas.

Aí a banda lança a pergunta desafiadora na faixa seguinte: “Onde está a revolução?”. A revolução tanto pode ser entendida individual quanto coletivamente. A repetição de frases serve como forma de martelar o ouvinte com o questionamento: “Where’s the Revolution, come on people you let me down”. Ambas as faixas são conduzidas por uma base percussiva e repetitiva com elementos que surgem e se vão ao longo de seus cinco minutos. À base minimalista agregam-se diversos elementos, criando certa aura de tensão e suspense. Esse minimalismo perpassa todo o álbum, estava também presente no subestimado “Delta Machine”(2013).

”The Worst Crime” e “Scum” seguem pelo mesmo caminho das letras ácidas. A primeira, quase à capela, alerta fala dos perigos de líderes populistas e sobre os julgamentos precipitados, e como podem conduzir a condenações injustas, levando-se a cometer “o pior crime”. “Scum” é uma crítica à superficialidade, às pessoas sem conteúdo, vazias por dentro, egoístas. O instrumental e letra são bem repetitivos. “Poor Man” também segue enfiando o dedo na ferida ao criticar as corporações e a forma como controlam nossas vidas. Embora nem todas as letras de “Spirit” mantenham o teor político, ele parece ter sido concebido com essa aura de tensão pairando sobre os pensamentos de Martin e Dave.

Sobre o título do álbum, em entrevista Dave definiu as intenções: “Queremos estimular o pensamento. E, para isso, levantamos várias questões. A mais importante é: Onde está o espírito de união? É essencial pensarmos sobre isto, porque hoje vivemos num mundo que potencia a separação”. A saída do Reino Unido da União Européia pode ser um exemplo dessa falta de união citada pelo vocalista.

“You Move” explora a ideia da sensualidade: “Eu gosto da maneira que você se move, gosto da maneira que você se move esta noite”. “Cover me” é um pedido de ajuda: “Proteja me”. “Eternal” é outra faixa à capela, mas com uma declaração de amor intensa, lembrando “Somebody”: ” Você é a minha eterna, amor eterno”. Em “Poison Heart” utilizam andamento de blues e riffs de guitarra. Os momentos densos, beirando um álbum sombrio, cede espaço para uma levada dançante que pode fazer sucesso nas pistas em “So Much Love”. Embora não seja suficiente para tirar a característica soturna que permeia todo o álbum, cuja produção a cargo de James Ford (Simian Mobile Disco) ressalta os sons mais graves a todo instante, com as batidas da bateria bastante secas.

“Spirit” fecha com “Fail”, outra faixa de letra pesada e frases de alerta bem pessimistas: “Nossas almas são corruptas. Nossas mentes estão bagunçadas. Nossas consciências, falidas. Oh, estamos fodidos… É inútil até mesmo começar a ter esperança. Que a justiça vai prevalecer. Que a verdade vai derrubar as escalas”.

Fãs saudosos podem até reclamar que a banda poderia tentar reeditar algo nos moldes do “Violator”. Mas é saudosismo! Lá se vão quase trinta anos e nem no álbum que o sucedeu o Depeche Mode olhou para trás, “Songs of Faith and Devotion” foi mais uma guinada na música do grupo. E essa tendência de ir saindo do círculo musical havia começado bem antes, lá em “Black Celebration”.

“Spirit” é um álbum intenso, oferece algumas canções com temática mais romântica, mas no geral tenta pesar a mão na consciência do seu ouvinte sobre uma série de questões que estão acontecendo ao redor do mundo e requerem atenção. O Depeche Mode mostra porque continuam relevantes no cenário da música eletrônica.

SAIU DO FORNO: OMD – The Punishment of Luxury (2017)

Orchestral Manoeuvres in the Dark. Ou apenas OMD, como ficou bem conhecido nos 80’s. Liderados por Andy McCluskey, os ingleses seguiram sempre bem lembrados até 1996. Separaram, retornando aos álbuns em 2010. Para muitos, o OMD é um dos pioneiros do Synth-pop, o que em parte tem todo sentido. Criaram diversos hits* e serviram de influência para muitos nomes da eletrônica que estavam começando. ‘The Punishment of Luxury’ é o décimo-terceiro trabalho do grupo que continua com a mesma fórmula, uma sonoridade permeada entre o Synth-pop e a New Wave. Uma das características permanece intacta: a profusão de sintetizadores que conduzem canções que nunca perdem o jeito de hit, exemplo de ‘Isotype’ e ‘Ghost Star’. Uma das maiores influências para os ingleses foi o Kraftwerk. O grupo segue a sonoridade dos alemães, inclusive citando tecnologia, modernidade e a relação homem-máquina (‘Robot Man’ e ‘Art Eats Art’). Há espaço para momentos mais climáticos e experimentais (‘As We Open, So We Close’). ‘La Mitrailleuse’ pode parecer estranha, traz barulhos de metralhadoras, lembra bandas como Laibach e Front 242, entretanto prova que o OMD busca sempre estudar mais a música eletrônica, mesmo que seja no jeito que ficou conhecido há quase 40 anos atrás.

* Canções como Enola Gay, Secret, So In Love, Souvenir, Electricity, entre outras.

Faixas:
01. The Punishment of Luxury
02. Isotype
03. Robot Man
04. What Have We Done
05. Precision & Decay
06. As We Open, So We Close
07. Art Eats Art
08. Kiss Kiss Kiss Bang Bang Bang
09. One More Time
10. La Mitrailleuse
11. Ghost Star
12. The View From Here

Para saber mais
Allmusic
Site oficial
Twitter

O vídeo de ‘La Mitrailleuse’

QUEM?: Spirea X

As raízes do Spirea X estão fincadas em outra banda escocesa, no Primal Scream, de onde saiu um dos fundadores, o guitarrista Jim Beattie, e também o nome da banda – Spirea-X é o nome de uma das faixas do lado B do single “Cristal Crescent”, do Primal Scream. Beattie largou o Primal Scream em 1988, logo após o lançamento do primeiro álbum, “Sonic Flower Groove”, ao que tudo indica dor diferenças musicais. Posteriormente juntou-se a sua namorada Judith Boyle (backing vocals) e mais James O’Donnell (baixo) , Thomas McGurk (guitarra) e Andy Kerr (bateria) e deu vida ao Spirea X, que logo foi contratado pela gravadora 4AD.

Em abril de 91 o Spirea X lança seu primeiro single, “Chlorine Dream”, inspirado na vida de Brian Jones (Rolling Stones). “É mais sobre uma pessoa como Brian Jones do que sobre o Brian Jones em si”, afirmou Beattie em uma entrevista da época, admitindo que na época em que escreveu a canção estava lendo um livro sobre os Stones. “Chlorine Dream” tem toques psicodélicos, batida dançante e vocais lânguidos, elementos muito usados na época por bandas como Telescopes, Chapterhouse, The Charlatans, Ride e o próprio Primal Scream. Apesar disso, Beattie, considerado arrogante por parte da imprensa, insistia que não havia banda igual a eles.

Esse lado polêmico/presunçoso de Beattie pode ser encontrado em algumas frases que costumava usar em entrevistas, duas delas: “Não acho que somos ególatras como o Ride, não preciso pois tenho minha música que me garante”; “Há muitas pessoas são reticentes em suas ideias, não sou como elas. Somos um grupo pop brilhante. Escrevemos canções brilhantes. Odiamos os Stone Roses e não há muito mais a falar”.

Em maio de 91 sai o EP “Speed Reaction”, contendo a faixa título e mais três canções. A canção título segue por um lado ensolarado, lembrando algo do Primal Scream era “Sonic Flower Groove”. “What Kind of Love” também tem um quê de Primal Scream, só que já com a pegada percussiva dançante, backing vocals femininos e guitarras distorcidas esparsas.

“Fireblade Skies” é lançado em outubro de 1991. O álbum traz onze faixas, nove inéditas e os a-sides dos singles anteriormente lançados. Não há surpresas, musicalmente falando, a verve é a mesma que já vinham mostrando: psicodelia, batidas dançantes, melodias e riff ganchudos, vocais lânguidos, mantendo-se em para com as bandas já citadas no segundo parágrafo. Cabe destacar as faixas: ” Nothing Happened Yesterday” (uma gema pop), “Fire and Light” (a canção mais viajada do grupo), “Confusion in my Soul” e “Sunset Down” (totalmente lisérgica).

Em 92, com a banda já reduzida a um duo, restando apenas Beattie e a namorada, o Spirea X é dispensado pela 4AD e na sequência encerra as atividades. A dupla viria a formar o Adventures in Stereo.

:::ÁLBUNS:
Fireblade Skies (1991)

::: SINGLES/EP’S:
Chlorine Dream (1991)
Speed reaction (1991)

:::MAIS SOBRE A BANDA:

+ 4AD
+ Reportagem
+ Resenha

CINEMA: O Lamento (The Wailing / Gokseong, 2016)

NOTA: 8,5

“Horror coreano dá novos ares ao estilo sem apelar para os sustos fáceis”

O que primeiro chama a atenção em “O Lamento” é a sua longa duração para os padrões estabelecidos pelo cinema hollywoodiano, formatados geralmente em uma hora e quarenta minutos no máximo, aqui são duas horas e meia aproximadamente, o que já de início deixa clara a intenção do diretor em contar sua estória sem pressa, de forma que possa envolver o espectador com o ambiente em que a mesma se desenrola e desenvolver os personagens de forma que se possa criar empatia com os mesmos.

Esse é o terceiro longa do diretor coreano Hong-Jin Na, que também é o responsável pelo roteiro do filme. Com ele conseguiu abocanhar o prêmio de melhor diretor em festivais asiáticos. Logo não estranhem se de repente der as caras em alguma produção hollywoodiana, o que seria muito justo dada as qualidades que consegue apresentar nesse longa de horror.

Num pacato vilarejo no interior da Coréia uma série de chacinas brutais começam a quebrar a normalidade e atemorizar a população, o que coincide com a chegada de um japonês misterioso que vive isolado na floresta (Jun Kunimura). Com a polícia investigando o caso, entra em cena o atrapalhado e covarde policial Jong-goo (Do-won Kwak), que junto com seu parceiro serão responsáveis por algumas das cenas mais cômicas já vistas em filmes de terror. A cena da falta de energia e a em que é atacado por uma senhora cheia de queimaduras são impagáveis. Aí alguns poderão até pensar estar diante de um típico terrir, de algo na linha de “Fome Animal”, mas esse primeiro ato cômico ocupa apenas a primeira hora do filme, como se pretendesse deixar o espectador relaxado, ao tempo que aproxima o espectador dos personagens, pessoas simples e cheias de temores e fraquezas.

A medida que “O Lamento” avança o clima vai ficando mais denso com a atmosfera do vilarejo se tornando cada vez mais ameaçadora. O roteiro passa então a ir conduzindo por pistas falsas, mudando o foco propositadamente, de forma a desembocar num final não só surpreendente como também que deixa algumas perguntas sem resposta. O que de forma alguma subtrai a sua capacidade de envolver, ao ponto das duas horas e meia passarem sem que se dê conta. Essas perguntas sem resposta parecem propositais, obrigam o espectador a tentar montar o quebra-cabeça que o roteiro promoveu em sua meia hora final, onde nada é o que parece ser.

Há uma série de fatores que conspiram a favor do filme: a fotografia é exuberante, com longas tomadas em aberto da floresta que circunda o vilarejo, mas assustadora; as atuações dos personagens principais são convincentes; os diálogos e situações, mesmo as mais surreais e hilárias, não resvalam para os clichês que estamos habituados; e, o principal, as crenças, lendas e mitos orientais fogem do comumente mostrado no terror ocidental. O que para alguns pode causar certa estranheza, serve de elemento para criar um ambiente desconhecido, incomum. Como na cena do ritual praticada pelo xamã, que em outros filmes seria feita por um padre exorcista. Há certos exageros, como a quantidade de sangue espalhado nas cenas dos assassinatos, o que pode ser tomado como forma tornar mais impactante os crimes.

Quem espera algo na linha de filmes do estilo trilha sonora que se eleva para provocar sustos ou monstros sobrenaturais atacando pessoas, ou efeitos especiais esplendorosos irá se decepcionar – alguns chegaram a compará-lo ao filme “A Bruxa”, devido a forma como o horror se apresenta. O caminho seguido aqui é então mais do horror do que do terror, horror este que em grande parte do tempo está em suspensão, noutros apenas de forma psicológica, mas que sempre desemboca de forma avassaladora e cruel sobre os personagens, não fazendo concessão em momento algum, o que nos remete a, por exemplo, “Eden Lake”, apenas no que se refere ao final pessimista, já que “O Lamento” quase nada é mostrado, sendo muito mais sugerido.

*PS: Comenta-se que Ridley Scott pretende fazer um remake do filme, precisa?

VIDEO: Living Colour – Live in Woodstock Festival Poland (2016)

Living Colour é uma banda novaiorquina formada nos anos 80. Lançaram “Vivid”, seu primeiro álbum, em 88 e logo foram aclamados por crítica e público, que se deleitaram com o crossover praticado pela banda onde misturavam elementos de hard-rock com hip-hop, blues, música caribenha, reaggae e outros ritmos, sempre com uma pegada intensa na cozinha e tendo à frente Vernon Reid, guitarrista que logo foi alçado ao grupo dos guitar heroes, além de presença constante no lendário clube CBGB. Destaque para a ácida “Cult of Personality” e o vozeirão de Corey Glover.

“Time’s Up” (1990), seu segundo álbum, manteve a banda ainda em alta, apresentando a arrasa quarteirão e polêmica “Elvis is Dead”, que conta com a ilustre presença de Little Richard. “Stain” (1993) marcou a saída do baixista Muzz Skillings e entrada de Doug Wimbish além de mudança na sonoridade do grupo, que adicionou à sua música elementos eletrônicos, de música industrial e uma pegada bem mais pesada que antes. Após um hiato de dez anos, lançaram os pouco comentados “Collideøscope” (2003) e “The Chair in the Doorway” (2009). No dia 08/09 sai “Shade”, quinto álbum da banda, após oito anos de silêncio discográfico e enquanto isso podemos curtir esse ótimo show da banda.

Essa é uma apresentação da banda no Woodstock polonês em 2016, onde apresentam uma mescla de seu repertório ao longo dos anos de carreira, além de acrescentar versões para Beatles (Tomorrow Never Knows) e The Clash (Should I Stay or Should I Go). Qualidade de áudio e vídeo perfeitas e a banda bastante afiada, com Corey cantando muito bem, apesar dos anos, e Reid e Wimbish segurando a onda em todos os momentos, principalmente quando resolvem enveredar pelo lado mais virtuoso e cheio de fírulas. Peca por deixar de fora “Elvis is Dead” e “Memories Can’t Wait” (cover do Talking Heads).

Para quem curte: Red Hot Chili Peppers, Faith no More, Infectious Groove, crossover e virtuoses.

Setlist: 01 – Middle Man, 02 – Type, 03 – Ignorance is Bliss, 04 – Desperate People, 05 – Sunshine of Your Love, 06 – Love Rears Its Ugly Head, 07 – Tomorrow Never Knows (The Beatles cover), 08 – Go Away, 09 – Time’s Up, 10 – Cult of Personality, 11 – Should I Stay or Should I Go (The Clash cover)

SAINDO DO FORNO: Starsailor – All This Life (2017)

Um hiato de oito anos e o Starsailor volta a apresentar um álbum de inéditas. Segundo o vocalista James Walsh a ideia era apenas fazer alguns shows, mas aí veio o selo Cooking Vinyl e ofereceu a oportunidade de lançarem um novo álbum. Surgido no inicio da década de 2000, o Starsailor logo agradou público e imprensa com o álbum “Love is Here”, com destaque pra faixa “Alcooholic”. A época era bem propicia para o tipo de música executado pela banda, as paradas estavam dominadas por nomes como Coldplay, Travis, Muse, Doves, Elbow, Embrace, e outros nomes menos conhecidos despontavam como o post britpop. A sonoridade do trio encaixava-se bem no contexto, com destaque para as baladas confessionais, geralmente com ênfase ao piano. Sobre a faixa que abre o novo álbum (Listen to Your Heart), o vocalista descreve como uma “canção emocional e energética” e acrescenta: “acho que fazendo o que nós fazemos, você tem que ser levado pela emoção e pelo instinto”. Assim como há essa abertura explosiva, “All This Life” guarda também os momentos baladeiros como em “Sunday Best” ou em “Blood, e tendência para o pop mais acessível como em “Take a Little Time” e “Caught in the Meddle”. Destaque: “FIA (Fuck It All)”.

:: DATA DE LANÇAMENTO: 01 de setembro, pelo selo Cooking Vinyl

:: FAIXAS:

01. Listen To Your Heart
02. All This Life
03. Take A Little Time
04. Caught In The Middle
05. Sunday Best
06. Blood
07. Best Of Me
08. Break The Cycle
09. Fallout
10. FIA (F**k It All)
11. No One Else

SAIU DO FORNO: FRANKIE ROSE – CAGE TROPICAL (2017)

Alguns artistas são incansáveis. A cantora Frankie Rose já foi integrante de bandas como Crystal Stilts, Dum Dum Girls e Vivian Girls. Não bastasse isso, também faz composições para cinema e TV. Essa inquietude igualmente se reflete em seu quarto trabalho, ‘Cage Tropical’. Além de fincar um pé na sonoridade atual, em parte condensada pelas bandas que atuou como integrante (já citadas acima), Frankie também faz um estudo da música em praticamente 3 décadas. Muitas influências e referências são tratadas aqui. ‘Love In Rockets’ carrega nos 80’s/90’s ao trazer o clima etéreo de um Cocteau Twins, enquanto o rock engajado com boa presença de sintetizadores de ‘Trouble’ parece algo vindo do Blondie final dos 70’s. A faixa ‘Cage Tropical’ tem o gosto de um pop ensolarado e de se cantar junto que o Bananarama fez tão bem na década oitentista.

FAIXAS:
01 – Love In Rockets
02 – Dyson Sphere
03 – Trouble
04 – Art Bell
05 – Dancing Down The Hall
06 – Cage Tropical
07 – Game To Play
08 – Red Museum
09 – Epic Slack
10 – Decontrol

Mais sobre a cantora:
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Bandcamp
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O vídeo oficial de ‘Red Museum’

Grizzly Bear – Painted Ruins (2017)

Nota: 8,5

Edward Droste e companhia voltam a criar um compêndio de canções interessantes sustentadas por arranjos primorosos dentro de um padrão indie-rock consistente e convincente.

O Grizzly Bear, após cinco discos de estúdio, já criou sua identidade e serve como referência para várias bandas que estão começando. Apesar disso, há sempre uma diferença nos trabalhos do grupo. Mesmo dentro de um padrão de elaboração, cada disco traz sua característica e pode causar no ouvinte inúmeras percepções, sentimentos, julgamentos. Pode soar mais intrincado ou mais acessível, pode ser mais barulhento ou mesmo mais melancólico. Fato certo é que todo álbum dos americanos precisa de inúmeras explorações e nada funciona numa primeira audição e sem a devida atenção. Isso é mérito hoje em dia, apesar de muitos optarem pela velocidade em assimilar algo, só para fazer uma pseudo afirmação de que entendeu aquela forma de arte.

Para ‘Painted Ruins’, vale tudo o que foi citado acima. Esse é outro trabalho do quarteto que precisa ser descoberto, e a cada faixa, um pouco do que o Grizzly Bear tem feito, fragmentos estilhaçados dos álbuns anteriores. Tanto que é errôneo dizer que esse disco está melhor ou pior que a anterior, ‘Shields’ (2012). Cinco anos de diferença. Como pode ser notado, o grupo não tem pressa em lançar algo. Não é por menos, as onze faixas completam um repertório que acaba funcionando igualmente, nada sobra, nada falta. É uma seleção de composições que carregam o cuidado nas construções harmônicas que Droste e companhia lapidam desde o début.

Pontuado por várias gerações, fases da música e claro, pela própria história do grupo, o novo álbum também é um recorte bem planejado e interessante para quem acompanha essa arte. Considero o quarteto como uma das bandas mais influenciadas por The Beatles, muito visível os traços da sonoridade Beatleriana em ‘Losing All Sense’. ‘Aquarian’ nos transporta para o rock psicodélico 70’s ajustado corretamente pros dias atuais, ‘Three Rings’ é uma canção que se encaixaria corretamente num trabalho marcante como ‘Kid A’ do Radiohead. Sim, isso mesmo. ‘Mourning Sound’ continua perpetuando o jeito Grizzly Bear de se criar uma música grudenta e radiofônica (como já haviam feito perfeitamente com os singles ‘Two Weeks’ e ‘Yet Again’).

Desde o primeiro disco (lá em 2004) até ‘Painted Ruins’, o Grizzly Bear vai mantendo o equilíbrio sem perder a qualidade, o esmero e a criatividade artística. Muitas bandas não conseguiram e acabaram caindo ou no limbo ou caminhando para um terreno perigoso. A turma de Droste não, continua num estado de aprimoramento e prefere seguir no seu jeito, na sua proposta, num percurso de valorizar a música e seus recursos: letras, arranjos, melodia, ritmo, acordes, criação e a boa recepção do ouvinte.

Saiba mais:
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O vídeo de ‘Neighbors’

LISTA DE 7: 7 filmes com carros

Vejo o trailer de ‘Velozes e Furiosos 8’, apesar da franquia não me interessar, e fico pensando como carro é uma constante nas telas do cinema. Muitas vezes ele rouba a cena, pode aparecer até mais do que o personagem humano. Em vários filmes, ele foi um vilão. Ou mesmo pode ser o companheiro inseparável do personagem. Vou citar 7 filmes marcantes aqui onde o carro foi peça importante para a trama do filme (a lista está por ordem cronológica)


01 – Deu a Louca no Mundo (‘It’s A Mad, Mad, Mad, Mad World’, 1963)
Não me interesso tanto por comédias, mas essa é genial, a começar pela ideia. Uma pessoa sofre um acidente e perto de morrer passa as dicas de um tesouro para um grupo de pessoas, causando assim uma perseguição envolvendo carros e muita confusão. Mesmo que o filme despenque em certo momento para a comédia pastelão, o resultado final agrada tanto adultos quanto as crianças. Além de nos faz resgatar outra pérola da televisão, o desenho ‘Corrida Maluca’ da Hanna Barbera.


02 – Bullit (‘Bullit’, 1968)
O filme que com certeza todo cinéfilo deve ter assistido. Ou então, que deveria assistir. Em parte, ‘Bullit’ foi um dos maiores influenciadores para os filmes atuais de ação. Muita perseguição e tudo bem feito numa época em que tecnologia no cinema era um sonho distante. Até hoje a cena nas ladeiras de San Francisco é antológica e lembrada por muitos espectadores.


03 – Encurralado (‘Duel’, 1971)
Um humilde vendedor de eletrodomésticos com uma missão, a princípio simples: atravessar um deserto para realizar uma venda. Mas, ao longo da viagem, um caminhão-tanque vai tirar seu sossego. Tensão, surpresas e desespero num filme que não nos deixa respirar em cada frame. O interessante é que a produção é de Steven Spielberg (ainda nem tão famoso) e praticamente teve um modesto orçamento.

04 – Carros Usados (‘Used Cars’, 1980 – foto da matéria)
Filme um pouco esquecido pela plateia brasileira, mas que traz uma comédia bem feita e com uma proposta até original: dois donos de lojas de carros usados fazem de tudo para conquistar seus clientes. Espere por muitas reviravoltas, cenas memoráveis e um final soberbo e criativo. Vale ressaltar a presença de Kurt Russell, ainda bem desconhecido no cinema.


05 – Christine, O Carro Assassino (‘Christine’, 1983)
Neste caso, até recomendo ler o livro de Stephen King. Contudo, o filme de John Carpenter faz bonito também e entrega um suspense/terror até hoje citado entre os fãs desses gêneros. O filme consegue captar firmemente o quanto um bem de consumo pode influenciar/manipular o seu dono. Mais do que tudo, é interessante ver um pouco da personificação humana num objeto como um carro.


06 – Carros (‘Cars’, 2006)
Se nos anos 80 tínhamos bons desenhos tendo carros/veículos como personagens (a exemplo de ‘Carangas e Motocas’), na década passada a Pixar fez uma animação de sucesso típica do estúdio, muito bem produzida e com um roteiro seguro. Difícil não se emocionar ali com personagens como Relâmpago McQueen, Luigi e Mate. O interessante é como a produtora consegue unir personalidades humanas de forma correta aos estilos dos carros.


07 – Mad Max: A Estrada da Fúria (‘Mad Max: Fury Road’, 2015)
Antes de tudo, poderia colocar aqui qualquer um dos filmes da trilogia que consagrou Mad Max como um dos filmes mais interessantes da história do cinema. Claro que alguns torcem a cara pra ‘Mad Max: Além da Cúpula do Trovão’, talvez a exceção da trilogia. Coloco esse Mad Max repaginado porque sem dúvidas, é uma própria referência do que o cinema tem pra oferecer e do que criou nestes tempos onde o visual impera: muito mais que um blockbuster, é não deixar uma franquia acabar ou então ficar pior. George Miller joga toda sua energia produtiva na ação que o filme contém, muitos dirão que esse Mad Max é quase como se tivéssemos vendo um jogo de videogame estilo ‘Twisted Metal’, mas não importa. Os temas estão ali, mesmo nessa roupagem moderna e contemplativa ao extremo: um futuro com falta de combustível, tirania, solidão, a desvalorização do humano, a máquina como um símbolo de dominação e status.

Outros filmes dignos de menção:
Louca Escapada (‘The Sugarland Express’, 1974)
Corrida da Morte Ano 2000 (‘Death Race 2000’, 1975)
Taxi Driver – Motorista de Táxi (‘Taxi Driver’, 1976)
O Carro, A Máquina do Diabo (‘The Car’, 1977)
Aparição (‘The Wraith’, 1986)
60 Segundos (‘Gone In 60 Seconds’, 2000)
Rush – No Limite da Emoção (‘Rush’, 2013)

Leitor, sua participação é importante. Comente, dê dicas sobre alguns filmes em que carros foram bem focalizados na trama.

SAINDO DO FORNO – UNKLE – The Road: Part 1 (2017)

‘Psyence Fiction’ (1998) é um disco que apesar de pouca divulgação, não deixa de ser um dos trabalhos mais interessantes na música até hoje. Unindo gêneros como rock, noise, jazz e eletrônico, contando com várias participações como Richard Ashcroft e Elliot Smith, o trabalho não pode passar despercebido. Fruto de um produtor musical chamado James Lavelle que resolveu, sobre o nome de UNKLE, realizar esse projeto. Assim vieram mais produções, talvez não com o mesmo peso e impacto. ‘The Road: Part 1’ é o quinto álbum do UNKLE, 7 anos após ‘Where Did The Night Fall’. Realmente é necessário ressaltar a diversidade sonora do álbum que pega a verve roqueira de ‘No Where To Run/Bandits’ com guitarra e cozinha poderosas, mas que também carrega no eletrônico à la Massive Attack de ‘Arms Lenght’. Outras faixas merecem destaque pela mudança que apresentam. Exemplo é ‘Sonata’ que começa com um clima Ambient, apenas piano e voz, para depois subir de cadência com batidas marcantes. ‘The Road’ resvala na psicodelia, enquanto ‘Looking For The Rain’ traz o notório Mark Lanegan com seu vozeirão certificando que esse é um disco multifacetado e bem eficaz para os ouvintes mais pacientes e exigentes.

FAIXAS:
01. Iter I: Have You Looked At Yourself
02. Farewell (feat. YSÉE, ESKA, Elliott Power, Keaton Henson, Liela Moss, Mïnk, Dhani Harrison, and Steven Young)
03. Looking For the Rain (feat. Mark Lanegan and ESKA)
04. Cowboys Or Indians (feat. Elliott Power, Mïnk, and YSÉE)
05. Iter II: How Do You Feel
06. Nowhere to Run/Bandits
07. Iter III: Keep On Runnin
08. Stole Enough (feat. Mïnk)
09. Arms Length (feat. Elliott Power, Mïnk and Callum Finn)
10. Iter IV: We Are Stardust
11. Sonata (feat. Keaton Henson)
12. The Road (feat. ESKA)
13. Iter V: Friend Or Foe
14. Sunrise (Always Come Around) (feat. Liela Moss)
15. Sick Lullaby (feat. Keaton Henson)

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Vídeo oficial da canção ‘Cowboys Or Indians’

Toro Y Moi – Boo Boo (2017)

Nota: 6,5

Apesar de ainda não ser um disco ideal, ‘Boo Boo’ reflete as mudanças tanto pessoais como sonoras de um dos grandes nomes surgidos e edificados da era Chillwave.

Caso possamos dizer que algum gênero musical teve sua efervescência, então é correto afirmar que a Chillwave teve seu momento especial entre o final da década de 2000 chegando até 2012/2013. Nomes como Washed Out, Neon Indian, Slow Magic e Porcelain Raft foram grandes expoentes que surgiram e lançaram discos importantes colocando o gênero em evidência. Toro Y Moi também pode ser destacado. O músico por trás do projeto é Chazwick Bradley Bundick, ou melhor, Chaz Bear (mudança de nome antes do lançamento do álbum). ‘Underneath The Pine’(2011) foi um grande álbum do músico dentro das características do gênero, um trabalho que o colocou como fundamental para a Chillwave, então na época com apenas 25 anos.

Os álbuns posteriores ‘Anything In Return’ (2013) e ‘What For’ (2015) apontavam novas direções para o Toro Y Moi. Alguns torceram o nariz por conta da fuga daquele cenário chillwave, outros viram como um músico ganhando experiência e explorando novos horizontes. Ainda que brevemente com um pé no gênero que o consagrou, contudo o disco tinha seus momentos com rhythm’and’blues, soul music e funk. Em ‘Boo Boo’, o artista assume uma identidade que se equipara com suas influências que englobam Daft Punk, Prince, Drake e Frank Ocean. Essa é também uma produção musical que vem acompanhada de um momento de reflexão de Bear, as melodias e as letras tomaram forma após um fim de relacionamento amoroso do músico e também mudança de cidade.

Não deixa de ser mais um trabalho diferente e que reflete outro momento do Toro Y Moi, contudo, o quinto disco de sua carreira não funciona corretamente e algumas canções ficam dispersas no repertório. ‘Windows’ e ‘Inside My Head’ tentam se valer inutilmente do excesso de efeitos vocais, trazem um instrumental insosso e destoam da criatividade do artista, que por sua vez, aflora em faixas como ‘No Show’ e ‘Don’t Try’ que reluzem com uma base eletrônica competente mesmo diante de um clima melancólico. Os mais nostálgicos também não deverão reclamar de ‘Mona Lisa’ e ‘Labyrinth’ que estão carregadas no clima 80’s, outra referência do Toro Y Moi.

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O video de ‘You And I’

Dê Uma Chance – The Phantom Band – Checkmate Savage (2009)

Sempre fico instigado e intrigado com algo que parece lembrar quase tudo, mas que na verdade, não quer representar absolutamente nada de concreto. Foi por essa razão, que desde o final de 2008, passei a escutar o primeiro disco que faria parte do meu longo caminho sonoro de 2009. Naquela época, um ano bem prolífico na música com bons lançamentos de discos. Atravessando uma fronteira de indefinições, os escoceses do The Phantom Band armam uma obra bem confeccionada e que acaba atirando para todos os lados – tal qual uma metralhadora com munição infinita. Infelizmente, o TPB é uma daquelas bandas que surgem repentinamente e conquistam logo no début, porém não costumam manter a tradição e a regularidade entre seus álbuns.

‘Checkmate Savage’ é, obrigatoriamente, o trabalho que precisa ser conhecido da banda. O disco com poucas faixas, entretanto que ostenta um bom tempo de gratas surpresas: mais de 50 minutos com canções que tem em torno de 4 a 8 minutos. O grupo casa o aparato eletrônico com o velho formato pop-rock para compor um arrasa-quarteirão como em ‘The Howling’. ‘Burial Sounds’ mostra que são capazes de hipnotizar o ouvinte cometendo bizarrices sonoras com vozes estranhas, bateria vertiginosa, baixo pulsante e efeitos de guitarra. Ao contrário do que o título sugere, ‘Folk Song Oblivion’ não é uma canção folk, longe disso, é uma música que representa o melhor da herança do pós-punk ou do rock fase 80’s. Destaque para os riffs grudentos das guitarras. Em algumas vezes, os escoceses se embrenham apenas no instrumental, porém, a quilométrica ‘Crocodile’ está longe de ser enfadonha pelas nuances que vai apresentando, isso até os minutos finais onde ocorre a explosão de guitarras frenéticas.

Com sonoridade pop-rock radiofônico, a dobradinha ‘Halfhound’ e ‘Left Wand Wave’ compõem os melhores momentos do álbum e talvez aquilo que poderíamos chamar de o ‘cartão de visitas’ da banda. Se você for apresentar a algum amigo o grupo, essas duas composições constituem-se numa proposta ideal. Agora sim, ‘Island’ é o trecho pop-folk do disco. Sobre um arranjo simples, pacífico e com belos dedilhados de cordas, contudo, que não deixa de comprovar a versatilidade sonora dos ‘fantasmas’. ‘The Whole Is On My Side’ fecha o disco com um louvor: segurar o ouvinte até os segundos finais, sem obrigá-lo a saltar faixas e até pedindo por mais.

Numa ‘quase-espécie’ de compêndio musical, passando por Neu!, Simple Minds, Gang Of Four, Violent Femmes, grupos atuais, os escoceses deixaram meus ouvidos colados ao player por muito tempo, e conseguiram conter meu dedo de não apertar as teclas ‘Stop’ ou ‘Fast-Forward’.

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Escute ‘The Howling’

OU NÃO: Au.Ra

Duo australiano chega ao segundo trabalho. Será que eles provam que tem méritos para ir adiante e alcançar um público maior, assim como ter um maior reconhecimento?

Tom Crandles e Tim Jenkins, dois exploradores da música. A partir de 2011, usando apenas uma bateria eletrônica e uma guitarra, começaram a dar sustento para algumas experimentações sonoras. Em 2015, chegou o début intitulado ‘Jane’s Lament’, o duo passou a usar o nome de Au.Ra. Os músicos não sentem vergonha de mostrar que beberam bastante da fonte 80’s/90’s, bem como estão antenados com a época atual. Logo, espere por um disco multifacetado. Por vezes existe a verve roqueira como em ‘Applause’ e ‘Black Hole’, em outras ocasiões é fácil observar que a dupla foi para o eletrônico mais centrado no synth-pop como é notado em ‘I Feel You’ e ‘Blue Chip’. Sobra até espaço para um folk psicodélico bem organizado em ‘Above The Triangle (II)’. Dream-pop e Shoegaze são outros gêneros que podem definir bem a sonoridade construída da dupla, sobretudo em faixas com muitos efeitos, reverbs, guitarras dedilhadas e sintetizadores (‘Pulse’).

Faixas do álbum:
01. Applause
02. I Feel You
03. Pulse
04. Blue Chip
05. Nowhere
06. Above the Triangle
07. Above the Triangle (II)
08. Black Hole
09. Set the Scene
10. Dreamwork

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Ouça ‘Set The Scene’

SAINDO DO FORNO: She Sir – Rival Island (2017)

Ao escutar bandas como She Sir sempre me passa pela cabeça vários momentos de minha vida, ou então, sou lançado para várias épocas. Os americanos conseguem juntar ao menos três décadas de música. Poderiam estar entre o rol dos novos grupos que seguem a cartilha do dream-pop/shoegaze, são influenciados também pelos arranjos 60’s de um The Beach Boys e ainda parecem que beberam bem do Fletwood Mac fase 80’s. Por exemplo, ‘Pheromondo (Babysitter’s Back)’ com um pop-rock elegante carregado de sutis sopros poderia ser algo lá do Fletwood (cairia bem na voz de Stevie Nicks, mas aqui o vocalista Russell Karloff também faz jus). O instrumental também é importante na concepção do álbum, tudo bem equilibrado. Sopros e uma bateria marcante preenchem corretamente a beleza de ‘Noon Inspirits’, por sua vez ‘Mirror, No (We’re The Same)’ que dar ênfase maior nas guitarras. O shoegaze é mais visível na cativante ‘‘Dark Glass Tomb’. Ao longo do disco, outras influências serão notadas: Felt, Pylon, Engineers, Ride, The Pains Of Being Pure At Heart. Pontos para a banda que causa no ouvinte o poder de se sensibilizar com o que pode trazer cada umas das 10 faixas de ‘Rival Island’.

Faixas:
01. Private Party
02. Manila Mint
03. Noon Inspirits
04. DBS
05. Quinine Courts
06. Diamond Churn
07. Pheromondo (Babysitter’s Back)
08. Corporealoro
09. Dark Glass Tomb
10. Mirror, No (We’re The Same)

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Ouça ‘Private Party’

CINEMA: Hidden (Hidden, 2014)

NOTA: 8,0

Depois do sucesso de público e crítica da série Stranger Things, os irmãos Matt Duffer e Ross Duffer foram alçados a fama, por terem desenvolvido uma série muito boa, e que trazia a seus espectadores boas lembranças de um passado bastante divertido e assustador, com várias referências a Steven Spielberg, Stephen King, dentre outros.

Com o nome dos irmãos em evidência, eis a oportunidade de conferir uma produção menor, mas tão atraente quanto a tão badalada série. O longa acompanha o drama vivido pelo pai de família Ray (Alexander Skarsgard), sua esposa Claire (Andrea Riseborough) e sua filha Zoe (Emily Alyn Lind), que tentam sobreviver dentro de um abrigo após a cidade onde moravam ter sido atacada por seres misteriosos. Esses seres, chamados de “Os Respiradores”, aparentemente dizimaram toda a humanidade, deixando um rastro de caos e destruição.

A película apresenta um clima totalmente pós-apocalíptico, assim como todos os temas tratados em filmes de zumbis e outros do gênero. Contudo, o seu grande feito, está na direção completamente precisa, na qual o espectador tem a sensação de estar aprisionado naquele Bunker, juntamente com aquela família, num ambiente claustrofóbico levando-o a interagir de fato com todo o elenco. Os irmãos Duffer constroem uma relação de expectativa com direito a bastante suspense. O filme tem elementos de outro longa lançado no ano seguinte, o também interessante Rua Cloverfield, mas que teve o problema de ser menos divulgado.

Com uma fotografia extremamente escura e sombria, e trilha sonora quase que imperceptível, Hidden convida o espectador a vivenciar uma situação extrema e de narrativa dinâmica com diálogos fortes. Um dos pontos altos desses diálogos evidencia a educação da filha, que por falta de companhia de crianças, tem em uma boneca, causando certa estranheza por parte de sua mãe.

Com atuações convincentes, o clímax do longa se dá no terceiro ato, com uma reviravolta difícil de ser imaginada pelo público comum. Uma pena que este último ato se alongue demais,  podendo ter sido um pouco reduzido, mas em nada diminui este filme que se mostrou uma grata surpresa.

Para maiores informações:
Filmow
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Rotten Tomatoes

Flotation Toy Warning – The Machine That Made Us (2017)

Nota: 9,0

Londrinos retornam depois de 12 anos com mais um trabalho interligado em vários gêneros e com um universo sonoro rico e pronto para ser explorado.

Durante o início da semana, quando recebi a informação de um novo disco do Flotation Toy Warning, a primeira reação, por incrível que pareça, foi de mandar mensagem para todos os meus amigos que, então, há 12 anos, me alertaram sobre um disco chamado ‘Bluffer’s Guide To The Flight Deck’. Sim, isso mesmo. O primeiro trabalho dos londrinos que até hoje considero disco de cabeceira. Os ingleses nunca fizeram estardalhaço, não são comentados em sites e blogs de música, sequer vi alguma entrevista com eles até hoje, muito menos vi alguém dizendo de algum show deles. Então, não tanto pelo tempo de espera por um novo álbum, mas a verdade nua e crua é que bandas como Flotation Toy Warning não podem acabar tão prematuramente, sempre revelam que há muito por mostrar, mesmo num porto seguro longe dos holofotes.

Para os mais desavisados e os mais apressados, FTW pode parecer um cruzamento (que funciona) entre Mercury Rev e Flaming Lips. Em ‘The Machine That Made Us’ a banda até parece um The Divine Comedy da época do ‘Regeneration’ (2001) quando ouvimos a linda ‘A Season Underground’. Entretanto, pare qualquer comparação a partir de agora. O Flotation tem sua identidade, praticamente construída em dois álbuns. Para quem teve o prazer de 12 anos atrás, o Flotation continua sendo o mesmo, novamente contando suas histórias sobre bases sonoras épicas, climáticas e apoteóticas. Eu cheguei a colocar a primeira faixa com medo, não queria que o grupo tivesse feito algo aquém do trabalho anterior. Não fizeram. O modus operandi é o mesmo, o resultado é eficaz, entretanto esse processo não é simples, a fusão entre gêneros é ampla: folk, chamber pop, space rock, neo-psicodelia, dream pop, experimental. A base sonora é também arquitetada em elementos de orquestra, porém bem casados num pop-rock que poderia muito bem estar em qualquer lista de melhores do ano (‘Due To Adverse Weather Conditions, All Of My Heroes Have Surrended’).

‘The Machine That Made’ é um disco complexo, porém nunca desanimador. Longo, contudo nada monótono. Oferece ao ouvinte peças de um quebra-cabeça que ele sentirá bem em montar e logo depois contemplar. A música do Flotation Toy Warning cita muitos exploradores e viajantes, pessoas em busca de aventuras. É tema constante nas letras dos ingleses. Assim talvez seja a banda, explorando sua sonoridade, expandindo horizontes, desbravando caminhos. Para o ouvinte fica o convite para que ele participe, não fique parado. O final da jornada será recompensador.

A resenha do disco de 2005, clique aqui

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Escute ‘Everything That Is Difficult Will Come To An End’